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Irã diz que EUA não exigem fim de enriquecimento em negociações nucleares

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirma no início de 2025 que os Estados Unidos não exigem o fim do enriquecimento de urânio nas negociações sobre o programa nuclear iraniano. A declaração, dada em entrevista à MS NOW, revela uma mudança de tom em relação às pressões anteriores de Washington e abre espaço para um acordo diplomático em meio à escalada militar norte-americana no Oriente Médio.

Negociações em clima de pressão e prazos curtos

Araqchi descreve uma mesa de negociação em que, pela primeira vez em anos, não se fala em “enriquecimento zero” como condição para aliviar sanções. Segundo o chanceler, Teerã não coloca na mesa qualquer paralisação do programa nuclear. “Não oferecemos nenhuma suspensão e o lado americano não pediu o enriquecimento zero”, afirma.

As conversas ocorrem em Teerã, mas envolvem emissários de alto perfil dos Estados Unidos, como Steve Witkoff e Jared Kushner, enviados pelo governo Donald Trump. Araqchi fala em uma combinação de discussões técnicas e políticas, centradas em como garantir que cada centrífuga e cada instalação iraniana permaneçam sob parâmetros considerados pacíficos pela comunidade internacional. “O que estamos discutindo agora é como garantir que o programa nuclear do Irã, incluindo o enriquecimento, seja pacífico e permaneça pacífico para sempre”, diz.

O clima, porém, é de urgência. Na quinta-feira, 19, Trump impõe um prazo de 10 a 15 dias para que o Irã aceite um entendimento ou enfrente, nas palavras dele, “coisas muito ruins”. A frase ecoa em uma região já marcada por crises e reforça a leitura de que o relógio diplomático corre em paralelo ao deslocamento de tropas, navios e aviões americanos para o Oriente Médio.

Araqchi tenta responder a essa pressão com um calendário próprio. Ele diz esperar apresentar, em dois ou três dias, uma minuta de proposta iraniana aos enviados de Washington. Depois disso, prevê pelo menos mais uma semana de negociações, até que um texto mais maduro possa ser colocado na mesa. “Acredito que um acordo diplomático está ao alcance e pode ser alcançado em um período muito curto de tempo”, afirma, sem detalhar o conteúdo da oferta.

Programa nuclear sob holofotes e impacto global

O ponto central da disputa é o direito do Irã de enriquecer urânio em seu território, algo previsto no regime internacional de não proliferação, desde que haja supervisão e transparência. Nas últimas duas décadas, esse direito vira motivo de sanções econômicas sucessivas, embargos ao petróleo e isolamento financeiro que reduzem drasticamente a entrada de divisas no país. O impasse sobre o enriquecimento está no coração desse cerco.

Dessa vez, Araqchi fala em “medidas de construção de confiança” para atenuar o temor de que o programa tenha um componente militar. O chanceler descreve um pacote de passos técnicos e políticos, sem entrar em números ou listas. Na prática, a fórmula discutida passa por maior acesso de inspetores internacionais, monitoramento constante de estoque de urânio enriquecido e limites à pureza do material, elemento que define a distância entre uso civil e potencial bélico.

Em troca, o Irã espera algum relaxamento das sanções que atingem o país desde a década de 2000, reforçadas após a saída dos Estados Unidos do acordo de 2015, o chamado Plano de Ação Conjunto Global. Setores como petróleo, gás, transporte marítimo e sistema bancário sofrem com restrições que travam exportações, encarecem importações e pressionam a inflação interna. Qualquer gesto de Washington sobre sanções pode alterar o humor de investidores e o preço do barril de petróleo, hoje sensível a qualquer sinal de instabilidade no Golfo Pérsico.

O recuo na exigência de enriquecimento zero indica que os Estados Unidos avaliam outra rota: não mais tentar desmontar o programa nuclear iraniano, mas cercá-lo com limites e verificações. A mudança pode facilitar o alinhamento com aliados europeus, que historicamente defendem a manutenção de algum grau de enriquecimento sob rígida fiscalização internacional, como forma de evitar uma corrida regional por armas nucleares.

No tabuleiro interno iraniano, a manutenção do enriquecimento funciona também como mensagem de soberania. Ao afirmar que não considera suspender o processo, o governo reforça o discurso de que não cede a ameaças militares nem a prazos apertados. Ao mesmo tempo, a disposição de negociar abre espaço para moderados e reformistas que defendem uma integração maior com a economia global, mesmo a custo de concessões graduais na área nuclear.

Risco de conflito e próximos passos da diplomacia

A escalada militar dos Estados Unidos no Oriente Médio serve de pano de fundo para cada frase dita em Teerã e em Washington. O aumento da presença de navios de guerra, caças e tropas na região alimenta o temor de um confronto direto, que poderia envolver não só o Irã, mas aliados e rivais regionais em efeito dominó. Para mercados de energia, qualquer avanço na direção de um acordo em 10 a 15 dias pode significar alívio temporário no preço do petróleo, hoje atrelado ao risco de fechamento de rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz.

As negociações descritas por Araqchi ainda estão em fase de esboço, com uma minuta prometida para os próximos dois ou três dias e uma nova rodada prevista para a semana seguinte. Nesse intervalo, governos europeus, Rússia e China acompanham de perto as conversas, interessados em preservar canais comerciais com Teerã e evitar um ataque americano que redesenhe, à força, o equilíbrio de poder na região.

Um eventual entendimento que mantenha o enriquecimento de urânio sob controle rígido, com inspeções frequentes e limite claro de uso civil, pode reduzir a temperatura e abrir caminho para flexibilizar sanções em etapas. A ausência desse acordo, diante do ultimato de Trump, joga o cenário para o lado oposto: novos pacotes de sanções, retórica mais agressiva e risco maior de incidentes militares no Golfo.

Araqchi insiste que um acordo rápido é possível, mas evita promessas. Ao não revelar o conteúdo da proposta iraniana, preserva margem de manobra diante da opinião pública interna e dos negociadores estrangeiros. A questão que permanece, enquanto o prazo de 10 a 15 dias corre, é se a diplomacia consegue produzir garantias suficientes para conter a pressão dos falcões em Washington e em Teerã antes que a lógica militar fale mais alto.

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