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Janja usa voo da FAB para visitar escola de samba que homenageia Lula

A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, usa um voo da Força Aérea Brasileira em 6 de outubro de 2025 para visitar o barracão da Acadêmicos de Niterói, no Rio. A escola de samba homenageia o presidente Lula em seu enredo e recebe ao menos R$ 9,6 milhões em recursos públicos para o desfile. A viagem, com comitiva ampliada e fora da agenda oficial da primeira-dama, reacende o debate sobre uso de estruturas do Estado em agendas de perfil pessoal e cultural.

Visita une agenda oficial, homenagem e carnaval

Naquela tarde de segunda-feira, Janja desembarca no Rio de Janeiro a bordo de uma aeronave da Força Aérea Brasileira. Ela viaja acompanhada de pelo menos seis assessores lotados no Gabinete Pessoal da Presidência, além das ministras Luciana Santos, de Minas e Energia, e Anielle Franco, da Igualdade Racial. O destino final é o barracão da Acadêmicos de Niterói, escola que, no carnaval, leva para a Sapucaí o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”.

Antes da visita, a primeira-dama participa, ao lado de Luciana Santos, de um evento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no Palácio da Cidade, no Rio. As agendas oficiais das ministras registram o lançamento da Conferência da Década dos Oceanos de 2027, organizada pelo MCTI, naquele 6 de outubro. A agenda pública de Janja, porém, não traz o compromisso. Mesmo assim, ela discursa e fala em “equidade de gênero” como pilar da política ambiental. “A Década da Ciência Oceânica nos convoca a transformar a relação entre humanidade e mar com base em ciência, equidade e solidariedade. E, sobretudo, na equidade de gênero, porque não há justiça climática sem justiça de gênero”, afirma.

Depois do evento, a comitiva segue para o barracão da Acadêmicos de Niterói. Em vídeo publicado nas redes sociais da escola, Janja aparece circulando entre costureiras, conversando com integrantes da equipe de carnaval e posando para fotos com dirigentes. Anielle Franco e Luciana Santos aparecem ao fundo, enquanto a primeira-dama comenta a relação do casal presidencial com o samba. “Vou contar um segredo para você: meu marido está apaixonado pelo samba. Aí, todo mundo que chega em casa, ele diz: ‘Bota o samba para a pessoa ouvir, bota o samba'”, diz, sorrindo.

Uso da FAB, diárias e falta de transparência alimentam críticas

A lista de passageiros do voo da FAB mostra que o deslocamento não é discreto. Estão a bordo a assessora de imprensa Taynara Pretto; o fotógrafo oficial Cláudio Adão dos Santos, o Claudinho; o militar Edson Antônio Moura Pinto, ajudante de ordens da primeira-dama; e as assessoras Julia Camilo Fernandes Silva e Carla Costa Alves, todas vinculadas ao Gabinete Pessoal do Presidente da República. Eles recebem diárias para a viagem ao Rio. Outra assessora, Francine Ferraz Gunther, do cerimonial da Presidência, usa voo comercial para cumprir a agenda.

No mesmo avião seguem ainda Luciana Santos, acompanhada de três assessores, Anielle Franco e uma militar da Aeronáutica responsável por apoio e segurança. O governo trata deslocamentos em aeronaves oficiais como parte da estrutura de trabalho de altas autoridades, mas a combinação entre um evento institucional de ciência e tecnologia e a visita a uma escola de samba que exalta o presidente expõe uma zona cinzenta entre o que é agenda pública e o que é gesto político-simbólico.

A Presidência é questionada pela reportagem por meio da Secretaria de Comunicação e da assessoria de imprensa da primeira-dama sobre critérios para o uso do avião da FAB, custos do deslocamento e natureza oficial ou privada da visita ao barracão. Até o fechamento deste texto, não há resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.

A presença de uma comitiva numerosa, com pagamento de diárias, também é alvo de críticas de opositores e de especialistas em transparência. O questionamento central recai sobre a proporcionalidade da estrutura mobilizada para um compromisso que não aparece na agenda pública da primeira-dama e acontece em meio a uma homenagem direta ao presidente em um desfile financiado majoritariamente com dinheiro público.

Carnaval, recursos públicos e cálculo político em ano pré-eleitoral

A Acadêmicos de Niterói recebe ao menos R$ 9,6 milhões em recursos públicos para o desfile do Grupo Especial. O valor inclui repasses oficiais que financiam o carnaval carioca e aportes captados pela escola. O enredo que coloca Lula como personagem central transforma o presidente em fio condutor da narrativa, de sua trajetória operária ao retorno ao Planalto. A aposta, contudo, não rende o resultado esperado na avenida: a agremiação termina com 264,6 pontos, a menor nota do grupo, e é rebaixada.

O presidente da escola, Wallace Palhares, circula com desenvoltura em Brasília ao longo de 2025. Registros oficiais indicam pelo menos duas visitas ao Palácio do Planalto em outubro, mês em que Janja vai ao barracão pela primeira vez. O movimento reforça a percepção de proximidade entre a direção da agremiação e o núcleo político do governo, em um momento em que a cultura popular volta a ser uma vitrine importante para a imagem do presidente.

A primeira-dama retorna ao barracão em fevereiro, no último ensaio antes do desfile. A Força Aérea ainda não publica os dados completos dos voos daquele período, o que impede saber se ela volta a usar aeronave oficial nesse segundo deslocamento. O silêncio alimenta novas cobranças por transparência, em um governo que tenta se diferenciar de gestões anteriores justamente pelo discurso de respeito a normas e controles de gasto público.

Janja chega a cogitar desfilar com a Acadêmicos de Niterói, mas desiste na última hora. A presença dela na avenida seria mais um gesto de apoio explícito ao enredo sobre Lula em plena preparação para o ciclo eleitoral de 2026. Mesmo sem o desfile, a exposição do casal presidencial no carnaval, somada à circulação de ministros e assessores em eventos ligados à escola, acaba interpretada como demonstração de força política e de prestígio para a agremiação.

Pressão por explicações e disputa de narrativas

O episódio reacende debates antigos sobre o uso de aviões da FAB por familiares de presidentes e autoridades. Governos anteriores enfrentam questionamentos semelhantes, com pedidos de detalhamento de rotas, listas de passageiros e critérios de autorização. A lei permite o uso de aeronaves oficiais em deslocamentos considerados de interesse público, mas não define com clareza onde termina a agenda institucional e começa a esfera privada, especialmente quando cultura, imagem e política se misturam.

Aliados do governo defendem que a presença de Janja e das ministras em espaços como o barracão da Acadêmicos de Niterói integra uma estratégia de valorização da cultura popular e de aproximação com segmentos que historicamente apoiam Lula. Críticos enxergam uso simbólico e material da máquina pública para reforçar a imagem pessoal do presidente e de sua esposa, agora figura central na interlocução com movimentos sociais, artistas e comunidades.

A ausência do compromisso na agenda oficial da primeira-dama tende a se tornar ponto sensível. Organizações que monitoram gastos públicos e transparência consideram a publicação de agendas peça básica de controle social. Sem registro, deslocamentos feitos com recursos da União ficam mais difícil de rastrear e de avaliar, inclusive em termos de custo-benefício.

Enquanto a Presidência não esclarece os detalhes da viagem e o papel exato da FAB na segunda ida de Janja ao barracão, em fevereiro, a história continua em aberto. O governo terá de decidir se trata o episódio como rotina da vida cultural do Planalto ou se estabelece regras mais claras para o uso de estruturas oficiais em ações de forte carga simbólica e impacto político em ano pré-eleitoral.

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