Medellín inaugura primeira megaprisão inspirada no modelo de Bukele
A prefeitura de Medellín inaugura nesta quarta-feira (22) a primeira megaprisão da cidade, com capacidade para mais de 1.300 detentos. O complexo adota medidas rígidas de controle e segurança inspiradas no modelo criado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e marca uma guinada na política penitenciária colombiana.
Modelo de Bukele chega à Colômbia
O novo presídio ocupa uma área às margens da região metropolitana de Medellín e concentra em um único complexo o que antes se espalhava por cadeias pequenas e superlotadas. Autoridades locais afirmam que o projeto nasce para enfrentar dois problemas crônicos: o avanço das quadrilhas que controlam bairros inteiros e a superlotação que transforma delegacias e presídios em depósitos humanos.
Inspirada diretamente nas imagens da gigantesca prisão de segurança máxima construída em El Salvador, a administração de Medellín decidiu importar o modelo de controle total da rotina carcerária. Celas monitoradas 24 horas, circulação vigiada por câmeras de alta definição, bloqueadores de sinal de celular e rígida separação entre grupos rivais compõem a espinha dorsal do sistema. A meta oficial é reduzir fugas, motins e a influência de chefes de facções que ainda comandam crimes do lado de fora.
Nos bastidores, o debate se arrasta há pelo menos dois anos. Estudos encomendados pela prefeitura indicam que, em alguns presídios da região, a taxa de ocupação supera em mais de 200% a capacidade projetada. Em várias unidades, três ou quatro presos dividem espaços pensados para dois, o que pressiona guardas, alimenta rebeliões e favorece a corrupção interna. O novo complexo surge como vitrine de uma política que aposta em estruturas maiores, mais tecnológicas e centralizadas.
O secretário de Segurança de Medellín, em pronunciamentos recentes, tem insistido na mudança de patamar. “Não se trata apenas de construir mais celas. Estamos mudando a forma como o Estado se relaciona com o crime organizado”, disse, ao defender o uso intensivo de tecnologia para monitorar cada passo dos presos. A inauguração ocorre em meio a uma ofensiva do governo colombiano para reduzir os índices de homicídio e extorsão, ainda elevados em regiões controladas por grupos armados.
Impacto na criminalidade e nas cadeias superlotadas
A megaprisão começa a operar com capacidade plena para pouco mais de 1.300 detentos, número projetado para aliviar de forma imediata a pressão sobre delegacias e presídios regionais. A expectativa oficial é reduzir em dezenas de pontos percentuais a superlotação nas unidades mais críticas da área metropolitana, abrindo espaço para reformas estruturais e redistribuição de presos considerados de menor periculosidade.
No curto prazo, o efeito mais visível recai sobre o controle interno. O novo modelo prevê monitoramento permanente das alas, com equipes treinadas para reagir em minutos a qualquer indício de rebelião. Portas automatizadas, corredores sem pontos cegos e torres de vigilância integradas a um centro de comando buscam limitar a circulação de armas, drogas e celulares. A inspiração em Bukele aparece com nitidez na promessa de cortar a comunicação entre chefes de facções e seus subordinados nas ruas.
Especialistas em segurança ouvidos por veículos locais apontam que o impacto real será medido em números concretos de homicídios, roubos e extorsões nos próximos meses. Alguns veem na megaprisão uma chance de reorganizar o sistema, desde que o projeto não se limite ao encarceramento em massa. Outros alertam para o risco de replicar, sem filtros, um modelo marcado por denúncias de violações de direitos humanos em El Salvador, como restrições severas a visitas familiares e pouco acesso a defensores públicos.
Organizações de direitos humanos já pedem transparência nos protocolos. Grupos locais insistem que qualquer endurecimento no regime prisional precisa respeitar tratados internacionais assinados pela Colômbia. “O combate ao crime não pode significar a suspensão permanente de garantias básicas”, afirmam em notas distribuídas à imprensa, cobrando fiscalização independente das condições de encarceramento.
Exportação de modelo e próximos passos
A experiência de Medellín tende a servir como laboratório para o restante do país. Governos regionais acompanham a implantação do complexo e avaliam projetos semelhantes para cidades que enfrentam realidades próximas, como Cali e Barranquilla. Se os indicadores de violência caírem de forma consistente nos próximos 12 a 24 meses, a megaprisão pode se tornar referência para uma nova geração de presídios na Colômbia.
O debate ultrapassa as fronteiras nacionais. Governos latino-americanos que buscam respostas rápidas ao avanço do crime observam com atenção a combinação de encarceramento em larga escala, tecnologia e rigidez disciplinar. A trajetória de Medellín pode influenciar discussões legislativas sobre penas mais duras, uso ampliado de prisões de segurança máxima e critérios de transferência de detentos de alto risco.
A administração da cidade promete relatórios periódicos de desempenho do complexo, com dados sobre reincidência, custos de manutenção e indicadores de violência dentro e fora dos muros. A grande incógnita é se a aposta em uma estrutura gigantesca, inspirada em um modelo ainda controverso, será capaz de reduzir de forma sustentável a criminalidade sem aprofundar tensões sociais. A resposta começa a ser escrita a partir de hoje, cela por cela.
