Irã classifica forças navais e aéreas da UE como terroristas
O governo do Irã declara, neste sábado (21), as forças navais e aéreas dos países da União Europeia como organizações terroristas. A medida responde à decisão europeia, tomada na quinta-feira (19), de incluir o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) na lista de grupos terroristas do bloco.
Escalada em dois dias entre Teerã e Bruxelas
A decisão iraniana é anunciada pelo Ministério das Relações Exteriores em comunicado oficial, divulgado pela agência estatal Wana. Em menos de 48 horas, Teerã reage à resolução de 19 de fevereiro do Conselho da União Europeia, que passa a tratar o IRGC como entidade terrorista e autoriza o congelamento de fundos e ativos econômicos dos seus integrantes em todo o território do bloco.
O texto do governo iraniano classifica a medida europeia como “ilegal” e “contrária aos princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas”. O ministério insiste que o IRGC faz parte das forças armadas regulares do país e, por isso, não pode ser equiparado a um grupo extremista. “O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica é uma parte oficial e integrante das forças armadas do Irã”, afirma a nota.
Resposta simétrica e risco de novo isolamento
Ao rotular as forças navais e aéreas dos Estados membros da UE como terroristas, Teerã busca devolver o estigma imposto ao IRGC e sinalizar que está disposto a aceitar um custo diplomático elevado. Na prática, o decreto abre espaço para que o Irã trate militares europeus em operação na região como agentes de uma organização hostil, ainda que não haja, por enquanto, anúncio de medidas militares concretas.
A disputa aprofunda o desgaste acumulado desde a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, em 2018, e das sanções subsequentes que atingem setores como petróleo, finanças e comércio marítimo. A UE mantém, nos últimos anos, uma posição intermediária entre a pressão de Washington e tentativas de preservar canais de diálogo com Teerã. Ao incluir o IRGC na lista de terrorismo, o bloco cruza uma linha simbólica que o governo iraniano sempre tratou como inegociável.
Efeito das sanções e impacto econômico
A decisão europeia de 19 de fevereiro não é apenas política. A inclusão do IRGC na lista de terrorismo vem acompanhada de medidas restritivas automáticas: congelamento de contas bancárias, bloqueio de investimentos, proibição de acesso a sistemas financeiros e impedimentos a viagens dentro dos 27 países do bloco. Na prática, qualquer ativo ligado direta ou indiretamente ao corpo militar – de empresas de fachada a fundos pessoais – fica sob risco imediato de bloqueio.
O IRGC não é um ator apenas militar. O corpo controla fatias relevantes da economia iraniana, de infraestrutura a energia e construção civil. A pressão sobre seus integrantes tende a se espalhar para empresas parceiras na Europa, bancos que intermediam transações e companhias de transporte envolvidas no comércio com o Irã. Executivos e investidores passam a lidar com o risco de violar sanções, o que costuma levar à retirada preventiva de capitais e ao encarecimento de qualquer operação ligada ao país.
Tensões militares e segurança regional
Ao mirar especificamente as forças navais e aéreas da UE, o Irã escolhe o terreno onde o contato com militares europeus é mais frequente: patrulhas marítimas, missões no Golfo Pérsico, no mar Vermelho e no Mediterrâneo. Navios e aeronaves de países europeus costumam participar de operações de proteção a rotas comerciais, de fiscalização de sanções e de apoio a coalizões internacionais. Com o novo rótulo imposto por Teerã, cada abordagem, sobrevoo ou inspeção ganha potencial para virar incidente político.
Diplomatas ouvidos em conversas reservadas avaliam que a medida iraniana tem forte componente simbólico e busca pressionar capitais europeias a reavaliar o alcance das sanções. Ao mesmo tempo, especialistas em segurança alertam que a simples mudança de linguagem jurídica já aumenta o risco de erro de cálculo em áreas sensíveis, onde navios militares, cargueiros civis e forças iranianas operam em espaços estreitos e disputados.
O que pode acontecer a partir de agora
O gesto de Teerã tende a alimentar pedidos, dentro da própria UE, por um endurecimento adicional, com novas sanções e revisão de contatos diplomáticos de alto nível. Alguns governos europeus defendem, desde 2022, uma postura mais dura diante do envolvimento do IRGC em conflitos regionais e da repressão interna no Irã. Outros temem que o rompimento de canais diretos inviabilize qualquer retomada de negociações sobre o programa nuclear iraniano e sobre a segurança no Golfo.
Para o Irã, o desafio é transformar a resposta de 21 de fevereiro em instrumento de pressão, sem fechar por completo as portas que ainda restam com a Europa. O decreto contra as forças navais e aéreas europeias marca uma nova etapa de confronto, mas não define até onde cada lado está disposto a ir. A próxima rodada de sanções, discursos e eventuais incidentes no mar e no ar deve mostrar se essa troca de rótulos permanece no campo simbólico ou se vira mais um passo rumo a um isolamento ainda maior de Teerã.
