Ciencia e Tecnologia

NASA barra novos voos da Starliner após falhas graves em missão

A NASA proíbe a Boeing de lançar novos voos da nave Starliner após o teste tripulado de 2024, que deixa dois astronautas 93 dias presos na Estação Espacial Internacional. O relatório final, divulgado nesta quinta-feira (19), expõe falhas técnicas, de liderança e de cultura de segurança consideradas graves pela agência.

Relatório revela combinação de erros e pressões

O documento, concluído em novembro de 2025 e agora tornado público, encerra mais de nove meses de investigação sobre a missão lançada em 5 de junho de 2024. O voo, que deveria durar entre oito e 14 dias, se transforma em uma permanência forçada de 93 dias para Butch Wilmore e Suni Williams a bordo da Estação Espacial Internacional.

A cápsula Starliner enfrenta anomalias no sistema de propulsão ainda em órbita, durante a fase de aproximação da estação. Os problemas se somam a falhas já conhecidas das missões não tripuladas anteriores e levam a NASA a tomar uma decisão extrema: ordenar o retorno da espaçonave vazia à Terra e manter a tripulação em segurança na ISS.

O pouso da Starliner ocorre em setembro de 2024 no White Sands Space Harbor, no Novo México, enquanto Wilmore e Williams só deixam a estação em março de 2025, em uma cápsula Crew Dragon da SpaceX. O episódio, que à época soa como um improviso de emergência, agora ganha contornos oficiais de quase catástrofe.

“O Boeing Starliner enfrentou desafios ao longo de suas missões não tripuladas e, mais recentemente, na missão tripulada. Embora a Boeing tenha construído a Starliner, a NASA a aceitou e lançou dois astronautas ao espaço”, admite o administrador da agência, Jared Isaacman. Ele reconhece que “as dificuldades técnicas encontradas durante a aproximação e acoplagem com a Estação Espacial Internacional foram muito evidentes”.

O relatório fala em uma “complexa interação” de fatores: falhas de hardware, processos de qualificação incompletos, decisões de liderança frágeis e uma cultura organizacional permissiva com riscos. Na prática, o programa entrega um veículo que voa sem cumprir o nível de robustez exigido para missões tripuladas.

Impacto direto na Boeing, na NASA e no cronograma da ISS

O caso atinge em cheio o plano da NASA de contar com dois fornecedores privados capazes de levar astronautas à órbita baixa. Ao depender quase exclusivamente da SpaceX, a agência perde redundância e poder de barganha, enquanto a Boeing vê um de seus principais projetos espaciais entrar em zona de incerteza.

A decisão anunciada nesta quinta-feira impede, por ora, qualquer novo lançamento da Starliner. Ficam suspensos tanto os voos com tripulação quanto as missões de carga que a Boeing planeja para apoiar a estação. A empresa pretendia colocar uma versão de carga da cápsula em órbita já em abril de 2026, em preparação para um novo voo tripulado no fim do ano. Todo esse cronograma agora está sob revisão.

Ao classificar o episódio como acidente Tipo A, o mais grave em sua escala interna, a NASA reconhece que o voo de 2024 chega perto de um cenário de perda de veículo e de tripulação. Não houve feridos, mas o risco potencial é considerado inaceitável. Esse selo acende um alerta não só para a Boeing, mas para todo o programa de voos comerciais da agência.

Isaacman afirma que o problema vai além do projeto da nave. “Está claro que a NASA permitiu que os objetivos programáticos de ter dois provedores capazes de transportar astronautas influenciassem as decisões de engenharia e operacionais, especialmente durante e imediatamente após a missão”, diz. A frase expõe uma tensão conhecida no setor espacial: a pressão por cronogramas e contratos bilionários versus o rigor técnico necessário para manter pessoas vivas no espaço.

A classificação como acidente Tipo A obriga a adoção de medidas estruturais. A agência inicia uma revisão ampla de fluxos de aprovação, critérios de qualificação e canais de denúncia interna. A responsabilização da liderança aparece como ponto central, com promessa de mudanças em cargos-chave ligados ao Programa Comercial de Tripulação.

Pressão por transparência e disputa pelo futuro do transporte espacial

A NASA informa que aceita o relatório como definitivo e que já começa a implementar as ações corretivas recomendadas. A Boeing, por sua vez, precisa apresentar um plano detalhado de correções de hardware, revisão de processos de engenharia e reforço de cultura de segurança antes de qualquer conversa sobre novo voo.

O episódio fortalece a SpaceX, atualmente única empresa apta a levar astronautas dos Estados Unidos à ISS em regime regular. Cada atraso da Starliner consolida a Crew Dragon como padrão de fato para o transporte orbital americano, com impacto direto em contratos futuros e na disputa por missões além da órbita baixa.

Isaacman tenta enquadrar a crise como oportunidade de aprendizado. “Para empreender missões que mudam o mundo, devemos ser transparentes tanto sobre nossos sucessos quanto sobre nossas falhas. Temos que assumir nossos erros e garantir que eles nunca mais aconteçam”, afirma. A mensagem é dirigida tanto à própria NASA quanto à Boeing.

A agência promete acompanhar de perto cada etapa de correção da nave, desde testes em solo dos sistemas de propulsão até simulações de voo. Recomendações de engenharia, auditorias externas e mudanças na governança dos programas comerciais entram na lista de exigências antes de qualquer liberação de lançamento.

No curto prazo, o veto à Starliner obriga um rearranjo do calendário de voos para a Estação Espacial Internacional, que se aproxima da reta final de sua vida útil, prevista para o início da próxima década. No médio prazo, a forma como a Boeing responde a essa crise vai definir se a cápsula terá papel relevante no mercado espacial ou se ficará marcada como um projeto que nunca entrega o que promete.

Isaacman encerra a coletiva com um recado direto: “Olhamos para frente para trabalhar com a Boeing enquanto ambas as organizações implementam ações corretivas e só retornamos a Starliner ao voo quando estiver pronta.” A questão que permanece, agora, é quanto tempo a NASA está disposta a esperar.

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