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Balcázar rejeita indulto a Pedro Castillo e fixa prioridade em eleições

O presidente interino do Peru, José Balcázar, descarta conceder indulto ao ex-presidente Pedro Castillo e afirma, neste 21 de fevereiro de 2026, que sua gestão se concentrará em segurança, eleições e estabilidade econômica. A decisão vem após pedido formal de clemência apresentado por Castillo, que cumpre pena de 11 anos de prisão por conspiração para rebelião.

Balcázar marca distância de Castillo em meio à crise

Balcázar assume o comando do país em um dos momentos mais delicados da política peruana recente. Ele chega ao Palácio de Governo eleito pelo Congresso para substituir José Jerí, destituído após apenas quatro meses no cargo, e encontra um cenário de desconfiança institucional, economia pressionada e sucessão presidencial indefinida até julho de 2026.

Nesse ambiente, o pedido de indulto de Pedro Castillo funciona como um primeiro teste político relevante. O ex-presidente, preso na penitenciária de Barbadillo, a mesma que já abrigou outros ex-mandatários peruanos, tenta reverter a sentença de 11 anos de prisão imposta no fim de 2025 por conspiração para cometer rebelião. Na petição enviada na quinta-feira, ele afirma que a condenação é injusta e diz representar a vontade de “muitos outros peruanos” que consideram que ele não deveria ter sido condenado.

Balcázar responde publicamente pela rede X, antigo Twitter, e faz questão de afastar qualquer expectativa de intervenção em favor de Castillo. “Não tenho em minha agenda a concessão de qualquer clemência, como indultos, em favor de qualquer pessoa processada ou condenada”, escreve. Ele justifica a nota como tentativa de “evitar interpretações distorcidas” sobre os limites de seu mandato interino.

O gesto surpreende parte do campo político pelo vínculo partidário entre os dois. Castillo chega ao poder em 2021 indicado pelo partido de esquerda Perú Libre, mesma sigla à qual Balcázar está associado. Em dezembro de 2022, o então presidente tenta dissolver o Congresso, é destituído pelo próprio Legislativo, preso em seguida e, depois, processado. A partir desse episódio, o país entra em uma sequência de governos curtos, protestos e disputas abertas entre Executivo e Congresso.

Interinato tenta reconstruir confiança e dar previsibilidade

No comunicado, Balcázar reduz o escopo de sua gestão a três eixos. “Nossa administração estará focada exclusivamente em garantir a segurança nacional, realizar eleições livres, justas e transparentes e assegurar a estabilidade econômica do país. Nada mais!”, afirma. A frase busca responder à principal inquietação de analistas e investidores desde a queda de Jerí: até que ponto o novo presidente interino pretende ir em decisões estruturais, com um mandato que termina quando o próximo presidente eleito assumir em julho de 2026.

Ao negar o indulto, o governo sinaliza que não pretende reabrir feridas do processo contra Castillo em um momento em que o sistema político tenta se reorganizar. A prisão do ex-presidente é um dos símbolos da polarização peruana. Para apoiadores, ele é vítima de uma perseguição judicial orquestrada por elites políticas e econômicas. Para adversários, a condenação por conspiração para rebelião representa uma resposta institucional à tentativa de ruptura constitucional de 2022.

A decisão de Balcázar reforça a leitura de que o Executivo interino prefere se ancorar nas decisões já tomadas pelo Judiciário e pelo Congresso, evitando qualquer movimento que possa ser interpretado como ajuste de contas dentro da esquerda. Também busca mostrar ao exterior que, apesar da troca acelerada de presidentes, o Peru mantém algum grau de previsibilidade institucional até a eleição marcada para este ano.

Economistas ouvidos nas últimas semanas por veículos locais apontam que a sucessão de crises presidenciais afeta diretamente indicadores de confiança, investimento e consumo. Cada turbulência política se traduz em prêmio de risco maior, crédito mais caro e adiamento de projetos. Ao colocar “estabilidade econômica” no centro do discurso, Balcázar tenta responder a esse ciclo de sobressaltos e convencer o mercado de que não haverá mudanças bruscas de orientação até julho.

País dividido observa próximos passos do governo interino

A recusa ao indulto tende a ecoar nas ruas e no Congresso. Grupos que mantêm apoio a Castillo podem enxergar na decisão uma nova demonstração de hostilidade do sistema político ao ex-presidente e usar o episódio para convocar manifestações. O governo, por sua vez, aposta que a mensagem de firmeza diante de um aliado histórico fortalece a imagem de independência do presidente interino.

No campo institucional, a negativa ajuda a delimitar o papel do Executivo até a posse do próximo mandatário, prevista para julho de 2026. Balcázar indica que pretende concentrar capital político na organização do processo eleitoral e em medidas pontuais de segurança pública e economia. A prioridade declarada é garantir que as eleições ocorram em ambiente minimamente estável, sob escrutínio interno e internacional.

A comunidade internacional acompanha de perto os desdobramentos da crise peruana desde a destituição de Jerí e a escolha de Balcázar pelo Congresso. Organismos multilaterais e parceiros regionais avaliam que a realização de eleições “livres, justas e transparentes” será decisiva para recuperar a credibilidade do país. Qualquer sinal de interferência no trabalho do Judiciário, sobretudo em casos de alta visibilidade como o de Castillo, poderia alimentar dúvidas sobre o compromisso do novo governo com o Estado de Direito.

A defesa de Castillo ainda não se pronuncia sobre o posicionamento da Presidência. A CNN entra em contato com o advogado Walter Ayala para comentar o episódio e aguarda resposta. No campo político, a expectativa é de que a oposição ao ex-presidente use a recusa do indulto como argumento de que as instituições funcionam e que a tentativa de rebelião de 2022 encontra resposta clara.

Com uma prisão em Barbadillo que abriga apenas quatro detentos, todos ex-presidentes, o Peru vive um retrato extremo da punição política. Balcázar tenta, ao mesmo tempo, se descolar desse histórico de sucessivas quedas e mostrar que seu governo provisório não pretende interferir em sentenças já estabelecidas. Resta saber se a estratégia de foco restrito em segurança, eleições e economia será suficiente para conter novas ondas de instabilidade até que o próximo presidente eleito assuma o comando do Executivo em julho de 2026.

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