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Conselheiro investigado pela PF se afasta do Palmeiras por 90 dias

João Carlos Mansur, investidor e conselheiro do Palmeiras, pede licença de 90 dias de seus cargos no clube nesta sexta-feira (20). O afastamento ocorre em meio à investigação da Polícia Federal sobre suposta participação dele em emissão de créditos fraudulentos ligada a esquema de lavagem de dinheiro com fintechs e o PCC.

Pressão interna e tentativa de blindagem do clube

A decisão de Mansur amadurece nos últimos dias, sob pressão crescente de conselheiros e integrantes do Comitê de Orientação e Fiscalização (COF). Nomes influentes da política interna defendem que o Palmeiras se afaste formalmente de qualquer personagem citado em apurações criminais, mesmo antes de uma eventual denúncia do Ministério Público.

O movimento ganha corpo depois que a PF confirma, em agosto passado, que Mansur é alvo da Operação Carbono Oculto, investigação que mira uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital por meio de fintechs. O executivo, ex-sócio da gestora Reag, passa a ser associado nos bastidores a um risco reputacional para o clube.

Conselheiros relatam, em conversas reservadas, preocupação com o impacto das notícias na imagem do atual campeão paulista e brasileiro. A avaliação é que, em um ambiente de maior escrutínio sobre a origem de recursos no futebol, qualquer vínculo com investigações de lavagem de dinheiro pode respingar em patrocinadores, torcedores e na relação com órgãos reguladores.

Mansur é informado de que a permanência ativa no conselho e no COF se torna insustentável enquanto a PF aprofunda as apurações sobre créditos considerados fraudulentos. Ele opta pelo afastamento temporário, descrito por aliados como uma “forma de preservar o clube” até que a situação jurídica se esclareça.

Influência política e impacto na governança alviverde

O pedido de licença não atinge um personagem periférico. Mansur é o conselheiro mais votado da história do Comitê de Orientação e Fiscalização, órgão que acompanha contratos, fluxo de caixa e decisões estratégicas da diretoria. Sua ascensão, amparada por apoio expressivo de sócios, o coloca entre os nomes mais influentes da atual gestão.

A saída por 90 dias abre um vácuo em discussões sensíveis, como aprovação de orçamentos, avaliação de investimentos e análise de operações financeiras de maior porte. Em um clube que movimenta centenas de milhões de reais por temporada, a ausência de uma voz de peso no COF reorganiza forças e pode redefinir alianças internas.

A investigação da PF, que apura a emissão de créditos apontados como fraudulentos, aproxima o debate de governança do futebol de temas como compliance, controle de risco e rastreabilidade de recursos. Dirigentes ouvidos reservadamente admitem que o episódio força o Palmeiras a revisar procedimentos de checagem de antecedentes e de prevenção à lavagem de dinheiro na relação com investidores e parceiros.

Especialistas em integridade esportiva veem no caso um sinal da mudança de ambiente regulatório. A presença de grupos criminosos em operações financeiras sofisticadas, via fintechs e carteiras digitais, pressiona clubes a adotar normas mais rígidas de transparência. A ligação, ainda em apuração, entre um conselheiro de destaque e a Operação Carbono Oculto expõe esse desalinhamento entre o ritmo do futebol e o avanço do crime organizado.

Reação do mercado, da torcida e próximos passos

O afastamento de Mansur funciona como mensagem para patrocinadores, plataformas de transmissão e federações. O Palmeiras tenta mostrar, com um gesto concreto e um prazo definido de 90 dias, que busca blindar a instituição de riscos legais e de danos à marca num momento em que o clube negocia contratos e renovações milionárias.

Entre torcedores, a repercussão mistura alívio e desconfiança. Parte da base alviverde vê a medida como necessária para impedir que o nome do clube se confunda com o noticiário policial. Outra parte questiona a profundidade das apurações internas e cobra explicações mais detalhadas da diretoria sobre como se deu a aproximação de Mansur com o poder no clube.

A Polícia Federal mantém em andamento as diligências sobre a suposta emissão de créditos fraudulentos, a participação de fintechs e o elo com a lavagem de dinheiro atribuída ao PCC. Não há, até agora, acusação formal contra o conselheiro, que terá de equilibrar a defesa na esfera criminal com a preservação de seu capital político dentro do Palmeiras.

A direção palmeirense evita manifestações públicas mais duras enquanto aguarda avanços da investigação. Internamente, começa a circular a possibilidade de revisão das regras de elegibilidade para cargos em conselhos, com exigências mais claras de idoneidade e de declaração prévia de envolvimento em processos judiciais.

Os próximos meses indicam um teste para a governança do clube e para a capacidade do futebol brasileiro de responder a pressões por mais transparência. A licença de 90 dias é um gesto limitado no tempo; a dúvida é se o caso Mansur se transforma em ponto de inflexão nas práticas de controle ou se acaba apenas como mais um episódio em que a imagem do futebol corre à frente das mudanças estruturais.

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