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Hungria e Eslováquia ameaçam cortar energia à Ucrânia em disputa por petróleo russo

Hungria e Eslováquia ameaçam suspender, a partir desta segunda-feira (23), o fornecimento emergencial de eletricidade à Ucrânia caso Kiev não retome o trânsito de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba. O impasse, que começa em 27 de janeiro e se agrava com ultimatos públicos nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2026, expõe uma das disputas mais duras entre a Ucrânia e dois vizinhos da União Europeia que mantêm laços estreitos com Moscou.

De ataque de drone a ultimato energético

O conflito nasce no fim de janeiro, quando o fluxo de petróleo russo para Hungria e Eslováquia é interrompido. Kiev afirma que um ataque de drone russo atinge equipamentos de um trecho do Druzhba no oeste da Ucrânia em 27 de janeiro, forçando a paralisação. Os governos húngaro e eslovaco rejeitam a versão ucraniana e culpam Kiev pela demora em restabelecer o transporte.

Quase um mês depois, a disputa sai dos bastidores técnicos e entra no terreno político. O primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, anuncia no sábado que dará dois dias para que a Ucrânia permita novamente a passagem do petróleo russo em direção ao seu país. “Se o fornecimento de petróleo para a Eslováquia não for retomado na segunda-feira (23), pedirei à SEPS, a sociedade anônima estatal, que interrompa o fornecimento emergencial de eletricidade para a Ucrânia”, escreve em uma postagem no X.

O recado ecoa a posição do premiê húngaro, Viktor Orbán, que faz ameaças semelhantes dias antes, também vinculando o envio de energia à retomada do fluxo de óleo russo. Nas duas capitais, a mensagem é a mesma: sem petróleo, não haverá resgate elétrico para o vizinho em guerra.

O governo ucraniano reage em tom duro e acusa Budapeste e Bratislava de “chantagem”. “A Ucrânia rejeita e condena os ultimatos e a chantagem dos governos da Hungria e da República Eslovaca em relação ao fornecimento de energia entre nossos países”, afirma o Ministério das Relações Exteriores em comunicado. “Ultimatos devem ser enviados ao Kremlin, e certamente não a Kiev.”

Dependência de petróleo russo e energia em risco

Hungria e Eslováquia são os últimos dois países da União Europeia que ainda dependem de volumes significativos de petróleo russo transportado pelo Druzhba, um oleoduto da era soviética que atravessa o território ucraniano. O encanamento, construído nos anos 1960, se torna um símbolo de interdependência energética entre Moscou e a Europa Central e, desde a invasão russa em 2022, uma fonte permanente de tensão política.

Ao contrário de outros membros da UE, que diversificam fornecedores e reduzem a fatia de óleo russo na matriz, Budapeste e Bratislava mantêm o Druzhba como linha vital para suas refinarias. Com o fluxo interrompido há quase quatro semanas, a margem de manobra diminui. A crise de abastecimento pressiona governos que já nadam contra a corrente pró-Ucrânia em Bruxelas e aproveitam a brecha para cobrar de Kiev.

Na outra ponta da equação, a Ucrânia vive um inverno mais vulnerável. Desde outubro do ano passado, a Rússia intensifica ataques com drones e mísseis contra o sistema energético ucraniano, derrubando linhas de transmissão, usinas e subestações. Milhões de pessoas enfrentam apagões prolongados em meio a temperaturas abaixo de zero, dependentes de geradores e redes de emergência para garantir aquecimento e luz.

Nesse cenário, a eletricidade vinda da União Europeia funciona como um fio de segurança. Hungria e Eslováquia respondem, juntas, por cerca de metade das exportações europeias de eletricidade de emergência para a Ucrânia. Sem esses fluxos, a capacidade de Kiev de estabilizar a rede cai de forma brusca e aumenta o risco de novos blecautes em larga escala, tanto na Ucrânia quanto na vizinha Moldova, que já sente reflexos das oscilações na região.

O Ministério das Relações Exteriores ucraniano classifica as ameaças de Fico e Orbán como “provocativas, irresponsáveis e que ameaçam a segurança energética de toda a região”. Em Kiev, a avaliação é que Moscou se beneficia de qualquer fissura entre a Ucrânia e parceiros da UE e da Otan, ainda que estes sejam aliados desconfortáveis.

Pressão sobre a UE e rotas alternativas

O impasse coloca a União Europeia diante de um novo teste de coesão às vésperas do quarto aniversário da invasão russa em grande escala, que se completa na terça-feira (24). Os dois governos que agora ameaçam cortar a energia à Ucrânia são membros da UE e da Otan, mas desde o início da guerra preservam canais privilegiados com o Kremlin e questionam sanções mais duras contra Moscou.

Diplomatas em Bruxelas acompanham com preocupação a escalada, que combina vulnerabilidade energética, inverno rigoroso e disputa política interna. Qualquer interrupção prolongada do trânsito de petróleo e das trocas de eletricidade tende a pesar sobre as discussões de novas rodadas de sanções e sobre os planos da UE de reduzir ainda mais a dependência de combustíveis fósseis russos em 2026.

Kiev tenta evitar o colapso das relações com os dois vizinhos e apresenta alternativas técnicas. Em carta enviada à missão ucraniana na UE e vista pela agência Reuters, o governo propõe rotas alternativas para atender Hungria e Eslováquia enquanto os reparos no Druzhba avançam. Uma possibilidade é usar outros trechos do sistema de transporte de petróleo ucraniano para redirecionar o fluxo. Outra é recorrer a uma rota marítima, que pode envolver o oleoduto Odesa-Brody, ligação entre o principal porto da Ucrânia no Mar Negro e o bloco europeu.

Essas soluções, porém, exigem tempo, investimentos e coordenação entre operadores de rede e governos, num momento em que a margem política é estreita. Fico e Orbán falam em prazos de dias; engenheiros e reguladores trabalham com cronogramas de semanas para consertar infraestrutura danificada e ajustar contratos de transporte e seguro em uma zona de guerra.

O cálculo de custos e ganhos é delicado para todos. Hungria e Eslováquia buscam garantir o abastecimento interno e conter preços domésticos de energia, tema sensível para governos que se apresentam como defensores do “custo de vida” contra Bruxelas. A Ucrânia tenta manter a imagem de parceiro confiável no trânsito de energia russa para a Europa, algo que continua, mesmo reduzido, desde 2022, ao mesmo tempo em que não quer ceder à pressão de países que se aproximam de Moscou.

Nas próximas semanas, o bloco europeu terá de decidir se transforma o impasse em tema formal de discussão em cúpulas e conselhos ou se deixa que os três governos negociem diretamente uma saída. A forma como essa disputa será resolvida pode definir não só o próximo inverno no Leste Europeu, mas também o tom das relações entre Kiev e parte da UE em um conflito que entra no quinto ano sem sinal de trégua.

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