Brasil e Índia fecham acordo sobre minerais críticos e energia limpa
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Narendra Modi assinam neste sábado (21), em Nova Délhi, um acordo de cooperação em minerais críticos e terras raras. O entendimento mira a transição energética e busca impulsionar o comércio bilateral a US$ 20 bilhões até 2030.
Brasil e Índia se alinham na corrida da economia verde
O gesto sela um movimento que Brasília e Nova Délhi costuram há meses, em meio à disputa global por insumos essenciais para tecnologias limpas. Minerais como lítio, nióbio, cobre, grafite e elementos de terras raras são hoje o coração de baterias, painéis solares e turbinas eólicas, e definem quem terá protagonismo na economia de baixo carbono.
Ao lado de Modi, Lula apresenta o acordo como um passo estratégico para “garantir que a transição energética também signifique desenvolvimento industrial e emprego de qualidade”. O texto prevê cooperação na exploração, processamento e pesquisa de minerais críticos, além de projetos conjuntos em tecnologia voltada à energia renovável. A ambição é reduzir a dependência de fornecedores concentrados em poucos países e dar previsibilidade às cadeias produtivas dos dois lados.
O entendimento ganha peso adicional porque aproxima duas das maiores economias em desenvolvimento no momento em que Estados Unidos, União Europeia e China travam uma disputa silenciosa por reservas e rotas de suprimento. Na avaliação de diplomatas envolvidos nas negociações, a parceria Brasil–Índia tenta transformar uma vulnerabilidade histórica em ativo geopolítico, combinando o potencial mineral brasileiro à capacidade tecnológica e ao mercado indiano.
A assinatura em Nova Délhi ocorre após rodadas técnicas entre ministérios de Minas e Energia, Relações Exteriores e agências reguladoras dos dois países. Equipes discutem desde o final de 2024 modelos de cooperação que respeitem regras ambientais mais rígidas e, ao mesmo tempo, destravem investimentos privados. A ideia é que o acordo funcione como guarda-chuva jurídico e político para projetos que vão de pesquisa geológica a joint ventures industriais.
Disputa por minerais críticos redefine cadeias produtivas
Minerais críticos e terras raras são classificados assim não apenas pela escassez, mas pela importância em setores considerados vitais, como energia, defesa, telecomunicações e mobilidade. Quem controla esses insumos define o ritmo da inovação e o preço da transição energética. É esse cálculo que orienta o desenho do novo eixo entre Brasília e Nova Délhi.
No Brasil, o governo vê oportunidade de agregar valor à produção mineral, historicamente exportada como commodity. A aposta é que parcerias com grupos indianos em processamento avançado e fabricação de componentes para baterias e equipamentos solares ajudem a romper o ciclo de exportar minério bruto e importar tecnologia cara. Em Nova Délhi, a leitura é semelhante: garantir abastecimento confiável por décadas significa proteger o programa de expansão de energia renovável, crucial para um país que ainda depende fortemente de carvão.
Interlocutores dos dois governos afirmam que o plano é alcançar um comércio bilateral de pelo menos US$ 20 bilhões até 2030, mais que o dobro do registrado em meados da década anterior. Empresas dos setores de mineração, energia renovável e tecnologia devem ser as primeiras a sentir os efeitos. Projetos-piloto incluem desde centros conjuntos de pesquisa aplicada em baterias de lítio e sódio até testes de cadeias produtivas de ímãs permanentes para turbinas eólicas.
Especialistas ouvidos pelas chancelarias defendem que o acordo só fará sentido se vier acompanhado de padrões ambientais claros e participação das comunidades afetadas. A exploração de terras raras costuma deixar passivos tóxicos e já provoca controvérsias em áreas sensíveis no Brasil e na Índia. A pressão de investidores por critérios ESG e de governos locais por compensações sociais deve balizar a seleção de projetos com selo bilateral.
Próxima fase será transformar papel em projetos concretos
Com a assinatura, a agenda passa a ser de execução. Técnicos trabalham em uma lista de projetos prioritários para os primeiros três anos, com foco em mineração sustentável, rastreabilidade de cadeias produtivas e desenvolvimento de tecnologias que reduzam o uso de insumos mais poluentes. Os governos discutem ainda mecanismos de financiamento, que podem envolver bancos públicos dos dois países e organismos multilaterais.
O desafio é traduzir o otimismo diplomático em investimentos efetivos, empregos e inovação. Sem cronogramas claros e metas verificáveis, o acordo corre o risco de se somar a outros protocolos que nunca saem do papel. A disputa mundial por minerais críticos não dá sinais de arrefecer, e o tempo para consolidar novas parcerias estratégicas é curto. Resta saber se Brasil e Índia conseguirão aproveitar a janela aberta em Nova Délhi para se firmar como protagonistas da economia verde ou se assistirão de fora à próxima onda de industrialização limpa.
