Homem morre e mulher fica grave após queda de asa-delta no Rio
Um homem morre e uma mulher fica em estado grave depois que uma asa-delta cai no mar da Praia de São Conrado, na Zona Sul do Rio, na manhã deste sábado (21). O acidente ocorre próximo à área de pouso usada por praticantes do esporte e mobiliza helicóptero e motos aquáticas do Corpo de Bombeiros.
Resgate no mar expõe risco em área símbolo de esportes radicais
O céu de São Conrado costuma receber dezenas de asas-deltas e parapentes em fins de semana de verão. A manhã deste 21 de fevereiro de 2026 repete o cenário de movimento intenso até que uma das velas perde altitude e cai no mar, a poucos metros da faixa de areia. Banhistas e outros pilotos observam a cena sem conseguir reagir com rapidez. Minutos depois, o barulho das hélices anuncia a chegada do socorro.
De acordo com o Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, equipes do Grupamento de Operações Aéreas são acionadas e usam um helicóptero e motos aquáticas no resgate. Os militares retiram o homem e a mulher da água e levam os dois até a areia, onde a reanimação começa ali mesmo, diante de curiosos e de outros atletas que se preparam para voar. O esforço da equipe dura vários minutos.
As tentativas de salvar o homem não funcionam. Segundo os bombeiros, ele sofre múltiplos ferimentos e morre ainda na praia. A mulher segue recebendo atendimento avançado e é levada em estado grave para o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, referência no atendimento a politraumatizados na Zona Sul. Até o início da tarde, o nome das vítimas não é divulgado oficialmente.
O ponto da queda fica nas imediações da pista oficial de pouso de São Conrado, estrutura que recebe há décadas voos que partem da Pedra Bonita, na Floresta da Tijuca. A região é cartão-postal da cidade e vitrine de esportes radicais, impulsionada pelo turismo e por voos duplos que atraem visitantes do Brasil e do exterior. A foto divulgada pela prefeitura, por meio da Riotur, registra o movimento de equipes de resgate na areia logo após o acidente.
Tragédia reacende debate sobre segurança no voo livre
A causa da queda ainda não é informada pelas autoridades. Técnicos e pilotos ouvidos ao longo de outros acidentes costumam apontar fatores como mudança brusca de vento, erro humano ou falha de equipamento. A análise desse caso, porém, depende de laudos periciais e de depoimentos dos envolvidos, o que deve ocorrer nos próximos dias. As asas-deltas usadas na região passam, em tese, por inspeções regulares, e os voos precisam ser autorizados por entidades que regulam o esporte.
O Rio de Janeiro acumula episódios de acidentes com voo livre desde os anos 1990, quando a prática se populariza entre turistas e moradores. Em 2018, a morte de uma turista em um voo duplo de parapente, também em São Conrado, provoca uma sequência de operações de fiscalização e cobrança de documentação de instrutores. Em 2023, um outro acidente com feridos volta a colocar o setor sob pressão, com pedidos de regras mais rígidas e treinamento obrigatório.
Especialistas em esportes radicais defendem que o voo de asa-delta continua seguro quando segue protocolos de checagem de equipamentos, análise de condição de vento e qualificação do piloto. Ao mesmo tempo, reconhecem que qualquer falha em uma dessas etapas pode ter consequência fatal. A prefeitura do Rio informa, em notas anteriores sobre o tema, que a pista de pouso de São Conrado opera com apoio de guardas municipais e equipes de ordenamento urbano em fins de semana e feriados para tentar reduzir o risco de incidentes.
Moradores e frequentadores da praia relatam insegurança com a sequência de notícias sobre acidentes. Famílias que caminham na areia dividem espaço com pousos sucessivos de asas-deltas e parapentes. Em dias de maior movimento, mais de 100 voos são registrados entre a manhã e o fim da tarde, número que cresce em feriados prolongados, segundo operadores de turismo que atuam na região. O choque entre o apelo turístico e a sensação de vulnerabilidade alimenta o debate sobre até que ponto a cidade está preparada para conciliar lazer radical e segurança pública.
Investigações, cobrança por regras e próximos passos
As circunstâncias do acidente deste sábado entram agora na rotina de investigações da Polícia Civil e de órgãos de fiscalização municipal. Peritos devem analisar as condições da asa-delta, ouvir testemunhas e checar se o voo seguia as normas previstas pela Confederação Brasileira de Voo Livre e pelas entidades locais. Em situações semelhantes, o inquérito leva semanas até apontar uma causa provável, o que costuma atrasar mudanças concretas nas regras de operação.
Familiares das vítimas acompanham a evolução do quadro clínico da mulher internada no Miguel Couto e aguardam a liberação do corpo do homem para sepultamento. A equipe médica monitora sinais vitais e avalia a necessidade de cirurgias de emergência, procedimento frequente em casos de traumas múltiplos. Cada boletim médico se torna um novo capítulo de tensão para parentes e amigos, que cobram respostas sobre o que acontece no céu de uma das praias mais conhecidas do país.
O episódio pressiona prefeitura, governo estadual e entidades esportivas a discutir, de forma coordenada, o modelo de fiscalização de voos na cidade. Possíveis medidas incluem reforço de vistorias em equipamentos, registro público de instrutores habilitados e maior transparência sobre as condições de vento e clima em tempo real. Operadores de turismo temem queda na procura, mas admitem reservadamente que a confiança do público depende de sinais claros de controle.
O acidente deste 21 de fevereiro se soma a um histórico de choques entre a vocação turística do Rio e os riscos de esportes que dependem de perfeita sincronização entre técnica, clima e estrutura. As perguntas sobre quem erra, como prevenir novas mortes e que tipo de fiscalização a cidade quer manterem-se sem resposta definitiva. As investigações em curso, o estado de saúde da sobrevivente e as reações de autoridades e do setor nos próximos dias indicam se a tragédia de São Conrado será apenas mais um caso nas estatísticas ou o gatilho para uma mudança real nas regras do voo livre na capital fluminense.
