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Trump exibe poder em Conselho da Paz e acende alerta no Planalto

Donald Trump comanda nesta quinta-feira, 19, a primeira reunião do Conselho da Paz em Washington e transforma o palco diplomático em vitrine de sua influência eleitoral global. O governo Lula lê o gesto como um sinal direto de possível interferência nas eleições brasileiras de 2026 e reage com distanciamento formal do grupo e ofensiva diplomática própria.

Trump testa limites da ingerência eleitoral

O salão em Washington, montado para a estreia do Conselho da Paz, funciona menos como fórum multilateral e mais como estúdio de reality show político. Trump conduz a cerimônia como apresentador, chama líderes ao palco, conta bastidores de campanhas e se orgulha publicamente de ter ajudado aliados a vencer disputas em outros países.

Sem citar o Brasil, o presidente americano afirma que seus “endorsements” — os apoios explícitos em eleições estrangeiras — se tornam rotina e produzem resultados. “O apoio parece estar funcionando também em outros países, então isso é bom”, resume. Em seguida, exibe como troféus os exemplos de Javier Milei, na Argentina, Viktor Orbán, na Hungria, e Sanae Takaichi, no Japão.

“Onde está o presidente Milei? Eu o apoiei. Não deveria apoiar pessoas, mas apoio quando gosto delas”, diz Trump, em tom de provocação às regras não escritas da diplomacia. Ele lembra que Milei “estava um pouco atrás nas pesquisas” e “acabou ganhando com uma margem enorme”. Sobre Takaichi, comemora a “maior votação da história do Japão” e conclui: “Ela gosta muito de mim”.

No Planalto, o discurso é lido como recado. Assessores de Lula acompanham a fala linha a linha e enxergam ali um aviso de que o republicano se sente à vontade para testar, em 2026, o peso de sua marca eleitoral também no Brasil. O temor não se restringe a uma declaração de apoio em palanque, mas inclui movimentos coordenados em redes sociais, uso de inteligência artificial e mobilização de grandes plataformas digitais americanas.

O cenário ganha contornos mais sensíveis porque o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje o principal nome da oposição para enfrentar Lula em 2026, desembarca nos Estados Unidos em busca de aproximação com o entorno trumpista. A agenda prevê encontros com políticos republicanos e articuladores da direita americana interessados em reativar a conexão estabelecida com Jair Bolsonaro na campanha de 2018.

Brasil recusa conselho e aposta na ONU

O Brasil decide não integrar o Conselho da Paz mesmo após convite pessoal de Trump a Lula. A chancelaria considera que o formato concentra poder demais nas mãos do presidente americano e rivaliza de forma direta com o Conselho de Segurança da ONU, órgão que o Itamaraty tenta fortalecer há pelo menos duas décadas.

Trump responde com ironia velada logo na abertura da cerimônia. Diz que o conselho é “o mais decisivo” e “o mais prestigioso já formado”. Afirma que “quase todos” aceitaram participar e manda um recado aos ausentes: “Alguns estão se fazendo de difíceis, isso não funciona. Você não pode se fazer de difícil comigo”.

Em Brasília, ninguém acredita em mudança de rota. Oficiais da diplomacia relatam que Lula já comunica ao americano, em telefonema, que não pretende aderir ao grupo. Em público, o presidente brasileiro enfatiza a necessidade de reforçar mecanismos multilaterais existentes, cita a ONU e sugere que qualquer novo formato inclua palestinos e tenha como primeiro foco o futuro da Faixa de Gaza no pós-guerra.

A recusa vem após um período de gelo nas relações pessoais entre Lula e Trump. Em 2022, o petista apoia Joe Biden contra o republicano. Em 2024, Trump retribui ao declarar simpatia por Jair Bolsonaro. O cruzamento de apoios deixa cicatrizes e atrasa a reaproximação entre os dois governos, que só começa a ganhar corpo no segundo semestre de 2025, com reuniões discretas e intermediação de empresários afetados pelo tarifaço imposto por Washington, depois derrubado pela Suprema Corte americana.

