Escritora de livro sobre luto vai a júri por morte do marido com fentanil
A escritora Kouri Richins vai a júri nos Estados Unidos em 21 de fevereiro de 2026, acusada de matar o próprio marido com fentanil. O caso opõe a imagem pública de mãe enlutada à suspeita de um crime calculado.
Do livro de consolo ao banco dos réus
O julgamento ganha atenção muito antes de o júri ser formado. Kouri não é apenas mais um nome em um processo de homicídio. Ela se torna conhecida ao lançar um livro infantil sobre luto, voltado a ajudar os três filhos a lidar com a morte do pai. Meses depois, promotores a apontam como responsável direta por essa mesma morte.
A acusação sustenta que Kouri teria administrado uma dose fatal de fentanil ao marido, em casa, durante uma noite aparentemente comum em família. O fentanil é um opioide sintético até 50 vezes mais forte que a heroína, associado a dezenas de milhares de mortes por overdose todos os anos nos Estados Unidos. Investigadores afirmam que traços da substância aparecem em exames toxicológicos e que mensagens, registros telefônicos e movimentações financeiras de Kouri reforçam a hipótese de um plano premeditado.
Promotores descrevem um enredo de fachada emocional e interesse financeiro. Em petições e audiências preliminares, sustentam que Kouri teria buscado lucros com seguros de vida e controle de bens da família. Ao mesmo tempo, ela se apresenta ao público como mãe dedicada, tentando proteger os filhos do trauma da perda. “Ela transforma a tragédia em produto”, acusa resumidamente um promotor em uma das sessões do caso, segundo registros do processo.
A defesa insiste que o Ministério Público monta uma narrativa conveniente, sem provas diretas de que Kouri tenha dado o fentanil ao marido. Advogados afirmam que a autora é alvo de “demonização pública” e que o livro, longe de ser evidência de culpa, mostra o esforço genuíno de uma mãe em meio ao desespero. “Escrever sobre dor não torna ninguém assassino”, argumenta a defesa, que questiona a cadeia de custódia de exames e a interpretação dos laudos.
Um caso que expõe luto, família e a crise do fentanil
O julgamento se insere em um cenário de crise nacional. O fentanil está no centro de uma epidemia que já mata mais de 70 mil pessoas por ano nos Estados Unidos, segundo dados oficiais recentes. O caso de Kouri leva esse debate para dentro da casa de uma família de classe média, rompendo a ideia de que a substância se restringe a mercados ilícitos distantes do cotidiano doméstico.
A morte do marido de Kouri, somada ao lançamento do livro e à posterior acusação, transforma a família em símbolo de uma dor ambígua. Especialistas em saúde mental apontam que o episódio reforça a urgência de acompanhamento psicológico estruturado em situações de luto intenso, especialmente quando há crianças envolvidas. “A sociedade costuma romantizar a superação rápida. Quando o sofrimento é instrumentalizado, por qualquer lado, o risco de distorções aumenta”, avalia uma psicóloga clínica que acompanha casos de famílias enlutadas.
O sistema de justiça também entra sob escrutínio. Organizações de direitos civis observam com atenção a forma como a opinião pública influencia casos de grande exposição midiática. A publicação do livro, as entrevistas de Kouri e a repercussão nas redes sociais criam um ambiente em que o tribunal precisa proteger o princípio de presunção de inocência, mesmo diante de um enredo que parece pronto para séries de true crime.
O processo promete ainda reverberar em políticas de controle de substâncias controladas. A facilidade de acesso ao fentanil e a falta de rastreabilidade em alguns canais legais e ilegais são temas frequentes em audiências no Congresso americano. O caso de Kouri oferece um exemplo dramático de como um medicamento poderoso, usado corretamente em hospitais, pode se transformar em arma letal quando escapa do controle.
Julgamento, repercussão e o que vem depois
O júri convocado para 21 de fevereiro de 2026 terá a tarefa de avaliar meses de investigações, depoimentos de especialistas em toxicologia e testemunhos de familiares e amigos. A defesa tenta excluir do processo partes do material promocional do livro, alegando que isso contamina os jurados com juízos morais, não jurídicos. A acusação, por sua vez, vê no contraste entre a obra e as suspeitas um elemento central para demonstrar duplicidade de comportamento.
A decisão pode se tornar referência em debates acadêmicos e judiciais sobre a fronteira entre narrativa pessoal e responsabilidade criminal. Um veredito condenatório tende a reforçar a percepção de que o sistema responde com firmeza a crimes envolvendo fentanil, especialmente em ambiente doméstico. Uma absolvição, por outro lado, levantaria questões sobre falhas na investigação, na coleta de provas e na maneira como casos midiáticos são construídos.
Independentemente do resultado, o processo de Kouri já provoca reações em entidades de saúde mental, que defendem programas públicos mais robustos de apoio a famílias enlutadas, com atendimento psicológico continuado e orientação sobre riscos de automedicação e uso de drogas potentes em casa. Também impulsiona discussões sobre a responsabilidade de autores, editoras e plataformas digitais ao transformar histórias de sofrimento em produtos de consumo.
Enquanto o tribunal se prepara para ouvir testemunhas, a principal pergunta permanece em aberto: onde termina o relato legítimo de dor e começa a manipulação de uma tragédia? A resposta, agora, passa pelas mãos de 12 jurados e por um país que tenta entender seus próprios limites diante do luto, da violência e da dependência de substâncias cada vez mais letais.
