Brasil e Índia fecham acordo para minerais críticos e transição verde
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi assinam, nesta 21 de fevereiro de 2026, em Nova Délhi, um acordo estratégico para explorar minerais críticos e terras raras. O objetivo é impulsionar a transição energética e elevar o comércio bilateral a um novo patamar até 2030.
Corrida por minerais na era da transição energética
O gesto sela uma aproximação que vinha sendo costurada em silêncio há meses pelas equipes econômicas e diplomáticas dos dois países. Brasil e Índia miram o mesmo alvo: garantir acesso estável a insumos hoje indispensáveis para turbinas eólicas, painéis solares e baterias de veículos elétricos, em um cenário de disputa global por esses recursos.
Minerais críticos e terras raras, antes restritos a relatórios técnicos, entram de vez no centro da agenda política. Governos e empresas enxergam nesses materiais a base física da economia de baixo carbono, que precisa sair do discurso e ganhar escala ainda nesta década. A cooperação entre as duas maiores democracias do hemisfério Sul busca justamente encurtar esse caminho.
Acordo amarra exploração, tecnologia e comércio
O pacote assinado em Nova Délhi prevê iniciativas conjuntas de exploração, pesquisa e desenvolvimento tecnológico nas cadeias de minerais estratégicos. Delegações dos ministérios de Minas e Energia, Relações Exteriores e Indústria dos dois países definem, ao longo de 2026, uma carteira de projetos binacionais, que pode incluir mapeamento geológico compartilhado, parcerias entre universidades e formação de especialistas.
Autoridades envolvidas nas tratativas destacam que o acordo não se limita à extração. O foco é agregar valor às matérias-primas, com plantas industriais voltadas à produção de componentes para a indústria de energia renovável e para o setor automotivo elétrico. A meta política, já colocada sobre a mesa, é empurrar o comércio bilateral para a casa dos US$ 20 bilhões até 2030, mais que dobrando o volume atual.
Em conversas reservadas, negociadores brasileiros afirmam que o país quer escapar do papel de simples exportador de minério bruto. A leitura é que a janela de oportunidade se fecha à medida que grandes economias consolidam suas cadeias de fornecimento. A Índia, que acelera programas domésticos de energia solar e mobilidade elétrica, vê no Brasil um parceiro capaz de garantir oferta volumosa e diversificada, com estabilidade institucional.
Diplomatas em Nova Délhi apontam outro efeito imediato: o fortalecimento da ponte política entre Brasília e o governo Modi em fóruns multilaterais. Nos bastidores, assessores citam a ambição de alinhar posições em negociações climáticas e em debates sobre reforma da governança global da energia, em que os dois países defendem mais espaço para economias emergentes.
Impacto econômico e disputa geopolítica
O avanço sobre minerais críticos recoloca o Brasil no radar de investidores estrangeiros interessados em projetos de mineração com selo ambiental mais rigoroso. Governos estaduais já se movimentam para oferecer pacotes de incentivos fiscais e infraestrutura em regiões com potencial para lítio, nióbio, terras raras e grafite. Empresas indianas do setor de tecnologia e energia renovável demonstram interesse em joint ventures com grupos brasileiros para produzir, em território nacional, insumos hoje importados da Ásia.
Especialistas em transição energética observam que o acordo pode reduzir a dependência de cadeias concentradas em poucos países. A diversificação de fornecedores, dizem, é uma forma de blindar projetos de energia limpa de choques geopolíticos e de flutuações bruscas de preços. Nessa leitura, Brasil e Índia sobem alguns degraus em influência ao se posicionarem não apenas como consumidores de tecnologia, mas como produtores de insumos estratégicos.
Analistas do setor de mineração, porém, lembram que o movimento também traz riscos. Sem fiscalização forte, a corrida por minerais pode pressionar áreas sensíveis, afetar comunidades locais e acirrar disputas por água e infraestrutura logística. A forma como os governos vão equilibrar expansão econômica e proteção socioambiental tende a ser um dos pontos de maior tensão nos próximos anos.
Setores industriais ligados à velha matriz energética, como refinarias de petróleo e fabricantes de motores a combustão, acompanham o processo com atenção. A expectativa é de que incentivos públicos e financiamentos passem a privilegiar cada vez mais projetos alinhados à economia de baixo carbono, o que pode acelerar a reconfiguração de cadeias produtivas e empregos até o fim da década.
Pesquisa, influência externa e próximos capítulos
O sucesso do acordo depende, em boa parte, da capacidade de transformar memorandos em obras concretas, laboratórios equipados e linhas industriais em operação. Equipes técnicas dos dois países trabalham em um cronograma de investimentos para os próximos quatro anos, com foco em centros de pesquisa aplicados à mineração sustentável e ao reaproveitamento de materiais usados em baterias.
Nos círculos diplomáticos, a expectativa é que a parceria em minerais críticos se torne vitrine de uma agenda mais ampla entre Brasil e Índia, que inclui defesa, saúde e tecnologia da informação. Ao mesmo tempo, governos de outros grandes consumidores de energia limpa observam o movimento e avaliam como reposicionar suas próprias estratégias de abastecimento.
A cooperação assinada em Nova Délhi inaugura uma fase em que a qualidade das instituições e da política ambiental brasileira será testada sob holofotes internacionais. O Brasil ganha a chance de combinar riqueza mineral com inovação e responsabilidade climática, mas enfrenta a cobrança por resultados rápidos e consistentes. A pergunta, agora, é se Brasília e Nova Délhi conseguirão manter o ritmo político e financeiro necessário para transformar a promessa verde em cadeia produtiva real até 2030.
