PF pede quebra de sigilo de fundo ligado a Toffoli no Caso Master
A Polícia Federal prepara pedido de quebra de sigilo de um fundo de investimento ligado ao ministro Dias Toffoli, do STF, em investigação de suposta corrupção passiva. O movimento ocorre em fevereiro de 2026 e mira operações financeiras associadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, já alvo da Operação Master.
Relatório de 200 páginas chega ao topo do STF
O novo passo da PF nasce de um relatório de cerca de 200 páginas entregue ao presidente do Supremo, Edson Fachin. O documento reúne diligências baseadas em mensagens apreendidas nos celulares de Vorcaro e de pessoas próximas ao banqueiro, que apontam supostos pagamentos ao ministro em período em que ele atuava em processos de interesse do grupo.
Os investigadores afirmam ver “indício da prática de crime por parte do magistrado” e se ancoram no artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura, que trata do procedimento quando surgem suspeitas criminais contra juízes. Em mensagem enviada ao STF, a PF relata a necessidade de seguir o rastro do dinheiro de Vorcaro, cruzar depósitos e identificar quem se beneficia dos aportes em fundos ligados a ele.
O foco agora recai sobre o fundo Maridt, que tinha participação societária no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). A Maridt vende essa fatia para um fundo ligado a Vorcaro, em operação que, segundo as mensagens apreendidas, poderia ter resultado em pagamentos indiretos a Toffoli. O ministro sempre negou ter cometido qualquer ilegalidade, mas, após o relatório, admite pela primeira vez ser um dos sócios do fundo.
A mudança de relatoria no Supremo ajuda a redesenhar o cenário. Após o envio dos autos ao STF, o caso deixa as mãos de Edson Fachin e passa ao ministro André Mendonça. Integrantes da PF ouvidos sob reserva afirmam esperar que Mendonça “destrave” as investigações, citando a atuação anterior dele em inquéritos sobre fraudes no INSS como “correta” e tecnicamente cuidadosa.
Toffoli nega irregularidades e contesta PF
O gabinete de Toffoli reage de forma dura ao avanço das apurações. Em nota enviada à CNN Brasil, afirma que o ministro “jamais integrou qualquer fundo de investimento” e sustenta que todas as perguntas da PF foram respondidas em procedimento interno no STF, a Ação de Segurança 244. Segundo o texto, Fachin já determinou o arquivamento do caso.
A existência de versões contraditórias expõe a tensão entre os investigadores e o Supremo. A PF sustenta que as mensagens de celular de Vorcaro indicam conversas sobre supostos repasses a um “amigo” na cúpula do Judiciário, em contexto de decisões sensíveis. Procuradores veem necessidade de mapear cada transferência e reconstruir a cadeia de comando financeira que envolve o banqueiro, investigado por esquemas que movimentam pelo menos R$ 645 mil e um arsenal de 30 armas apreendidas em fases da Operação Master.
A defesa de Vorcaro nega ter comprado influência e afirma que as operações seguem a legislação do mercado financeiro. Advogados do banqueiro falam em “interpretação forçada” de mensagens truncadas e criticam o que chamam de tentativa de criminalizar relações empresariais legítimas. A PF, porém, insiste que a combinação de diálogos, datas e contratos aponta para uma engenharia financeira feita para mascarar destinatários de pagamentos.
O episódio testa os limites de transparência e de controle externo sobre o Supremo. Investigações que tocam ministros do STF são raras e, em geral, tramitam sob forte sigilo. Ao levar o caso formalmente ao tribunal e invocar a Lei Orgânica da Magistratura, a PF força o debate sobre até onde pode ir a persecução penal contra integrantes da mais alta corte do país.
Instituições em xeque e pressão por transparência
A hipótese de um ministro do STF receber pagamentos de um investigado por corrupção atinge o coração da confiança nas instituições. O Supremo decide diariamente sobre temas bilionários e interfere em disputas entre Executivo, Congresso e grandes grupos econômicos. Qualquer suspeita de venda de decisão alimenta a percepção de que o jogo é desigual para o cidadão comum.
Especialistas em direito público avaliam que o caso Master deve reacender a discussão sobre mecanismos de controle da conduta de magistrados, em especial dos integrantes de tribunais superiores. O Conselho Nacional de Justiça monitora o comportamento de juízes, mas a responsabilidade criminal de ministros do STF passa necessariamente pela própria Corte, que decide se autoriza ou não investigações e eventuais ações penais.
Em governos recentes, o tribunal já enfrenta questionamentos de parte do Congresso e de setores do empresariado, que acusam o Supremo de atuar como poder político. A entrada de um caso com suspeita de corrupção passiva na cúpula da Corte fornece munição adicional a grupos que pedem mudanças na forma de indicação de ministros ou mandatos fixos, hoje inexistentes.
Se a quebra de sigilo for autorizada, a PF terá acesso detalhado às movimentações do fundo ligado a Toffoli e aos recursos administrados por estruturas associadas a Vorcaro. Esse passo permitiria identificar eventuais repasses, datas, intermediários e empresas de fachada, além de cruzar os dados com decisões judiciais tomadas em períodos-chave.
Risco de crise institucional e próximos passos
O caso entra numa fase em que qualquer decisão carrega potencial de crise. Uma negativa de Mendonça à quebra de sigilo pode reforçar o discurso de que o Supremo se blinda contra apurações internas. Uma autorização ampla abriria espaço para uma devassa sem precedentes nas relações financeiras entre magistrados, fundos de investimento e grandes devedores do Estado.
No curto prazo, o STF deve definir o alcance das diligências pedidas pela PF e o grau de publicidade dos autos. A defesa de Toffoli pode insistir no arquivamento, enquanto investigadores trabalham em um novo relatório sobre as mensagens de Vorcaro, com foco no caminho do dinheiro. A resposta do tribunal indicará se o episódio será contido como mais um embate pontual entre instituições ou se se tornará um divisor de águas na forma como o país enxerga seu próprio Judiciário.