Desde então, diplomatas dos dois lados buscam uma espécie de trégua pragmática. Lula tenta separar divergências políticas de interesses econômicos concretos. Nos bastidores, auxiliares admitem que o país não pode romper com o principal investidor estrangeiro do Brasil e com o maior comprador de produtos industrializados brasileiros.

Lula prepara visita e tenta blindagem eleitoral

A resposta brasileira à nova investida de Trump se organiza em torno de uma viagem presidencial. Lula planeja estar em Washington em março, em encontro ainda em negociação. O objetivo oficial é assinar acordos contra o crime organizado e acelerar uma parceria na exploração de minerais críticos, como terras raras, área em que o Brasil detém algumas das maiores reservas do mundo.

Nos bastidores, a missão tem outro componente: construir uma blindagem política mínima para o ciclo eleitoral de 2026. Interlocutores do Itamaraty descrevem a estratégia como um esforço para reduzir incentivos a uma interferência aberta da Casa Branca na disputa brasileira. A leitura é que um canal direto, ativo e produtivo entre os dois presidentes torna mais custoso para Trump apostar publicamente em um adversário de Lula.

Em entrevista à TV India Today, em Nova Délhi, nesta sexta-feira, 20, Lula dá pistas desse equilíbrio delicado. Diz que não busca “enfrentamento” com os Estados Unidos, classifica Trump como alguém que “age como se estivesse em um programa da televisão”, mas o descreve como mais “calmo e tranquilo” nas conversas reservadas. O recado é de crítica controlada, sem rompimento.

A viagem também mira resultados mensuráveis. O acordo contra o crime organizado nasce de uma proposta brasileira apresentada no fim de 2025, centrada em um esquema internacional de lavagem de dinheiro que envolve facções no Cone Sul. Na frente econômica, Brasília tenta amarrar a decisão americana de investir em processamento de minerais críticos em território nacional, em meio à disputa global com a China por cadeias de suprimento estratégicas.

Enquanto o Brasil mantém distância, vizinhos aproveitam o espaço aberto por Trump. O presidente do Paraguai, Santiago Peña, participa da reunião do Conselho da Paz e menciona a memória da Guerra do Paraguai, há 160 anos, para justificar por que seu país não deve aportar grandes somas de dinheiro nem tropas. Omite o papel da Tríplice Aliança — Brasil, Argentina e Uruguai —, mas reforça apoio às iniciativas dos Estados Unidos e de Israel.

Disputa por influência chega às eleições de 2026

A decisão brasileira de ficar fora do Conselho da Paz redefine o tabuleiro regional. O Paraguai se aproxima ainda mais de Washington por meio de acordos bilaterais de segurança e defesa, assinados em 2025, que transformam Assunção em pivô da estratégia americana no Cone Sul. A Argentina de Milei consolida seu alinhamento automático a Trump. O Brasil tenta se colocar como peça independente, com discurso de respeito à ONU e resistência a blocos personalistas.

No curto prazo, a incógnita é até onde Trump estará disposto a ir na eleição brasileira. Um apoio explícito a Flávio Bolsonaro, amplificado por redes globais da direita e por figuras como Milei e Orbán, pode acirrar a polarização interna, pressionar as Forças Armadas e testar a resiliência das instituições. Uma postura mais contida, fruto de negociações silenciosas com Lula, manteria as tensões sob controle, mas não eliminaria o risco de interferência digital.

O desfecho começa a ser desenhado nos próximos meses, à medida que avança a preparação da visita de Lula a Washington e se tornam mais claras as ambições eleitorais de Trump fora dos Estados Unidos. Entre a cena ruidosa do Conselho da Paz e as conversas reservadas de bastidor, o Brasil tenta encontrar espaço para afirmar sua autonomia sem perder acesso ao centro do poder americano.

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