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Trump lança Conselho da Paz e acende alerta sobre interferência no Brasil

Ao inaugurar em Washington o chamado Conselho da Paz nesta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026, Donald Trump transforma em política oficial um gesto que inquieta Brasília: o apoio explícito a candidatos estrangeiros. O governo Luiz Inácio Lula da Silva teme que o presidente americano leve essa estratégia às eleições brasileiras, enquanto recusa integrar o novo organismo liderado pela Casa Branca.

Trump exibe poder e normaliza apoio a aliados

No salão iluminado da sede do Conselho, Trump adota o tom de apresentador de reality show e passa a chamar, um a um, os líderes que aceitaram seu convite. O presidente americano descreve o grupo como “o conselho mais decisivo” do mundo e afirma que reúne “os maiores líderes mundiais”. Em meio aos elogios, envia uma mensagem aos ausentes, entre eles Lula. “Alguns estão se fazendo de difíceis, isso não funciona. Você não pode se fazer de difícil comigo”, provoca.

O discurso que prende a atenção do Itamaraty, porém, não é o da formalidade diplomática. Trump se vangloria de ter ajudado a eleger aliados de direita em diferentes países e admite, sem rodeios, que cruza a linha tradicional da não interferência em disputas externas. “Eu o apoiei. Não deveria apoiar pessoas, mas apoio quando gosto delas”, diz ao apresentar o argentino Javier Milei. Lembra que o economista “estava um pouco atrás nas pesquisas” e “acabou ganhando com uma margem enorme”.

Trump amplia a lista, cita Viktor Orbán, da Hungria, e Sanae Takaichi, premiê do Japão. “Apoiei a primeira-ministra do Japão. Ela estava em uma disputa acirrada, mas provavelmente venceria, e venceu com a maior votação da história do Japão. Então, ela gosta muito de mim”, afirma. Poucos minutos depois, resume sua política externa eleitoral com uma frase que ecoa em Brasília: “O apoio parece estar funcionando também em outros países, então isso é bom”.

O presidente admite conhecer o risco diplomático dessa estratégia, em caso de derrota ou de vitória de um rival hostil. Reconhece que, em teoria, não deveria fazer isso, mas relativiza o problema com um cálculo simples: se funcionar, vale a pena. Ao transformar esse raciocínio em discurso oficial, diante de dezenas de chefes de Estado e de governo, Trump envia o recado de que seu capital político passa a ser instrumento aberto de pressão em disputas nacionais pelo mundo.

Brasil recusa conselho e busca blindagem eleitoral

O Palácio do Planalto observa a cena com preocupação crescente. Auxiliares de Lula veem no novo conselho uma plataforma ideal para que Trump exiba aliados, teste narrativas e, se desejar, escolha um nome para apoiar na disputa brasileira de 2026. O temor não se limita a um eventual discurso em palanque. Interlocutores do governo falam em risco de ingerência digital, com uso intensivo de redes sociais, inteligência artificial e o peso das grandes plataformas de tecnologia.

O movimento de bastidor já começa. O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio, apontado como principal adversário de Lula na eleição presidencial, acaba de embarcar para os Estados Unidos. A viagem, segundo aliados, tem como objetivo aproximá-lo do círculo trumpista e abrir portas junto a estrategistas digitais que atuam hoje na Casa Branca. O gesto ocorre no exato momento em que Trump celebra o efeito de seus “endorsements” em Buenos Aires, Budapeste e Tóquio.

Lula conhece o terreno. Em 2022, ele próprio não esconde o desejo de derrota de Jair Bolsonaro, assim como se posiciona em 2024 a favor da chapa democrata de Joe Biden e Kamala Harris. Trump, por sua vez, torce abertamente por Bolsonaro e depois por seus adversários no pleito americano. O resultado é um acúmulo de atritos que congela o diálogo entre Brasília e Washington até meados de 2025. Só então, após meses de conversas discretas entre diplomatas e empresários, os dois governos iniciam uma reaproximação.

O degelo vem na esteira da decisão da Suprema Corte americana, que derruba o tarifaço de Trump sobre exportações brasileiras, e da percepção comum de que o afastamento cobra preço econômico dos dois lados. Em 2025, trocas bilaterais somam dezenas de bilhões de dólares e a incerteza sobre regras comerciais travam investimentos em setores como aço, alumínio, tecnologia e energia de transição. A necessidade de recompor pontes converge com a urgência de discutir segurança regional e o avanço do crime organizado transnacional.

Nesse contexto, Lula prepara uma visita a Washington para março de 2026. Em entrevista à TV India Today, em Nova Délhi, o presidente diz que não busca confronto com os Estados Unidos e descreve Trump como alguém que “age como se estivesse em um programa da televisão”, mas que, em privado, se mostra “mais calmo e tranquilo” de negociar. O petista pretende sair da capital americana com um acordo contra o crime organizado, focado em um esquema de lavagem de dinheiro identificado no fim de 2025, e com um pacote de cooperação em minerais críticos.

