Lula e Modi fecham acordos em energia, saúde e comércio na Índia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, assinam neste sábado (21/2), em Nova Délhi, uma série de acordos em saúde, comércio, transição energética e minerais estratégicos. Os dois governos miram ampliar o fluxo de negócios, ganhar peso na agenda climática global e reforçar a pressão por reformas na ONU.
Farmácia do mundo e celeiro global acertam rota comum
A cerimônia ocorre na Casa Hyderabad, em Nova Délhi, e marca uma inflexão na relação entre as duas maiores democracias do chamado Sul Global. Em clima de parceria, Lula descreve o encontro como a união da “farmácia do mundo” com o “celeiro do mundo”, numa referência à liderança indiana na produção de medicamentos e ao peso brasileiro na exportação de alimentos.
O foco imediato é econômico. Modi anuncia a meta de levar o comércio bilateral para além de US$ 20 bilhões nos próximos cinco anos. O volume atual gira em torno da metade disso, concentrado em commodities agrícolas, combustíveis e produtos químicos. A ambição é diversificar a pauta, com mais tecnologia, insumos farmacêuticos, equipamentos para energia limpa e serviços digitais.
Nos bastidores, diplomatas dos dois lados trabalham há meses na costura dos memorandos que agora ganham forma política. A visita de Lula à Índia consolida conversas iniciadas em encontros anteriores no G20 e no Brics, nos quais Brasília e Nova Délhi se aproximam ao defender posições comuns em clima, reforma da governança global e financiamento ao desenvolvimento.
Um dos atos centrais é o memorando entre o Ministério de Minas do governo indiano e o Ministério de Minas e Energia do Brasil para cooperação em elementos de terras raras e outros minerais críticos. São insumos essenciais para tecnologias consideradas limpas, como turbinas eólicas, carros híbridos, baterias avançadas e equipamentos de comunicação. Em outras palavras, quem controla esses recursos ganha peso na economia de baixo carbono que se desenha nas próximas décadas.
Lula destaca que o acordo em minerais e energia renovável é “pioneiro” e aponta a convergência entre os dois países na Aliança Global para Biocombustíveis. O Brasil leva a experiência acumulada com etanol e biodiesel. A Índia oferece escala de mercado, capacidade industrial e um ecossistema tecnológico robusto. A combinação interessa a fabricantes de veículos, produtores de cana, milho e oleaginosas, e também a investidores em novas rotas de combustível sustentável de aviação.
Energia limpa, saúde e agricultura na linha de frente
A cooperação anunciada não se limita ao subsolo. Modi ressalta que a parceria em agricultura de precisão, biofertilizantes e resiliência climática pode fortalecer a segurança alimentar dos dois países em um cenário de eventos extremos mais frequentes. A pauta fala diretamente ao produtor rural brasileiro, pressionado por custos de insumos e por exigências ambientais cada vez mais duras nos mercados internacionais.
No campo da saúde, o governo indiano sinaliza a intenção de ampliar o fornecimento de medicamentos de qualidade e a preços mais baixos para o Brasil. O gesto interessa ao Sistema Único de Saúde, que enfrenta elevada dependência de insumos importados para vacinas, remédios oncológicos e tratamentos de alta complexidade. A Índia já é hoje um dos maiores fornecedores globais de genéricos. A perspectiva é usar essa escala para reduzir custos e ampliar o acesso.
Lula enumera ainda avanços em transição digital, defesa e cooperação cultural, áreas em que Brazilian e indianos compartilham o desafio de regular grandes plataformas e proteger dados, enquanto buscam atrair investimentos em semicondutores, inteligência artificial e indústrias criativas. A narrativa comum é a de que a inovação não pode ficar restrita aos países ricos.
Ao lado da agenda econômica, os dois líderes reforçam o discurso político. “Somos ambos defensores do multilateralismo e da paz”, afirma Lula, ao cobrar uma reforma estrutural das Nações Unidas. Ele defende que o Conselho de Segurança tenha assentos permanentes para países do Sul Global e cita Brasil e Índia como “candidatos naturais”. A mensagem mira conflitos em curso e o bloqueio recorrente de decisões na ONU pelo veto das grandes potências.
Na prática, Brasil e Índia buscam traduzir crescimento econômico em influência institucional. A parceria em minerais críticos e energia pode reduzir a dependência de cadeias dominadas hoje por poucos países, enquanto o reforço do comércio bilateral abre margem para barganhar em negociações climáticas e comerciais. Empresas de agronegócio, farmacêuticas, mineradoras e startups de tecnologia acompanham de perto as oportunidades.
Pressão por reforma global e próximos passos
Lula insiste que não há “desenvolvimento sustentável e justo em um mundo conflagrado” e afirma que as únicas guerras legítimas são contra a fome, a pobreza e a degradação ambiental. O discurso se alinha ao de Modi, que apresenta o comércio bilateral não apenas como indicador econômico, mas como “símbolo de confiança mútua” entre as duas nações. A aposta é que a cooperação em saúde pública, agricultura sustentável e transição energética produza ganhos sociais mensuráveis nos próximos anos.
Os próximos meses serão decisivos para transformar memorandos em projetos concretos. Técnicos de minas e energia desenham mapeamentos conjuntos de reservas, possíveis empreendimentos em processamento de terras raras e modelos de financiamento. Equipes da saúde discutem parcerias para produção local de medicamentos e transferência de tecnologia. Negociadores de comércio avaliam reduções tarifárias e facilitação de investimentos, enquanto diplomatas preparam ações coordenadas em votações na ONU e em fóruns como G20 e Brics.
Resta saber se o ímpeto político sobreviverá a disputas internas, pressões de outros parceiros comerciais e incertezas da economia global. Se sair do papel, a aproximação entre Brasília e Nova Délhi tem potencial para redesenhar rotas de comércio no Sul Global e dar voz mais firme às economias emergentes nas grandes mesas de decisão internacional.
