Remédio para distúrbio do sono é ligado a vícios extremos no Reino Unido
Mais de 250 pacientes no Reino Unido relatam vícios em jogos, sexo e compras após o uso de agonistas da dopamina, como o Ropinirole, entre 2025 e 2026. Os remédios, indicados para Parkinson e Síndrome das Pernas Inquietas, são associados a comportamentos impulsivos graves, muitas vezes sem que médicos alertem sobre o risco. Fabricantes e autoridades agora enfrentam pressão por transparência e revisão de bulas.
Uma vida virada de cabeça para baixo
Emma não associa de imediato o colapso de suas finanças a um comprimido tomado diariamente para controlar a Síndrome das Pernas Inquietas. Em um ano, perde pelo menos £ 30 mil em apostas on-line e compras supérfluas, sem histórico anterior de jogo ou endividamento. Só começa a desconfiar quando o marido pesquisa o nome do medicamento, Ropinirole, produzido pela farmacêutica britânica GSK, e encontra uma reportagem da BBC sobre efeitos colaterais extremos.
Ela lê o texto e se enxerga nas histórias de vício em jogos, gastos fora de controle e impulsos que parecem vir de fora. “Eu li e pensei: ‘Meu Deus, sou eu’”, conta. Quando procura a clínica de atenção primária, preenche um formulário on-line, informa que desenvolveu compulsão por apostas e registra que usa Ropinirole. O médico, relata Emma, não faz a conexão entre o comportamento e o remédio, apesar de a relação constar em alertas internacionais desde meados dos anos 2000.
Emma continua jogando e se afunda em dívidas até decidir pedir a troca do medicamento, motivada pelas reportagens. “Arruinou minha vida — vamos ficar endividados por Deus sabe quanto tempo para pagar isso”, diz. Histórias como a dela se repetem em todo o Reino Unido, envolvendo pacientes com cargos de alta responsabilidade, de um policial a enfermeiros, médicos e um diretor de risco de banco.
Os casos chegam à BBC em ondas, especialmente após novas revelações sobre a ligação entre esses remédios e comportamentos impulsivos. Em pouco menos de um ano, mais de 250 pessoas procuram a rede para relatar compulsões diversas: jogos, sexo, compras, pornografia, comida, cross-dressing e investimentos arriscados. Em muitos relatos, casamentos desmoronam, fortunas são perdidas e famílias se veem diante de crimes e tentativas de suicídio.
Quando o tratamento acende o sistema de recompensa
Os agonistas da dopamina, como o Ropinirole, atuam em receptores cerebrais ligados ao movimento. São indicados há décadas para Parkinson e, mais recentemente, para a Síndrome das Pernas Inquietas, condição comum em mulheres e frequentemente associada a baixos níveis de ferro. Na prática, esses remédios imitam a dopamina, substância química que também regula motivação, prazer e o chamado sistema de recompensa do cérebro.
Quando o estímulo é intenso e contínuo, esse sistema parece sair do controle. Estudos e alertas médicos apontam que cerca de um em cada seis pacientes com Parkinson em uso desses medicamentos desenvolve algum tipo de comportamento impulsivo. Na classificação regulatória, isso equivale a um efeito “muito comum”. Mesmo assim, essa prevalência não aparece nas bulas, criticadas por usar termos genéricos como “aumento da libido” ou “comportamento prejudicial”, sem explicitar exemplos concretos como vício em jogos de azar ou compulsão por pornografia.
Os relatos que chegam à imprensa mostram a distância entre a linguagem técnica e a realidade das famílias. Mulheres mais velhas descrevem maridos que, após décadas de casamento estável, passam a exigir sexo de forma coercitiva e obsessiva. Outros pacientes, sem histórico de infidelidade, buscam relações extraconjugais e, em alguns casos, iniciam vida sexual com parceiros do mesmo sexo pela primeira vez. Em muitos lares, ninguém suspeita do remédio; a culpa recai sobre o caráter, o casamento ou um suposto colapso moral súbito.
A tensão aumenta quando vêm à tona documentos internos da GSK. A BBC revela que, em 2000, a empresa registra pelo menos um caso de pedofilia ligado ao uso de Ropinirole: um homem de 63 anos que abusa sexualmente de uma menina de sete anos e acaba preso. O episódio entra em um relatório de segurança de 2003, que descreve associação entre o medicamento e comportamento sexual “desviante”. Segundo a GSK, o documento é enviado à agência reguladora britânica no ano seguinte, e o caso é notificado em poucos dias.
Os termos usados no relatório, porém, nunca aparecem nos avisos aos pacientes. As orientações oficiais falam em “interesse sexual alterado”, expressão vaga para quem tenta entender por que de repente passa horas em sites de apostas ou pornografia. A agência reguladora, a MHRA, afirma que só inclui alertas específicos em 2007, após analisar o conjunto de evidências disponíveis, e argumenta que seria impossível listar de forma “exaustiva” todos os comportamentos possíveis.
