Prefeito lança plano para reinventar Itabira diante do fim do minério
O prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage, alerta que a cidade precisa se reinventar diante da previsão de escassez mineral nos próximos 15 anos. Em entrevista concedida neste domingo (22/2/2026), ele detalha o programa Itabira Sustentável, elaborado em parceria com a Vale e uma consultoria internacional, para preparar o município para um futuro menos dependente da mineração.
Cidade símbolo do minério encara virada de página
Itabira, berço da Vale e um dos principais polos mineradores do país, convive há décadas com a mesma pergunta: o que acontece quando o minério acabar? A resposta começa a ganhar forma agora, sob pressão do tempo e das reservas que encolhem. À frente da prefeitura e da Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (Amig Brasil), Marco Antônio Lage transforma o alerta em plano de ação.
O diagnóstico é direto. Estudos apontam que o volume explorável de minério de ferro na região entra em curva descendente e pode se esgotar em cerca de 15 anos, prazo equivalente a pouco mais de três mandatos de prefeito. Nesse horizonte, a principal fonte de riqueza da cidade corre o risco de minguar, junto com empregos, arrecadação e a cadeia de serviços que gira em torno das minas.
O prefeito diz que não há espaço para improviso. “Nós propusemos à Vale, assim que assumimos, em 2021, a criação de um programa de planejamento estratégico de curto, médio e longo prazo. O nome é ‘Itabira Sustentável’”, afirma. A mineradora contratou uma consultoria internacional para apoiar a elaboração do projeto, que envolve uma espécie de redesenho da cidade em várias frentes.
Lage insiste que a estratégia não pode se perder a cada troca de governo. “Isso é muito importante para que não seja um projeto de governo, de uma prefeitura, de um prefeito”, diz. A intenção é amarrar as principais diretrizes em leis e planos de longo alcance, como o Plano Diretor, de modo que a transição econômica não dependa apenas de vontades políticas momentâneas.
Plano redesenha Itabira em 360 graus
O Itabira Sustentável funciona como um guarda-chuva de ações. Na prática, mexe com o desenho da cidade, o destino do lixo, a circulação de pessoas e mercadorias e a forma como o município pretende atrair novos negócios. Segundo Lage, a revisão do Plano Diretor é a espinha dorsal do programa e deve atualizar regras de uso e ocupação do solo, áreas de proteção ambiental e zonas destinadas a habitação, serviços e indústria.
A gestão de resíduos sólidos é outro eixo central. A meta é reduzir o envio de lixo para aterros, ampliar a coleta seletiva, incentivar reciclagem e estruturar cooperativas de catadores. A prefeitura trabalha com metas de médio prazo, em ciclos de quatro a oito anos, para diminuir custos com destinação de resíduos e, ao mesmo tempo, gerar renda em bairros onde a mineração já não garante emprego estável.
Na mobilidade urbana, o programa mira um sistema menos dependente de veículos individuais. Estão em discussão corredores para ônibus, integração tarifária e rotas que aproximem bairros periféricos de áreas de serviço e estudo. A ideia é que o novo zoneamento estimule moradia mais perto do trabalho e reduza deslocamentos longos, que hoje dependem quase sempre de ônibus lotados ou carros particulares.
O prefeito resume a ambição. “Esse programa envolve uma revisão do plano diretor, envolve uma gestão de resíduos sólidos, mobilidade urbana, uma organização mais ampla da cidade em 360 graus. Isso tudo significa atração de investimento”, afirma. O discurso aponta para uma mudança de lógica: em vez de esperar pelas compensações da mineração, Itabira tenta se vender como cidade preparada, com regras claras e infraestrutura mínima para receber empresas de outros setores.
No horizonte, aparecem segmentos como tecnologia da informação, serviços especializados, logística e turismo ligado à história da própria mineração e à memória literária da cidade, marcada por Carlos Drummond de Andrade. A diversificação econômica pretende reduzir a fatia da mineração na arrecadação municipal, que hoje ainda responde por parcela expressiva do Imposto Sobre Serviços (ISS) e de taxas ligadas à atividade extrativa.
Transição inspira outros municípios mineradores
O movimento de Itabira repercute entre cidades que vivem dilema parecido em Minas Gerais e em outros Estados. Na presidência da Amig Brasil, Lage usa o caso local como laboratório de políticas públicas para mais de uma centena de municípios que dependem da mineração para fechar as contas. A ideia é que o Itabira Sustentável sirva de referência, com acertos e erros, para programas de transição em cadeia.
O impacto da mudança vai além das finanças. Uma cidade que se prepara com antecedência tende a mitigar choques sociais típicos de ciclos de boom e queda de commodities, como desemprego súbito e esvaziamento de bairros. Se o plano avançar, moradores podem ver, ao longo da próxima década, novos empreendimentos ocupando áreas hoje tomadas por estruturas ligadas à mineração, e serviços públicos menos reféns da oscilação do preço do minério de ferro.
A transição, porém, cobra escolhas difíceis. Setores acostumados a incentivos ligados à extração de minério podem perder protagonismo fiscal e político, enquanto novas atividades ainda buscam espaço. A disputa por orçamento deve se acirrar entre investimentos em infraestrutura para atrair empresas e demandas imediatas por saúde, educação e habitação popular.
No campo ambiental, a expectativa é que a reestruturação da cidade reduza passivos históricos. Melhor gestão de resíduos, proteção de nascentes e recuperação de áreas degradadas aparecem como vitrine para investidores que cobram metas de sustentabilidade. O desafio é conciliar obras e parcerias com a cobrança por transparência em relação à Vale, cuja atuação molda o território de Itabira há mais de 80 anos.
O prefeito sabe que o relógio corre. Em 15 anos, uma criança que hoje entra na escola fundamental estará entrando no mercado de trabalho em uma cidade potencialmente sem mineração em larga escala. O sucesso do Itabira Sustentável será medido pela capacidade de oferecer alternativas concretas a essa geração, da formação profissional ao tipo de emprego disponível.
Próximos passos e a disputa pelo futuro
Os próximos meses devem ser decisivos para transformar o programa em políticas consolidadas. A revisão do Plano Diretor entra em fase de audiências públicas, com participação de associações de bairro, entidades empresariais e organizações ambientais. A prefeitura pretende enviar à Câmara Municipal, ainda em 2026, um pacote de projetos para institucionalizar metas de sustentabilidade e de diversificação econômica até 2040.
A Vale, parceira central da iniciativa, será cobrada a firmar compromissos de longo prazo, tanto em investimentos diretos na cidade quanto na recuperação de áreas mineradas. Enquanto a mineradora discute globalmente metas de descarbonização até 2050, moradores de Itabira esperam respostas mais imediatas sobre o que será feito em cada cava desativada e em cada bairro afetado pela atividade extrativa.
No cenário nacional, a experiência itabirana entra no radar de governos estaduais e federal, que buscam alinhar royalties, licenciamento ambiental e políticas de desenvolvimento regional. Caso alcance resultados mensuráveis em emprego, renda e qualidade de vida, o Itabira Sustentável pode se tornar argumento para uma nova regulação da mineração, com mais responsabilidade sobre o pós-exploração.
Entre previsões otimistas e desconfianças acumuladas ao longo de décadas, Itabira atravessa um ponto de inflexão raro. A cidade que cresceu olhando para as minas agora tenta enxergar além do minério. A resposta para saber se esse plano sai do papel e muda o cotidiano de quem vive ali passa, inevitavelmente, pelos próximos 15 anos.
