Crise do oleoduto russo leva Hungria e Eslováquia a pressionar Ucrânia
Ucrânia, Hungria e Eslováquia entram em uma das disputas mais tensas da guerra nesta segunda quinzena de fevereiro de 2026. O trânsito de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba está paralisado desde 27 de janeiro, e Budapeste e Bratislava ameaçam cortar o fornecimento emergencial de eletricidade a Kiev se o fluxo não for retomado.
Pressão energética em plena guerra
O impasse nasce de um ataque de drone russo contra equipamentos do oleoduto no oeste da Ucrânia em 27 de janeiro, segundo Kiev. Desde então, as remessas de petróleo russo para Hungria e Eslováquia, dois países ainda fortemente dependentes do Druzhba, estão suspensas. As capitais acusam a Ucrânia de manter o bloqueio por motivos políticos e usam a energia elétrica como instrumento de pressão.
O governo ucraniano reage com linguagem dura e fala em chantagem. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores afirma que “a Ucrânia rejeita e condena os ultimatos e a chantagem dos governos da Hungria e da República Eslovaca em relação ao fornecimento de energia entre nossos países”. O texto sustenta que “ultimatos devem ser enviados ao Kremlin, e certamente não a Kiev”.
A temperatura política sobe às vésperas do quarto aniversário da invasão em grande escala pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022. Desde outubro de 2025, Moscou intensifica ataques com drones e mísseis contra a infraestrutura energética ucraniana, mergulhando cidades inteiras em apagões em meio ao inverno, com temperaturas abaixo de zero por semanas. Nesse cenário, cada megawatt importado da Europa começa a valer como seguro de sobrevivência.
Hungria e Eslováquia ocupam lugar central dessa equação. Juntas, respondem por cerca de metade das exportações de eletricidade emergencial que a Europa envia hoje à Ucrânia. Esses envios compensam parte da destruição da rede elétrica ucraniana, alvo repetido de mísseis russos contra subestações, linhas de transmissão e usinas térmicas.
Dependência do oleoduto e disputa por narrativa
O primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, transforma a ameaça em prazo público. “Se o fornecimento de petróleo para a Eslováquia não for retomado na segunda-feira (23), pedirei à SEPS, a sociedade anônima estatal, que interrompa o fornecimento emergencial de eletricidade para a Ucrânia”, escreve em uma postagem na rede X. O premiê húngaro, Viktor Orbán, faz advertência semelhante dias antes, reforçando o recado de que a paciência dos dois governos se esgota.
Os dois países são os únicos membros da União Europeia que ainda dependem de volumes significativos de petróleo russo trazidos pelo Druzhba, oleoduto da era soviética que corta o território ucraniano. Para Budapeste e Bratislava, o corte das remessas desde 27 de janeiro não é apenas consequência técnica do ataque, mas resultado de decisões de Kiev que prolongam a interrupção.
A Ucrânia apresenta outra versão. Autoridades dizem que equipes de emergência trabalham nos reparos do sistema e negam responsabilidade pela demora na retomada do fluxo. Kiev também tenta mostrar que não está fechando portas. Em carta enviada à União Europeia e vista pela agência Reuters, a missão ucraniana em Bruxelas propõe rotas alternativas de trânsito de petróleo para a Europa, usando o próprio sistema interno de transporte ou uma rota marítima pelo Mar Negro.
Uma das opções mencionadas é o uso do oleoduto Odesa-Brody, que liga o principal porto ucraniano no Mar Negro ao território da União Europeia. A ideia é usar a estrutura existente para desviar parte do petróleo russo enquanto o trecho danificado do Druzhba passa por reparos. Até agora, no entanto, não há sinal público de acordo entre as partes.
A disputa ultrapassa o campo técnico e entra na política europeia. Hungria e Eslováquia, membros da União Europeia e da Otan, se afastam nos últimos anos do consenso majoritariamente pró-Ucrânia que predomina em Bruxelas. Tanto Orbán quanto Fico cultivam relações estreitas com Moscou, resistem a novas sanções contra a Rússia e usam a pauta energética como argumento para defender posições mais conciliadoras com o Kremlin.
