Reação de Benfica e Mourinho a Vinicius acirra debate sobre racismo
Benfica e José Mourinho enfrentam forte reação pública nesta sexta-feira (20) após se alinharem ao argentino Giangluca Prestianni, acusado de racismo por Vinicius Junior em Lisboa. A postura do clube e do treinador desencadeia uma onda de críticas no futebol europeu e pressiona instituições por respostas mais duras contra a discriminação.
Do gol no Estádio da Luz à crise de imagem
O episódio começa na noite de terça-feira (17), no Estádio da Luz, quando Vinicius marca o gol da vitória por 1 a 0 do Real Madrid sobre o Benfica, na partida de ida do mata-mata que vale vaga nas oitavas de final da Champions League. A dança do atacante brasileiro junto da bandeira do Benfica, fincada na marca do escanteio, inflama o estádio e antecede o momento em que ele afirma ter sido chamado de “mono”, “macaco” em espanhol, por Prestianni.
O árbitro francês François Letexier interrompe o jogo por alguns minutos, em meio à reclamação dos jogadores do Real Madrid e à perplexidade de parte da torcida. O caso ganha dimensão europeia poucas horas depois, quando Vinicius relata o insulto e reforça, em entrevistas e redes sociais, que não pretende silenciar diante de ofensas racistas, como já havia feito em episódios na Espanha.
A reação institucional do Benfica vem em tom de confronto. Em comunicado divulgado em seus canais oficiais, o clube questiona a versão dos atletas merengues: “dada a distância, os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que andam a dizer que ouviram”. Em campo, Prestianni nega a acusação. Fora dele, o clube o ampara publicamente e evita reconhecer a possibilidade de ofensa racial.
Mourinho, na entrevista pós-jogo, não contesta diretamente Vinicius, mas desloca o foco para a comemoração do brasileiro. “Quando se marca um gol daqueles, não vai mexer com o coração do estádio adversário”, afirma. A insinuação de que a dança ao lado da bandeira teria provocado as reações negativas abre espaço para leituras de relativização do ato racista denunciado.
Pressão de ex-jogadores, juristas e torcedores
A narrativa construída por Benfica e Mourinho provoca respostas imediatas. No dia seguinte, o técnico do Bayern de Munique, Vincent Kompany, um dos nomes mais respeitados de sua geração, critica de forma direta a postura do português. “José Mourinho ataca o caráter de Vinicius Junior para desacreditá-lo. Para mim, em termos de liderança, é um grande erro, é algo que não devemos aceitar”, diz.
O belga se incomoda também com o uso de Eusébio como espécie de escudo moral. “Ele cita o nome de Eusébio, maior ídolo da história do clube, para dizer que o Benfica não é racista. Não sabe o que os jogadores negros tiveram que sofrer na década de 1960. Muitos anos mais tarde, eu também sofri racismo na minha carreira”, afirma o ex-capitão da seleção belga e do Manchester City.
O desconforto ultrapassa as fronteiras da Alemanha. O francês Lilian Thuram, campeão mundial em 1998 e referência em iniciativas antirracistas na França, soma sua voz às críticas. No Brasil e em Portugal, o ex-zagueiro Luisão, que capitaneia o Benfica em boa parte dos anos 2000 e se torna um símbolo do clube, usa as redes sociais para lamentar a linha adotada pela direção encarnada.
“Também fui alvo de ofensas, inclusive racistas, depois de me manifestar”, escreve o ex-jogador paulista. “Isso dói, mas não me fará recuar. Posso ter ignorado provocações desportivas ao longo da carreira, mas nunca me calarei diante da discriminação de uma minoria que não representa o clube que amo.” A mensagem expõe a divisão dentro da própria comunidade benfiquista em relação ao episódio.
Enquanto ídolos e técnicos se posicionam, surgem nas redes sociais vídeos de torcedores do Benfica fazendo gestos de macaco após o gol de Vinicius. As imagens percorrem a Europa em poucas horas e passam a integrar o material que a Uefa analisa na investigação aberta sobre o caso. Até esta sexta-feira, a entidade ainda não apresenta conclusões nem indica prazos para uma decisão.
Pressionada pelo ambiente externo e por parte de sua torcida, a diretoria encarnada adota um discurso mais duro em relação aos sócios. Anuncia, em nota, que vai abrir uma investigação interna e promete desligar torcedores identificados nas manifestações racistas. O movimento tenta conter o desgaste da imagem de um clube que, em anos recentes, promove ações educativas como o evento “Show racism the red card” em 2020, mas que hoje não dispõe de um protocolo público e detalhado sobre racismo em seu site oficial.
Clube sob escrutínio e cobrança por respostas
As escolhas de comunicação do Benfica também entram em xeque. Estava marcada para esta sexta-feira (20) uma entrevista coletiva de Mourinho, que poderia dar novas explicações sobre o caso. O encontro é cancelado sem justificativa detalhada. Em vez de responder perguntas, o clube publica em seu site declarações do treinador sobre o momento da equipe e os próximos jogos. O nome de Prestianni aparece apenas para informar que o argentino está suspenso da partida contra o AVS, pelo Campeonato Português.
Especialistas avaliam que essa tentativa de tratar o episódio como assunto paralelo ao calendário esportivo tende a reforçar a percepção de insensibilidade. O advogado André Megale, especialista em direito esportivo e ex-diretor de compliance da CBF entre 2017 e 2021, considera inaceitável a ideia de que a comemoração de Vinicius possa servir como atenuante para uma ofensa racial. “Dizer que o comportamento de Vinicius Junior, ao dançar com a bandeira do Benfica, provocou uma ofensa racista é o mesmo que dizer que uma menina que usa minissaia merece ser estuprada”, afirma.
Megale defende que as políticas mais eficazes contra o racismo partem dos próprios clubes, que mantêm relação direta com torcedores e formam jogadores desde a base. “Entidades como a CBF e a Uefa podem e devem dar as linhas gerais de compliance, mas são os clubes que mantêm uma relação próxima com os torcedores. Também são eles os responsáveis por educar os jogadores”, diz. A ausência de um documento robusto e acessível sobre o tema, no caso benfiquista, passa a ser citada como sintoma de um problema estrutural.
No campo esportivo, o desgaste chega em momento sensível. O jogo de volta entre Real Madrid e Benfica, marcado para a próxima quarta-feira (25), no estádio Santiago Bernabéu, em Madri, deixa de ser apenas duelo por uma vaga nas oitavas da Champions. A partida tende a se transformar em termômetro da resposta institucional ao caso e da pressão social sobre a Uefa, que encara críticas recorrentes pela lentidão e pela suavidade de punições em episódios de racismo.
Para Luisão, o episódio vivido no Estádio da Luz representa também uma encruzilhada moral para o clube onde ele atuou por mais de uma década. “Que saiamos desse episódio melhores. Como clube, como adeptos, como sociedade. O futebol é paixão, é intensidade. Mas, antes de tudo, é humanidade. E humanidade não admite racismo”, escreve o ex-zagueiro.
O desfecho ainda é aberto. A investigação da Uefa segue sem prazo anunciado, o Benfica tenta equilibrar a defesa de seu jogador com a promessa de punir torcedores, e Mourinho administra o impacto de suas declarações em uma carreira construída sob holofotes. Até o reencontro entre Vinicius e Prestianni em Madri, o caso se impõe como teste para o discurso antirracista do futebol europeu e para a capacidade dos clubes de transformar slogans em prática cotidiana.
