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Preso na Papuda, Bolsonaro monta lista de aliados para 2026

Jair Bolsonaro elabora, da cela na Papuda, uma lista inicial de pré-candidatos ao Senado e a governos estaduais para 2026. A movimentação é revelada por Carlos Bolsonaro nesta sexta-feira (21), após visita ao pai na ala conhecida como Papudinha, em meio a relatos de piora no estado de saúde do ex-presidente.

Estratégia eleitoral nasce atrás das grades

O ex-presidente está preso no Complexo da Papuda, em Brasília, há meses, e enfrenta um quadro de saúde descrito pela família como instável. Mesmo assim, assume pessoalmente a tarefa de desenhar o primeiro mapa eleitoral da direita para as eleições gerais de 2026, com foco em cadeiras no Senado e nos governos estaduais, cargos estratégicos para qualquer projeto de poder no país.

Carlos Bolsonaro divulga o movimento em uma sequência de mensagens na rede X, antigo Twitter, após deixar a Papudinha, ala de segurança diferenciada onde o pai cumpre pena. Ele relata uma “longa e atenta conversa” com Bolsonaro e afirma que, durante a visita, recebeu a orientação de comunicar aliados sobre a lista em elaboração. O ex-vereador do Rio de Janeiro descreve um cenário de fragilidade física, mas de atuação política ativa do ex-mandatário.

“Meu pai, preso político, continua soluçando intensamente e, ontem, apresentou uma crise severa de vômitos ao longo da tarde. Ainda assim, pediu que eu informasse aos senhores que está confeccionando, inicialmente, uma lista de pré-candidatos ao Senado, aos governos estaduais e a outras participações políticas igualmente relevantes”, escreve Carlos, em uma das postagens feitas na manhã desta sexta-feira.

Na mesma visita, Carlos encontra os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Ubiratan Sanderson (PL-RS), que também passam pela Papudinha para se reunir com Bolsonaro. O parlamentar mineiro já afirma publicamente, em outras ocasiões, que recebeu do ex-presidente liberdade para construir palanques em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, com mais de 16 milhões de eleitores em 2022. A presença de ambos na ala reforça o papel do ex-chefe do Executivo como articulador do grupo, mesmo de dentro da prisão.

Carlos descreve o pai como alguém que enfrenta “evidente degradação de sua saúde”, mas que se mantém “focado, lúcido e construtivo”. Para a base bolsonarista, esse tipo de relato alimenta a narrativa de resistência e de perseguição política, frequentemente repetida pelo entorno do ex-presidente ao se referir ao processo que levou à prisão no Distrito Federal.

Disputa por 27 governos e 27 vagas no Senado

A decisão de Bolsonaro de se envolver diretamente na montagem de uma lista de pré-candidatos ocorre a menos de oito meses do início formal das articulações de 2026 dentro dos partidos. O pleito renova os 27 governos estaduais e uma das três cadeiras de cada estado no Senado, além da Presidência da República, da Câmara dos Deputados e das assembleias legislativas. Em 2022, o campo bolsonarista elegeu governadores em estados-chave, como São Paulo, com Tarcísio de Freitas, e Santa Catarina, com Jorginho Mello, e garantiu uma bancada robusta no Senado, com nomes como Marcos Pontes (PL-SP) e Magno Malta (PL-ES).

Desde que deixa o Planalto, Bolsonaro tenta preservar influência sobre a direita institucional, em especial no PL, partido que hoje comanda a maior bancada da Câmara, com mais de 90 deputados. A organização antecipada de uma lista de apadrinhados para o Senado e para governos estaduais tende a orientar as negociações internas e a distribuição de recursos partidários, que somam centenas de milhões de reais em Fundo Eleitoral e Fundo Partidário até 2026.

A sinalização de que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro entra nesse cálculo, cotada para disputar uma vaga ao Senado, reforça o esforço da família em manter uma presença direta nas urnas. Aliados veem Michelle como ativo eleitoral capaz de falar com o eleitorado conservador e religioso, que foi decisivo em estados como Distrito Federal e Rio de Janeiro nas últimas disputas. A confirmação dessa candidatura, antecipada por parlamentares próximos, deve se conectar à lista que Bolsonaro afirma montar agora, mesmo sob custódia.

A presença de Nikolas Ferreira e Ubiratan Sanderson na Papudinha projeta ainda a disputa por protagonismo dentro da própria direita. Nikolas, que se elege deputado federal em 2022 com mais de 1,4 milhão de votos em Minas e se torna um dos campeões de votos do país, se apresenta como rosto jovem do bolsonarismo. Sanderson, mais ligado à base tradicional do PL no Sul, atua como ponte com setores da segurança pública e do eleitorado conservador do Rio Grande do Sul.

A articulação em torno de 2026 também ocorre num ambiente de tensão institucional. A prisão de Bolsonaro, ordenada pelo Supremo Tribunal Federal, aprofunda o embate entre o entorno do ex-presidente e as cortes superiores. Declarações como a de Carlos, que chama o pai de “preso político”, tendem a acirrar esse confronto, ao mesmo tempo em que mobilizam a base mais fiel, especialmente nas redes sociais e em manifestações de rua.

Bolsonarismo testa força para 2026

O movimento de Bolsonaro de organizar, de dentro da Papuda, uma lista de pré-candidatos funciona como teste de sua capacidade de comando à distância. Governadores em exercício, parlamentares federais e lideranças regionais acompanham os sinais que saem da Papudinha para calibrar alianças e definir se se alinham ou não ao ex-presidente, considerado inelegível pela Justiça Eleitoral até pelo menos 2030.

A montagem dessa primeira lista pode influenciar diretamente as convenções partidárias de 2026, previstas para acontecer entre julho e agosto daquele ano, prazo em que os partidos oficializam candidaturas e coligações. Nomes que não entrarem nesse primeiro esboço correm risco de perder acesso à estrutura eleitoral do bolsonarismo, enquanto apadrinhados ganham vantagem na corrida por palanques, tempo de TV e recursos.

Adversários acompanham o movimento com atenção. Uma lista sólida de candidatos governistas e ao Senado ligada a Bolsonaro tende a pressionar siglas de centro e de esquerda a acelerar suas próprias definições, sobretudo em estados com disputas historicamente acirradas, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Bahia. A reação de partidos como PT, MDB, PSD e União Brasil deve aparecer nos próximos meses, à medida que o calendário eleitoral se aproxima.

O entorno de Bolsonaro aposta que a imagem de um líder preso, mas ainda ativo politicamente, ajuda a manter engajado um núcleo duro de apoiadores, estimado por analistas em cerca de 20% a 25% do eleitorado nacional. Críticos argumentam que a insistência em centralizar decisões em um ex-presidente condenado e encarcerado pode afastar eleitores moderados e quadros políticos que buscam distância de conflitos permanentes com o Judiciário.

A lista de pré-candidatos que surge agora na Papudinha ainda não vem a público, nem tem data para ser oficializada. Nos próximos meses, a política brasileira deve testar até onde a influência de Bolsonaro resiste à combinação de prisão, problemas de saúde e restrições judiciais. A resposta vai indicar não só o tamanho real do bolsonarismo em 2026, mas também quem, na prática, herda o comando da direita no país.

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