Nikolas reage a Eduardo e busca Bolsonaro em meio a racha na direita
O deputado federal Nikolas Ferreira visita Jair Bolsonaro e reage publicamente às críticas de Eduardo Bolsonaro neste sábado (21.fev.2026), em meio a um racha crescente na direita. A ofensiva do mineiro expõe tensões sobre herança política, protagonismo e o papel de Michelle Bolsonaro na reconfiguração do bolsonarismo.
Críticas públicas e disputa por protagonismo
A viagem de Nikolas até o ex-presidente, em meio às menções a “amnésia” feitas por Eduardo Bolsonaro, vira símbolo de uma disputa aberta por espaço na base bolsonarista. O encontro ocorre após uma sequência de entrevistas, vídeos e postagens em que o filho 03 acusa o colega de apagar o passado recente e relativizar o papel da família Bolsonaro na ascensão da nova direita desde 2018.
Nikolas reage em tom direto. Ele contesta o que chama de “injustiça” e sai em defesa de Michelle Bolsonaro, hoje um dos principais ativos eleitorais do campo conservador. Ao rebater Eduardo, o deputado mineiro tenta se posicionar como aliado leal a Jair e à ex-primeira-dama, mas independente de tutelas. O gesto serve também para falar com um público específico: jovens evangélicos, conservadores de redes sociais e eleitores que o ajudaram a receber mais de 1,4 milhão de votos em 2022.
Base dividida e cálculo eleitoral
O ruído interno ocorre a menos de oito meses do primeiro turno das eleições municipais de 2026, quando o bolsonarismo tenta manter hegemonia em capitais estratégicas e expandir presença em cidades médias. Com Jair Bolsonaro inelegível até 2030, a briga por quem carrega a bandeira do ex-presidente se intensifica, e cada declaração pública pesa. O ataque de Eduardo, que chama Nikolas de “esquecido” e questiona sua lealdade, rompe a regra tácita de preservar aliados de grande votação.
A resposta de Nikolas, centrada na defesa de Michelle e na recusa à pecha de traidor, reforça o lugar da ex-primeira-dama como possível candidata majoritária em 2026 ou 2028. Ela aparece com frequência em pesquisas internas da direita para o Senado e para o governo do Distrito Federal, e é vista por estrategistas como ponte com o eleitorado feminino, que se afasta de pautas mais agressivas desde 2022. Ao enquadrar o ataque de Eduardo como “amnésia”, Nikolas tenta deslocar a discussão do campo pessoal para uma disputa de narrativa sobre quem, de fato, protege o legado do ex-presidente.
Impacto na coesão do bolsonarismo
O episódio pressiona deputados, prefeitos e pré-candidatos que orbitam o bolsonarismo e calculam cada gesto nas redes. Em grupos de WhatsApp com milhares de apoiadores e em perfis com mais de 2 milhões de seguidores, aliados são cobrados a tomar posição. Alguns se alinham a Eduardo para evitar desgaste com a família, outros enxergam em Nikolas um caminho para renovar o discurso sem romper com Bolsonaro. A fragmentação, ainda silenciosa, começa a ganhar forma pública.
A visita de Nikolas a Jair, nesse contexto, funciona como tentativa de blindagem. Ao se mostrar ao lado do ex-presidente, ele busca reduzir o espaço para a narrativa de que rompe com o clã. A cena interessa também a Bolsonaro, que tenta conter fissuras em um campo onde cada voto pode fazer diferença em disputas apertadas por prefeituras e câmaras municipais. A depender da leitura do eleitorado, a troca de acusações pode desgastar todos os envolvidos e favorecer adversários de centro e esquerda, que exploram a imagem de desorganização na direita.
Próximos movimentos e incertezas
O desfecho imediato passa pela reação pública de Jair e Michelle Bolsonaro. Um gesto claro em direção a Nikolas, seja em vídeo, seja em participação conjunta em evento, pode reforçar a leitura de que o deputado mineiro continua no núcleo duro. Um silêncio prolongado, ao contrário, tende a fortalecer Eduardo e a ala que vê com desconfiança figuras emergentes fora do círculo familiar.
As próximas semanas devem registrar novos recados em entrevistas, lives e aparições em atos públicos. A forma como a base digital reage, medida em engajamento, doações e apoio a candidatos apoiados por cada grupo, servirá de termômetro para 2026 e 2028. A questão que fica, para além da troca de farpas, é se o bolsonarismo consegue transformar a disputa por herdeiros em projeto político consistente ou se se perde em conflitos internos justamente quando volta a buscar maioria nas urnas.
