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Coreia do Norte exibe lançador de foguetes com capacidade nuclear em Pyongyang

A Coreia do Norte apresenta em 18 de fevereiro, em Pyongyang, um novo lançador múltiplo de foguetes de 600 mm com potencial para carregar ogivas nucleares. Sob comando direto de Kim Jong-un, 50 unidades do sistema são exibidas como prontas para uso militar, em gesto calculado para intimidar a Coreia do Sul e desafiar a comunidade internacional.

Exibição coreografada do novo armamento

O desfile dos lançadores ocupa uma ampla praça da capital norte-coreana. Em sete fileiras compactas, ao menos 50 veículos de transporte e lançamento avançam lentamente diante das câmeras estatais e da elite do regime. Cada caminhão de quatro eixos leva cinco tubos de foguetes, formando uma floresta de canos voltados simbolicamente para o sul da península.

Kim Jong-un surge como protagonista absoluto do ato. Ele observa a movimentação ao lado de generais, desce ao nível da tropa e, em seguida, assume o volante de um dos lançadores. A cena reforça a mensagem central da cerimônia: o líder não apenas ordena, mas encarna o avanço militar que a propaganda oficial apresenta como “único no mundo”.

O sistema, segundo a agência estatal KCNA, é um lançador múltiplo de foguetes de calibre 600 milímetros, com alcance aproximado de 400 quilômetros. Esse raio cobre praticamente todo o território da Coreia do Sul, incluindo bases americanas e centros industriais estratégicos. Em janeiro, o armamento já havia sido testado na presença de Kim, mas a demonstração de fevereiro marca a passagem simbólica do protótipo para a fase de implantação em campo.

Escalada nuclear e recado aos vizinhos

Em discurso durante a cerimônia, Kim afirma que o novo lançador combina “a precisão e o poder de um míssil balístico tático” com a capacidade de disparo múltiplo dos tubos. Ele descreve a arma como ideal para “ataques especiais” e “missões estratégicas”, sem detalhar cenários de emprego. A retórica se torna ainda mais agressiva quando o líder, citado pela KCNA, declara que, quando o sistema for usado, “nenhuma força poderá esperar a proteção de Deus”. Segundo ele, trata-se de “uma arma maravilhosa”.

As autoridades norte-coreanas não confirmam abertamente que o lançador está integrado ao arsenal nuclear do país, mas deixam o caminho aberto ao destacar sua aptidão para carregar ogivas especiais. Para analistas militares, a mensagem é clara: o regime busca um vetor móvel, numeroso e de difícil neutralização, capaz de saturar defesas inimigas e, em tese, lançar ataques nucleares de curto alcance contra Seul e outras cidades sul-coreanas.

A exibição das 50 unidades também mostra uma capacidade industrial relevante, em meio a sanções pesadas impostas pelo Conselho de Segurança da ONU. A KCNA informa que operários de uma empresa de munições produzem os lançadores e os apresentam ao 9º Congresso do Partido dos Trabalhadores, realizado na mesma semana em Pyongyang. A imagem de trabalhadores exibindo um sistema de ataque de alto impacto reforça a narrativa interna de autossuficiência e resistência ao cerco internacional.

O programa nuclear norte-coreano segue em expansão constante. Estimativa do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos aponta que o país pode ter material físsil suficiente para até 90 ogivas, apesar dos anos de sanções e tentativas de negociação. No mês anterior, o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, alerta que o vizinho produz combustível nuclear para entre 10 e 20 armas por ano e aperfeiçoa mísseis de longo alcance com o objetivo declarado de alcançar o território americano.

Impacto regional e risco de novo ciclo de tensão

A chegada de um lançador múltiplo com possível capacidade nuclear muda o cálculo de risco na península. O sistema de 600 milímetros amplia a capacidade de ataque de saturação, ou seja, o disparo simultâneo de dezenas de foguetes contra alvos próximos, com pouco tempo de reação para as defesas sul-coreanas. Se equipado com ogivas nucleares, ainda que de baixa potência, o impacto potencial sobre bases militares e centros urbanos é devastador.

Para Seul, que já convive com artilharia pesada norte-coreana apontada para a região metropolitana, a novidade pressiona por novos investimentos em defesa antimísseis e sistemas de detecção precoce. Washington também observa atentamente. O avanço de vetores táticos, combinados ao esforço para desenvolver mísseis balísticos intercontinentais, reforça a percepção de que Pyongyang busca tanto capacidade de dissuasão contra os Estados Unidos quanto meios de ataque mais flexíveis contra alvos próximos.

O histórico recente ajuda a dimensionar a mudança. Em 2022, o regime já havia apresentado cerca de 30 lançadores de 600 milímetros montados sobre esteiras, cada um com seis foguetes. Desde então, a Coreia do Norte multiplica testes de mísseis de vários alcances e declara em sua Constituição o status de potência nuclear irreversível. A nova geração de lançadores, agora produzida em escala e exibida em Pyongyang, sinaliza a consolidação de uma segunda camada de ataque, complementar aos mísseis balísticos tradicionais.

A demonstração pública também funciona como recado político. Ao exibir armamento potencialmente nuclear em plena capital, diante das câmeras, Kim testa a disposição de Estados Unidos, Coreia do Sul e aliados em impor novas sanções ou retomar negociações. Até aqui, as respostas se limitam a comunicados de condenação e exercícios militares conjuntos, que por sua vez alimentam a narrativa norte-coreana de cerco externo.

Pressão por diplomacia e incertezas à frente

Governos da região discutem, nos bastidores, como responder a mais esse degrau na escalada de Pyongyang. Uma linha de ação passa por reforçar sistemas de defesa antimísseis na Coreia do Sul e no Japão, com maior integração às capacidades americanas. Outra discute a necessidade de retomar algum canal de diálogo direto com o regime, para evitar erros de cálculo em um cenário cada vez mais congestionado por armas avançadas.

Autoridades ocidentais temem que o ritmo de produção de material nuclear, estimado em até 20 ogivas por ano, crie uma janela perigosa na próxima década. Quanto maior o estoque e mais diversificados os vetores, mais difícil se torna qualquer acordo de limitação ou desarmamento. A cerimônia em Pyongyang, com 50 lançadores alinhados em praça pública, cristaliza essa preocupação: o programa de armas norte-coreano não apenas resiste às pressões, como ganha escala e visibilidade.

O próprio Kim evita indicar linhas vermelhas claras ou condições para voltar à mesa de negociação. Ao elogiar um armamento que “nenhuma força poderá” deter e que dispensaria até “a proteção de Deus”, o líder prefere alimentar a incerteza estratégica. Enquanto isso, vizinhos reforçam alertas, centros de estudos revisam cenários de conflito e diplomatas buscam, em fóruns discretos, uma saída que ainda não aparece. A dúvida que permanece é se haverá tempo para um acordo antes que a nova geração de armas norte-coreanas se torne parte rotineira do equilíbrio de forças no Nordeste Asiático.

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