Pressão por transparência, justiça e mudança de conduta
A repercussão das histórias leva o presidente do Comitê de Saúde da Câmara dos Comuns, na semana passada, a pedir formalmente que a MHRA revise os avisos sobre agonistas da dopamina. O governo britânico classifica as revelações mais recentes como “extremamente preocupantes”. Apesar disso, os dados de prescrição na Inglaterra mostram que o rebaixamento desses remédios como tratamento de primeira linha para a Síndrome das Pernas Inquietas ainda não se traduz em queda no uso em consultórios de clínicos gerais.
Enquanto a burocracia avança, pacientes tentam entender o que aconteceu com suas vidas. Muitos dizem se sentir sem acesso efetivo à Justiça por não terem sido claramente alertados sobre os riscos. No Reino Unido, ações individuais esbarram em obstáculos legais e em dificuldades para provar a relação direta entre o remédio e o comportamento. Em outros países, decisões judiciais começam a desenhar um cenário diferente.
Na Bélgica, um tribunal absolve, há cerca de um ano, um homem acusado de abusar sexualmente da neta de quatro anos, ao aceitar o argumento de que o Ropinirole desencadeou comportamento pedofílico. Na França, um homem de cerca de 50 anos processa a GSK por alegar que o medicamento arruinou seu relacionamento e o levou a perder 90 mil euros em jogos e gastos compulsivos. A decisão, esperada para o próximo mês, pode estabelecer um precedente relevante sobre responsabilidade da indústria farmacêutica na informação de riscos psiquiátricos.
A GSK sustenta que o Ropinirole é amplamente testado, segue aprovado por reguladores no mundo todo e tem efeitos colaterais descritos de forma adequada. A empresa afirma ainda que não desenha nem patrocina um estudo de 2005 em hospital privado nos Estados Unidos que avalia o uso do remédio para tratar disfunção sexual, embora tenha colaborado com a instituição na época em que tenta ampliar as indicações do produto para a Síndrome das Pernas Inquietas.
Enquanto fabricantes e agências reguladoras discutem a extensão dos avisos, a orientação do serviço público de saúde britânico é direta: qualquer paciente em uso de agonistas da dopamina que perceba mudanças em seus impulsos deve procurar ajuda médica imediatamente. Organizações como a Parkinson’s UK e a RLS-UK oferecem suporte e aconselhamento especializado, inclusive para familiares que suspeitam de mudanças bruscas de comportamento.
O que pode mudar para pacientes e para a indústria
As revelações sobre o Ropinirole reacendem o debate sobre como riscos psiquiátricos são comunicados em tratamentos crônicos. Para quem recebe o diagnóstico de Parkinson ou Síndrome das Pernas Inquietas, a prioridade é recuperar algum controle sobre o próprio corpo. Poucos imaginam que o preço pode ser perder o controle sobre dinheiro, desejos e relações afetivas. No caso de Emma, a conta inclui pelo menos £ 30 mil em dívidas e a sensação de que uma década de planejamento financeiro desmorona em meses.
Especialistas em ética médica defendem que termos vagos em bulas e protocolos de prescrição já não bastam em um cenário em que um em cada seis pacientes com Parkinson tratado com essa classe de remédios pode desenvolver comportamentos impulsivos. Pressionadas por reportagens, autoridades britânicas avaliam reforçar alertas escritos e orientar médicos a discutir explicitamente riscos de vícios em jogos de azar, sexo compulsivo e gastos descontrolados antes do início da terapia.
Para a indústria farmacêutica, o avanço de ações judiciais na Europa sinaliza uma nova fase de escrutínio. Tribunais na Bélgica e na França começam a tratar a hipersexualidade e outros impulsos não como desvios morais, mas como potenciais efeitos adversos de tratamentos aprovados. Dependendo das decisões, empresas podem ser obrigadas a revisar bulas, investir em campanhas de esclarecimento e negociar indenizações milionárias.
Para pacientes como Emma e Michael, porém, a urgência é outra: interromper o dano agora. “Eu sei que preciso de ajuda, mas as pessoas que podem me ajudar, eu não consigo procurar”, confessa Michael, que passa a buscar profissionais do sexo e a se relacionar com cerca de 20 homens e mulheres após o início do tratamento, apesar de ser casado e nunca ter traído a esposa. O futuro dessa controvérsia vai definir se histórias como as deles permanecerão como tragédias individuais ou se se tornarão o ponto de virada para uma nova forma de prescrever e vigiar medicamentos que mexem com o centro do desejo humano.
