Filipe Luís vê caso Vini Jr x Prestianni como teste duro ao combate ao racismo
Filipe Luís trata com cautela a acusação de racismo feita por Vinicius Junior contra Gianluca Prestianni, em 17 de fevereiro de 2026, pela Liga dos Campeões. O treinador do Flamengo cobra apuração rigorosa, aponta a delicadeza do episódio e lembra que, por enquanto, tudo se resume a uma palavra contra a outra. O caso, porém, já pressiona Uefa, Fifa e autoridades portuguesas por punições exemplares.
Caso em campo vira tema global
O lance que desencadeia a crise ocorre aos cinco minutos do segundo tempo, no Estádio da Luz, em Lisboa. Vinicius Júnior marca um golaço pelo Real Madrid contra o Benfica, em jogo de ida dos playoffs das oitavas de final da Uefa Champions League, e comemora como faz costumeiramente. Poucos segundos depois, caminha em direção ao árbitro e relata ter ouvido uma ofensa racista de Prestianni, jovem atacante argentino das Águias.
O juiz aciona o protocolo antirracismo da Uefa, criado para lidar com insultos discriminatórios, e interrompe a partida. O jogo fica paralisado por oito minutos, enquanto jogadores discutem, dirigentes pressionam à beira do campo e o clima se torna tenso em Lisboa. Vinicius precisa ser contido por José Mourinho, técnico do Benfica, no meio do bate-boca. O Real acaba vencendo por 1 a 0, mas o placar perde espaço para a gravidade da denúncia.
O episódio ganha dimensão imediata porque se soma a uma série de casos de racismo envolvendo o brasileiro em estádios europeus, sobretudo na Espanha. Diferentemente de atos coletivos de torcidas, desta vez a acusação recai sobre um adversário direto, em campo, em jogo de peso da maior competição de clubes do continente. A denúncia mobiliza dirigentes, governos e entidades em poucas horas.
Filipe Luís, ex-companheiro de Vinicius no Flamengo e ex-lateral do Atlético de Madrid, comenta o caso em entrevista à ESPN. Sem aliviar a gravidade do tema, ele destaca a complexidade da situação e a necessidade de provas claras: “É um tema muito mais delicado do que pensamos, um tema que envolve muitas coisas. Para mim é simples, ele (Prestianni) tapou a boca e não deveria ter tapado a boca para dizer o que deveria dizer, e isso gera toda essa revolta e agora é a palavra de um contra de outro”, afirma.
O hoje técnico e ainda jogador do Flamengo reforça que não cabe a ele condenar o argentino, mas defende punição dura se a acusação se confirmar. “Isto é muito delicado e, se ele disse isso, tem de pagar. Mas repito, é a palavra de um contra de outro e não sou eu quem pode julgar”, completa. O tom contrasta com a indignação pública que toma as redes sociais, mas espelha o dilema atual das entidades: como agir rápido sem atropelar o devido processo.
Pressão sobre Uefa, Fifa e clubes cresce
O episódio em Lisboa reabre o debate sobre a eficácia dos protocolos contra racismo no futebol. O mecanismo da Uefa prevê três etapas: paralisação, aviso ao público e possível suspensão definitiva da partida. Em Benfica x Real Madrid, a interrupção de oito minutos e a retomada do jogo não acalmam a discussão. A crítica recai sobre o fato de que, mesmo com o protocolo ativado, ainda são raras as punições esportivas severas a clubes e jogadores.
No Brasil, a Confederação Brasileira de Futebol cobra de Uefa e Fifa uma resposta firme. A entidade pressiona por punições rigorosas em casos comprovados, em linha com nota recente em que volta a defender tolerância zero com ofensas racistas contra atletas brasileiros na Europa. A movimentação institucional ocorre em paralelo à reação dos clubes, que veem na imagem de Vinicius um símbolo da nova geração e um ativo esportivo e político relevante.
O Flamengo, clube que revelou o camisa 7 do Real Madrid, publica uma mensagem extensa de apoio ao jogador poucas horas após o apito final em Lisboa. “O que o Vini Jr. vive não é só sobre futebol. Ali tem um garoto que sonhou, que lutou, que venceu muita coisa para estar onde está. E dói ver alguém ser atacado simplesmente por ser quem é”, diz o texto divulgado nas redes sociais oficiais.
O clube carioca enfatiza o caráter simbólico das comemorações do atacante, que tantas vezes viram alvo de reações hostis na Europa. “A dança dele é alegria de verdade. É espontânea. É dele. Racismo não é parte do jogo. Machuca. E não pode ser normalizado. Vini, você não está sozinho. A gente sente, a gente apoia, a gente está com você”, completa a nota. A postura do Flamengo reforça a conexão emocional com seu ex-jogador e pressiona por mudanças estruturais no ambiente do futebol.
Enquanto isso, o Benfica também se vê envolvido em outra frente. Em meio à acusação que atinge Prestianni, o clube português apresenta denúncia contra Federico Valverde, meio-campista uruguaio do Real Madrid, em tentativa de equilibrar a narrativa e mostrar que não aceita condutas antidesportivas. O embate jurídico e esportivo se expande para além dos 90 minutos em campo e entra na esfera da imagem institucional dos dois gigantes europeus.
Investigações, punições e o que está em jogo
As autoridades portuguesas abrem investigação para apurar a acusação de racismo contra Prestianni e também manifestações da torcida contra Vinicius. A polícia local coleta depoimentos, analisa imagens de transmissão e registros internos do estádio. A Uefa, por sua vez, inicia processo disciplinar que pode resultar em multas, perda de mando, jogos com portões fechados e até suspensão de atletas, dependendo do que ficar comprovado.
A pressão não vem apenas do Brasil. Organizações de direitos humanos e movimentos antirracistas europeus usam o caso para exigir da Uefa parâmetros claros e punições proporcionais à gravidade dos episódios. O argumento é direto: sem sanções esportivas pesadas, como perda de pontos ou eliminação, o discurso de combate ao racismo permanece apenas no terreno das campanhas publicitárias e dos slogans em faixas e camisas.
Filipe Luís, que vive hoje na Argentina e atua no comando do Flamengo, faz questão de separar a conduta individual de Prestianni da relação com o país vizinho. “Sempre fui muito bem tratado, a Argentina me encanta. Sou muito feliz aqui, muito bem recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado como esse não influencia em nada do que penso sobre este país, que é tão lindo”, afirma. A fala tenta conter uma escalada de hostilidade entre torcedores que logo transportam a discussão para rivalidades nacionais.
O episódio em Lisboa se soma a outros casos recentes e reforça a percepção de que o futebol se tornou um palco central na disputa por direitos e igualdade. Cada novo incidente testa, na prática, se as entidades estão dispostas a ir além de campanhas simbólicas e assumir o custo político e econômico de punições exemplares. O destino do processo contra Prestianni será observado por clubes, atletas, torcedores e patrocinadores.
Enquanto a bola segue rolando na Liga dos Campeões e o Real Madrid administra a vantagem mínima de 1 a 0 no confronto com o Benfica, a principal decisão não acontece dentro de campo. A investigação em Portugal, a atuação disciplinar da Uefa e a pressão de Fifa, CBF e movimentos antirracistas vão definir se este caso marca um ponto de virada ou se será apenas mais um capítulo em uma longa lista de episódios sem resposta à altura. A pergunta que permanece é se o futebol está preparado para tratar o racismo como quebra de regra máxima, e não como incidente colateral do espetáculo.
