Lula defende aliança com a Índia para fortalecer o Sul global
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma, nesta 21ª de fevereiro de 2026, na Índia, que a aliança entre Brasil e Nova Déli é decisiva para fortalecer o Sul global. Ao lado de autoridades indianas, ele prega cooperação em ciência, tecnologia, defesa e comércio para evitar uma nova guerra fria entre grandes potências.
Viagem insere Brasil e Índia no centro do tabuleiro
Lula chega ao ponto alto de uma viagem de oito dias pela Ásia, iniciada em 18 de fevereiro, e escolhe a Índia para reforçar a mudança de eixo na política externa brasileira. Em vez de se alinhar automaticamente a Washington ou Pequim, o governo aposta em uma rede de parcerias entre países emergentes, com foco em resultados econômicos concretos.
Em discurso a interlocutores indianos, Lula descreve o país anfitrião como espelho e parceiro estratégico. “O olhar do Brasil para a Índia é um olhar muito esperançoso. Nós temos na Índia um país com muitas similaridades. Apesar da diferença de quantidade de habitantes, vários dos nossos problemas são similares. Nossos conhecimentos científico e tecnológico estão próximos”, afirma.
A fala ocorre em um momento de maior sintonia entre Brasília e Nova Déli tanto na geopolítica como nos negócios. Nos últimos dois anos, missões empresariais brasileiras se multiplicam no mercado indiano, em busca de acordos em setores como energia, tecnologia da informação, agronegócio e defesa. Autoridades dos dois lados tratam a relação como prioridade de longo prazo.
Lula viaja acompanhado de 11 ministros, quatro parlamentares e outras autoridades. A composição da comitiva expõe o caráter multidimensional da aposta brasileira: além do Itamaraty, participam representantes das áreas de Defesa, Ciência e Tecnologia, Indústria, Agricultura e Minas e Energia. A primeira-dama, Janja Lula da Silva, embarca com o presidente, mas segue direto para Seul, onde Lula cumpre agenda oficial na Coreia do Sul a partir de 23 de fevereiro.
Cooperação estratégica mira tecnologia, defesa e comércio
A Índia mantém crescimento acima de 6% ao ano em média nos últimos cinco anos e se consolida como um dos principais polos industriais e tecnológicos do mundo em desenvolvimento. O governo brasileiro enxerga nessa trajetória uma oportunidade de articulação entre cadeias produtivas, inovação e geração de empregos qualificados na América do Sul.
Na área de ciência e tecnologia, projetos de pesquisa conjunta em setores como biotecnologia, farmacêutica e energias renováveis ganham impulso. Universidades e centros de inovação dos dois países negociam intercâmbio de pesquisadores e programas conjuntos de formação, com metas de ampliar bolsas e laboratórios compartilhados ao longo dos próximos anos.
No campo da defesa, o diálogo avança em torno de transferência de tecnologia, desenvolvimento de sistemas de vigilância e possíveis parcerias em fabricação de equipamentos militares. A Índia tenta diversificar fornecedores e clientes, enquanto o Brasil busca reduzir dependências externas históricas, inclusive em componentes sensíveis.
O comércio bilateral também entra na conta. Interlocutores dos dois governos apostam em aumentar o fluxo de bens e serviços ao combinar a força do agronegócio brasileiro com a demanda de um mercado de mais de 1,4 bilhão de pessoas. Produtos agrícolas, fertilizantes, tecnologia da informação e serviços digitais aparecem entre as áreas com maior potencial de expansão em um horizonte de cinco a dez anos.
Lula vincula esse movimento a um projeto mais amplo de redesenho do poder global. “Se nós trabalharmos juntos, a gente vai fortalecer a relação bilateral, Brasil e Índia. A gente vai fortalecer a nossa relação com a América do Sul e a gente vai fortalecer o Sul global para que a gente não entre nunca mais numa guerra fria entre duas potências”, diz. A mensagem mira não apenas o público indiano, mas também investidores e governos atentos à escalada de tensões entre Estados Unidos, China e Rússia.
Disputa de influência e próximos passos da agenda
A aproximação entre Brasília e Nova Déli reposiciona a América do Sul em um cenário marcado por guerras, sanções e blocos rivais. Ao investir em cooperação com a Índia, o Brasil tenta reduzir vulnerabilidades, diversificar alianças e ganhar poder de barganha em fóruns globais, do G20 à Organização Mundial do Comércio.
Autoridades brasileiras avaliam que a parceria amplia a margem de manobra da região diante de conflitos que envolvem grandes potências e pressões por alinhamento automático. Uma aliança mais robusta com a Índia pode atrair outros países sul-americanos para projetos comuns em infraestrutura, energia limpa e tecnologia digital, criando um corredor de investimentos Sul-Sul com efeitos diretos sobre emprego e renda.
As negociações em curso incluem metas para ampliar o número de missões empresariais, acelerar acordos de facilitação de comércio e desenhar mecanismos de financiamento para projetos conjuntos. Bancos públicos e agências de fomento dos dois países discutem instrumentos para reduzir riscos cambiais e dar escala a iniciativas em inovação, defesa e transição energética.
Lula chega à Índia respaldado por convites para participar de espaços centrais da diplomacia global, como o G7, em meio à escalada de conflitos no Oriente Médio e à tensão entre Estados Unidos e Irã. Ao defender o fortalecimento do Sul global, o presidente busca se apresentar como voz de equilíbrio em um cenário de incertezas e disputas por influência.
Os próximos dias na Ásia, com a continuação da agenda na Coreia do Sul, devem indicar até que ponto o discurso de integração entre países emergentes se converte em contratos, investimentos e resultados tangíveis. A resposta virá na forma de novos acordos, ou da constatação de que a promessa de um Sul global mais forte ainda enfrenta resistências e limites impostos pela velha lógica das grandes potências.
