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Câmara acelera acordo Mercosul-União Europeia após alta de tarifas dos EUA

A Câmara dos Deputados decide votar já na próxima semana o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. A prioridade é anunciada pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), após Donald Trump elevar para 15% as tarifas globais cobradas pelos Estados Unidos.

Resposta acelerada a um cenário mais hostil

Hugo Motta usa as redes sociais neste sábado, 21 de fevereiro de 2026, para cravar que o texto entra na pauta do plenário. O movimento ocorre poucas horas depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, confirmar, na plataforma Truth Social, que a tarifa geral sobre importações sobe de 10% para 15% “com efeito imediato”.

O presidente da Câmara tenta transformar a surpresa vinda de Washington em trunfo político em Brasília. Ele apresenta o acordo entre Mercosul e União Europeia como uma forma de blindar a economia brasileira num ambiente externo mais agressivo. “Com as incertezas acerca da imposição de tarifas pelos Estados Unidos, resta ao Brasil lutar pela previsibilidade nas relações comerciais internacionais. Por isso, priorizaremos a votação do acordo Mercosul-UE para a próxima semana”, afirma.

Ao anunciar a decisão, Motta também revela o desenho interno da operação. O deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP), presidente nacional do partido e ex-ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, assume a relatoria do projeto diretamente em plenário. Ele terá a tarefa de articular o texto com as bancadas governistas e de oposição num espaço de poucos dias.

Negociação de quase três décadas entra na reta final

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia começa a ser negociado em 1999 e só é assinado em janeiro de 2026, no Paraguai. A assinatura exige apoio de, ao menos, 15 dos 27 países europeus, representando 65% da população do bloco. O aval da Itália destrava a maioria e permite ao Conselho Europeu bater o martelo.

No Brasil, o Congresso Nacional abre a análise formal do tratado em 10 de fevereiro. A expectativa inicial é de que a representação brasileira no Parlamento do Mercosul aprove o texto já naquele dia. O roteiro muda quando o deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE) apresenta um pedido de vista. Ele sustenta que a pausa serve para ampliar o debate público. “Quero apresentar um pedido de vista. Não considerem isso um prejuízo, isso vem em favor de mais debate, mais esclarecimento, para que a sociedade brasileira tome conhecimento da importância do acordo, mas dos desafios que ele estabelece”, afirma.

O adiamento empurra a decisão para depois do Carnaval, apesar de Hugo Motta já ter dito, no início do ano, que o acordo estaria entre as prioridades da Câmara. A guinada de Trump, porém, encurta o calendário político em Brasília. A elevação das tarifas pelos Estados Unidos é lida por governo, empresários e parlamentares como um sinal de que a disputa comercial global entra em uma nova fase, menos previsível e mais protecionista.

Trump tenta enquadrar a medida como uma correção de rumos, após a Suprema Corte dos EUA ter concluído que ele extrapolou sua autoridade ao usar uma lei de emergência econômica para impor tarifas anteriores. “O governo Trump determinará e emitirá as novas tarifas legalmente permitidas, que darão continuidade ao nosso processo extraordinariamente bem-sucedido de tornar a América grande novamente”, escreve o presidente.

Impacto para exportadores, indústria e investidores

O acordo Mercosul-União Europeia promete, em caso de aprovação, reduzir tarifas de forma gradual em uma área de livre comércio que envolve mais de 700 milhões de consumidores. O Brasil passa a ter acesso ampliado a um mercado que responde por cerca de 15% do PIB mundial, com regras mais estáveis para exportações de produtos agrícolas, industriais e serviços.

Para o agronegócio brasileiro, o tratado abre espaço para ampliar embarques de carne, açúcar, etanol, café e soja para países europeus, ainda que com cotas e prazos de transição. No lado europeu, fabricantes de máquinas, automóveis, fármacos e bens de alto valor agregado ganham um canal para disputar mercado em um Mercosul que soma quase 300 milhões de habitantes. A expectativa de economistas ligados ao Congresso é que o comércio entre os blocos cresça em dezenas de bilhões de dólares ao longo da próxima década, se o acordo entrar plenamente em vigor.

O setor industrial brasileiro observa o movimento com atenção redobrada. Entidades temem que a abertura rápida demais exponha fábricas locais à concorrência europeia antes de uma redução consistente do chamado custo Brasil, que inclui tributos complexos, logística cara e juros elevados. Apoio ou resistência ao texto tende a variar entre segmentos mais competitivos, como celulose e mineração, e áreas mais vulneráveis, como fabricantes de autopeças e eletroeletrônicos.

Investidores estrangeiros acompanham a tramitação como um termômetro de previsibilidade regulatória. Um acordo ratificado, com regras claras de origem, propriedade intelectual e solução de controvérsias, facilita decisões de longo prazo em setores como energia, infraestrutura e tecnologia. Em meio à escalada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos, o Brasil tenta se vender como porto relativamente seguro para cadeias produtivas que buscam diversificar riscos.

Trâmite político e incertezas no horizonte

O texto que chega ao plenário da Câmara precisa de maioria simples para avançar. Se aprovado, segue ao Senado Federal, onde também passa por comissão e votação no plenário. Só depois da conclusão dessa etapa interna, o acordo estará plenamente ratificado pelo Brasil. O cronograma doméstico ainda precisa dialogar com os prazos de Argentina, Paraguai e Uruguai, que também correm para concluir seus ritos legislativos.

Hugo Motta aposta na pressão do ambiente internacional para reduzir resistências internas e costurar um placar confortável. Governistas enxergam no tratado uma oportunidade de projetar o Brasil como ator relevante em acordos multilaterais, mesmo sob a sombra de tarifas mais duras impostas por Washington. Críticos alertam para riscos de desindustrialização acelerada e perda de margem de manobra em políticas públicas.

A votação prevista para depois de 21 de fevereiro se torna, assim, um teste duplo. Mede a capacidade da Câmara de reagir com rapidez a choques externos e revela até que ponto o país está disposto a ancorar seu futuro comercial em regras mais abertas com a União Europeia. O resultado definirá não apenas a próxima década de exportações e investimentos, mas também a posição do Brasil em uma ordem econômica que muda mais rápido do que o Congresso costuma votar.

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