Instrutor renomado e turista dos EUA morrem em queda de asa-delta no Rio
Um voo de asa-delta termina em tragédia na Praia de São Conrado, zona sul do Rio, na manhã de sábado (21/2/2026). O instrutor Rodolfo Pascoal Ladeira e a turista estadunidense Jenny Colón Rodríguez caem no mar e morrem após a queda, que ocorre durante um voo duplo de turismo na orla carioca.
Queda em área turística expõe risco em esporte de aventura
O acidente interrompe um dia de céu aberto em um dos principais cartões-postais do voo livre no país. São Conrado, ponto tradicional de decolagem da Pedra Bonita e de pouso na faixa de areia, volta ao centro do debate sobre segurança em atividades de aventura, que atraem milhares de turistas ao Rio todos os anos.
Rodolfo, instrutor experiente do Clube São Conrado de Voo Livre, conduz o voo com Jenny, que está em viagem ao Brasil e busca a experiência de sobrevoar o mar. Durante o percurso, o equipamento perde sustentação e os dois despencam na água, em um trecho próximo à faixa de areia. Banho de mar, surfistas e outros praticantes de voo presenciam a cena e correm para tentar ajudar.
Equipes de resgate chegam à praia e retiram as vítimas do mar. Jenny, moradora da Carolina do Norte, é levada a uma unidade de saúde, mas não resiste aos ferimentos. Rodolfo morre no local. Os corpos seguem para o Instituto Médico-Legal, enquanto autoridades isolam a área para coleta de informações.
As causas da queda ainda não estão definidas. A investigação se concentra no conjunto da asa-delta usado no voo. Técnicos aguardam a retirada completa do equipamento do mar para análise detalhada de estrutura, velas, cabos e conexões. A perícia busca entender se houve falha mecânica, erro humano ou combinação de fatores.
Em nota, o Clube São Conrado de Voo Livre afirma que colabora com as autoridades e disponibiliza documentos sobre o voo, a habilitação do instrutor e a manutenção do equipamento. “Providenciamos todos os registros solicitados e estamos em contato com as famílias, oferecendo o suporte possível neste momento”, informa a entidade, que declara luto entre os associados.
Carreira de campeão e viagem de aventura interrompidas
Rodolfo Pascoal Ladeira constrói, ao longo de anos, a imagem de piloto técnico e cuidadoso. No circuito do parapente e do voo livre, ele é apontado como referência em instrução e segurança. Em 2025, conquista dois títulos no Pré-Mundial de Parapente, disputado em Castelo, no Espírito Santo, e consolida o nome entre os principais atletas brasileiros da modalidade.
O instrutor usa redes sociais para mostrar bastidores de voos, treinos e competições, sempre reforçando a importância de um profissional habilitado nos voos duplos. Em vídeos, alerta iniciantes sobre procedimentos básicos de checagem, como inspeção de mosquetões, regulagem de cintos e avaliação das condições de vento antes de cada decolagem.
A trajetória inclui também um susto em 2020, na Serra da Ibiapaba, no Ceará, quando sofre um acidente de parapente e escapa com ferimentos leves. Na ocasião, ele volta a defender regras rígidas de segurança e o respeito a limites climáticos. Colegas de clube relatam que o piloto costuma repetir a frase “instrutor bom é instrutor conservador”, em referência à cautela em decisões de voo.
Do outro lado da asa-delta, Jenny Colón Rodríguez registra a vida em deslocamento. Filha de hondurenhos, nascida ou criada na Carolina do Norte, ela se apresenta ao público como “catracha”, termo usado para se referir a hondurenhos, e exibe a bandeira do país em uma das fotos mais recentes. O feed mostra viagens por México, Colômbia e outros destinos da América Latina.
Nas postagens de dezembro de 2025, Jenny aparece em Porto Rico, ao lado de uma escultura do Sapo Concho, símbolo do álbum “Debí tirar más fotos”, do cantor Bad Bunny. Em outras imagens, surge em trilhas, tirolesas e estádios de futebol, combinando turismo, música e esportes de aventura. A vinda ao Rio se encaixa nesse roteiro, que agora ganha um desfecho abrupto.
O impacto da morte dos dois atinge em cheio a comunidade de São Conrado. Pilotos, comerciantes da orla e moradores acompanham a movimentação de bombeiros, policiais e peritos ao longo do dia. Mensagens em grupos de aplicativos e redes sociais misturam choque, homenagens e perguntas sobre o que deu errado em um voo que, à primeira vista, seguia a rotina de um fim de semana de verão.
Investigações, luto e pressão por mais segurança
A Polícia Civil abre inquérito para apurar as circunstâncias do acidente. Peritos trabalham com imagens de celulares, relatos de outros instrutores que estão na rampa e na praia e dados meteorológicos do horário da queda. O objetivo é cruzar relatos com a avaliação técnica do equipamento, assim que a asa-delta for retirada do mar em sua totalidade.
A tragédia reacende uma discussão recorrente sobre fiscalização e regras em esportes de risco. Voos duplos com turistas, como o de Jenny, dependem de instrutores credenciados e de manutenção rígida dos equipamentos. Especialistas ouvidos pela reportagem ressaltam que falhas são raras, mas cobram transparência nas investigações e eventuais mudanças em normas. “Cada acidente grave precisa resultar em aprendizado concreto, seja em protocolo, seja em cultura de segurança”, afirma um piloto com mais de 20 anos de atuação em São Conrado.
No entorno do clube, a morte de Rodolfo provoca um vazio imediato. Alunos, amigos e colegas se reúnem para prestar homenagens espontâneas, com flores e mensagens coladas em pranchas e capacetes. A família de Jenny, nos Estados Unidos e em Honduras, aciona autoridades consulares para acompanhar o caso e organizar o traslado do corpo, que deve ocorrer nos próximos dias.
O Clube São Conrado informa que mantém contato com as famílias e que a rotina de voos passa por revisão interna, enquanto não há conclusão oficial sobre as causas. A entidade afirma que aguarda o laudo pericial para decidir se adota mudanças adicionais em procedimentos de checagem e em critérios para decolagens em dias de grande movimento.
O caso também pressiona órgãos públicos a revisar dados e estatísticas de acidentes em esportes de aventura na cidade. A expectativa é que a análise técnica da asa-delta, somada aos depoimentos de testemunhas, produza um relatório detalhado ainda nos próximos meses. A partir dele, autoridades e entidades do setor devem discutir novas regras para reduzir o risco em voos turísticos.
Até a conclusão da investigação, instrutores, atletas e turistas convivem com uma pergunta difícil de contornar: em que ponto, entre a busca por adrenalina e a promessa de segurança total, o voo de asa-delta em São Conrado deixou de ser apenas um passeio sobre o mar?