Risco imediato para Ucrânia e para a região
A ameaça de corte de eletricidade atinge a Ucrânia em um momento de fragilidade extrema da rede interna. Desde outubro do ano passado, ataques russos derrubam regularmente a oferta de energia, interrompem o aquecimento urbano e obrigam cidades a adotar rodízios de luz que duram horas. Qualquer redução adicional nas importações emergenciais pode significar mais apagões e menos aquecimento em plena onda de frio.
O governo ucraniano alerta que o problema não fica restrito às suas fronteiras. Em nota, Kiev classifica as ameaças húngaras e eslovacas como “provocativas, irresponsáveis e que ameaçam a segurança energética de toda a região”. A avaliação é que a instabilidade na rede ucraniana pode provocar efeitos em cascata nos sistemas conectados de países vizinhos, inclusive dentro da União Europeia.
Hungria e Eslováquia também enfrentam riscos concretos. A paralisação de quase um mês do fornecimento de petróleo russo pressiona estoques, alimenta incerteza entre refinarias e pode encarecer combustíveis no médio prazo. Como os dois países adaptaram lentamente suas matrizes desde 2022, a dependência do Druzhba ainda é significativa para o abastecimento doméstico.
O episódio expõe de forma crua as fragilidades de uma infraestrutura construída na era soviética e mantida como pilar do sistema energético europeu. O oleoduto Druzhba, símbolo de interdependência entre Moscou e o bloco, transforma-se em ponto de estrangulamento em um continente que tenta, desde a invasão da Ucrânia, reduzir a dependência de combustíveis russos.
Mercados de energia acompanham a escalada com atenção. Uma crise prolongada no fluxo pelo Druzhba pode forçar a busca de rotas marítimas mais caras ou de fornecedores alternativos, pressionando preços no Leste Europeu e, em menor escala, no restante da União Europeia. A percepção de que a energia volta a ser instrumento aberto de pressão geopolítica reacende memórias dos choques de gás da década de 2000, quando disputas entre Rússia e Ucrânia afetaram o fornecimento para vários países europeus.
Negociações, alternativas e incertezas
Analistas em Bruxelas avaliam que a União Europeia terá de se mover para evitar que a disputa se transforme em crise interna aberta entre Estados-membros. A Comissão Europeia, já envolvida em sucessivas rodadas de pacotes de sanções e planos de transição energética, encara mais um teste de coordenação num ambiente em que interesses nacionais divergem de forma cada vez mais explícita.
A Ucrânia tenta mostrar disposição para negociar, ao mesmo tempo em que mantém o discurso de que o verdadeiro responsável é Moscou, autor do ataque de drone de 27 de janeiro. A carta enviada à União Europeia com propostas de rotas alternativas, incluindo o uso potencial do oleoduto Odesa-Brody e a integração a sistemas marítimos no Mar Negro, indica que Kiev busca soluções que preservem tanto o abastecimento dos vizinhos quanto sua própria segurança energética.
Hungria e Eslováquia, por sua vez, usam o prazo público de “dois dias” dado por Robert Fico como ferramenta de pressão máxima. A ameaça de desligar parte essencial das exportações de eletricidade emergencial para a Ucrânia coloca os dois governos em choque frontal com Kiev e aumenta a atenção de aliados na Otan, preocupados com o risco de fragmentação do apoio europeu ao país invadido.
A poucos dias do quarto aniversário da guerra, a crise em torno do Druzhba funciona como radiografia das tensões acumuladas na Europa Central. Mostra a dificuldade de conciliar segurança energética, pressão contra Moscou e interesses domésticos em um cenário em que a infraestrutura herdada da União Soviética ainda dita o ritmo do abastecimento.
Se não houver acordo rápido sobre o trânsito de petróleo ou sobre o desenho de rotas alternativas, a região pode entrar em uma nova fase de volatilidade energética. A resposta de Bruxelas, de Moscou e das próprias capitais envolvidas nas próximas semanas ajudará a definir se a disputa atual será apenas mais um capítulo da guerra ou o início de uma reconfiguração profunda das alianças e das rotas de energia na Europa.