As reservas brasileiras de terras raras, essenciais para baterias, carros elétricos e equipamentos militares, entram no centro da conversa. Washington indica disposição de investir em processamento no território brasileiro, o que reduziria a dependência dos Estados Unidos em relação à China. Em troca, espera previsibilidade regulatória, segurança jurídica e algum grau de alinhamento político. Lula tenta equilibrar o jogo: quer atrair recursos e tecnologia, sem entrar no Conselho da Paz e sem abrir flanco para interferência eleitoral.

O Brasil recusa integrar o organismo criado por Trump ainda na fase de desenho. O Itamaraty considera que as regras concentram poder demais na Casa Branca, criam um fórum paralelo ao Conselho de Segurança da ONU e podem esvaziar esforços multilaterais. Em contato telefônico recente, Lula sinaliza a Trump que sua prioridade é fortalecer as Nações Unidas. Sugere que o novo conselho convide representantes palestinos e concentre o primeiro esforço em um plano para a Faixa de Gaza no pós-guerra. O americano escuta, mas segue adiante com o formato original e com o discurso de que “quase todos foram aceitos, e os que não foram, serão”.

Alerta regional e disputa por influência no Cone Sul

A ausência brasileira não impede que o Brasil volte à cena durante a reunião. Santiago Peña, presidente do Paraguai, toma a palavra e invoca a memória da Guerra do Paraguai, encerrada há cerca de 160 anos. Lembra que seu país “perdeu 60% do território e 90% da população masculina” após enfrentar os vizinhos, sem citar explicitamente a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai. A mensagem é clara: Assunção conhece o custo extremo de um conflito e está disposta a apoiar a agenda de segurança dos Estados Unidos para evitar novos choques.

Peña reforça o apoio a Washington e a Israel e consolida o papel do Paraguai como pivô da estratégia americana no Cone Sul. Em poucos meses, o país fecha acordos bilaterais de cooperação policial e militar, amplia treinamentos conjuntos e abre espaço para bases logísticas e operações de inteligência. O alinhamento aproxima Assunção do centro da disputa geopolítica e aumenta a pressão sobre vizinhos, que precisam decidir até onde vão em parcerias com a Casa Branca.

O Conselho da Paz nasce, assim, como vitrine de uma nova arquitetura política liderada por Trump. O formato foge dos mecanismos tradicionais de mediação de conflitos e privilegia alinhamentos ideológicos e bilaterais. A presença de Milei, Orbán e Takaichi, somada ao protagonismo de Peña, desenha um eixo de governos simpáticos ao estilo confrontacional do americano. A ausência de Lula, por outro lado, expõe a tentativa brasileira de manter autonomia e preservar a imagem de mediador em crises internacionais.

O impacto prático dessa escolha recai sobre a eleição de 2026 e sobre a posição regional do Brasil. Se Trump decidir endossar abertamente um candidato no País, ainda que sem citar nomes, dará um passo inédito na relação entre as duas maiores democracias do continente. Um gesto desse tipo tende a polarizar o debate interno, mobilizar militâncias digitais e pressionar tribunais eleitorais a reforçar mecanismos de combate à desinformação e ao uso abusivo de inteligência artificial em campanhas.

A recusa ao Conselho também pode tensionar negociações em curso na ONU, especialmente em temas como reforma do Conselho de Segurança, financiamento climático e regras para empresas de tecnologia. Washington pode usar o novo fórum para costurar blocos de voto, enquanto o Brasil tenta organizar um contraponto com países que veem risco em estruturas paralelas. Nos bastidores, diplomatas avaliam que os próximos doze meses serão decisivos para definir se o organismo será apenas um palco de discursos ou uma instância com poder real de condicionar ajudas financeiras e pactos de segurança.

Visita de Lula a Washington testa limites da relação

A viagem de Lula, prevista para março, se converte no principal teste dessa equação. O presidente brasileiro pretende chegar a Washington com uma mensagem de cooperação em segurança, combate ao crime e minerais estratégicos, mas sem abrir mão da defesa da ONU e da soberania eleitoral. Ao mesmo tempo, precisa administrar o fato de que seu provável rival em 2026 circula entre aliados de Trump nos Estados Unidos em busca de capital político e técnico.

Negociadores brasileiros apostam em uma espécie de blindagem antecipada. A ideia é amarrar compromissos públicos de respeito às regras do jogo democrático e criar espaços de diálogo direto entre autoridades eleitorais, policiais e de inteligência dos dois países. Um acordo robusto contra lavagem de dinheiro e financiamento ilegal de campanhas interessa tanto a Brasília quanto a Washington, que busca conter o avanço de redes criminosas ligadas a drogas, armas e tráfico humano.

As próximas semanas indicarão se Trump pretende usar o Conselho da Paz apenas como palco simbólico ou como trincheira para influenciar disputas políticas na América Latina. A resposta terá efeito imediato sobre o tom da visita de Lula e sobre a disposição do governo brasileiro em aprofundar parcerias sensíveis com os Estados Unidos. No horizonte, permanece a pergunta que ronda gabinetes em Brasília e em chancelarias vizinhas: até onde o novo conselho irá na tentativa de transformar simpatias políticas em poder efetivo sobre eleições alheias?

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