Congresso do Peru elege José Balcázar presidente interino após queda de Jerí
O Congresso do Peru elege na noite desta quarta-feira (19.fev.2026) o deputado José Balcázar como presidente interino, após a queda de José Jerí. A escolha ocorre dois meses antes das eleições gerais de abril e tenta conter a crise aberta pelas suspeitas de ligação do ex-presidente com um empresário chinês.
Crise política às vésperas das eleições
A votação no plenário, em Lima, encerra 24 horas de incerteza desde que Jerí é afastado do cargo, na terça-feira (18.fev.2026), depois que o Ministério Público abre investigação formal. Promotores apuram suposta relação do então presidente com um empresário chinês ligado a contratos de infraestrutura e energia, em um momento em que o Peru tenta atrair investimentos após anos de instabilidade.
Balcázar assume o Palácio de Governo em um cenário de desconfiança generalizada. O país se prepara para eleições gerais marcadas para abril de 2026, prazo de menos de 60 dias. A transição é, na prática, uma corrida contra o relógio para assegurar que o processo eleitoral ocorra dentro do calendário e sem ruptura institucional.
Parlamentares descrevem a sessão que define o novo presidente interino como tensa, com negociações até os minutos finais. Aliados de Jerí tentam adiar a decisão, argumentando que o afastamento ocorre “sem condenação judicial”. A maioria congressista, porém, defende a necessidade de “proteger a credibilidade do Estado” diante das suspeitas de corrupção.
Ao confirmar a escolha, o presidente do Congresso afirma que a decisão busca “garantir continuidade e estabilidade”. Em discurso no plenário, Balcázar promete um mandato de transição focado na “defesa da institucionalidade” e no respeito ao calendário eleitoral. “O Peru não pode ser refém de crises permanentes”, diz o parlamentar, em referência às sucessivas mudanças de governo na última década.
Desconfiança interna e olhar externo
A queda de Jerí aprofunda o desgaste dos peruanos com a classe política. Desde 2016, o país já vê presidentes renunciarem, serem destituídos ou investigados por corrupção, em uma sequência que alimenta protestos nas ruas e índices baixos de aprovação. Pesquisas recentes mostram que mais de 70% dos cidadãos dizem não confiar no Congresso, e o Executivo segue trajetória semelhante.
Investidores acompanham o novo capítulo da crise com cautela. O Peru é um dos principais produtores de cobre do mundo e depende fortemente de projetos de mineração e infraestrutura, muitos deles com capital estrangeiro, inclusive chinês. Qualquer sinal de instabilidade prolongada ameaça contratos bilionários e pode pressionar o câmbio, o risco-país e a capacidade do governo de financiar obras já anunciadas.
Analistas em Lima avaliam que a escolha de Balcázar funciona como um “tampão político”. Ele chega ao cargo sem um mandato forte nas urnas para a Presidência, mas com o respaldo momentâneo da maioria parlamentar. O cálculo dos congressistas é simples: reduzir o dano institucional, preservar o calendário de abril e tentar afastar a imagem de conivência com o escândalo que atinge Jerí.
Diplomatas estrangeiros ouvidos reservadamente veem a transição como um teste da capacidade peruana de atravessar uma crise sem derrapar para soluções de ruptura. Governos da região e organismos multilaterais monitoram o quadro político e cobram transparência nas investigações envolvendo o ex-presidente e o empresário chinês, que não se pronuncia publicamente até agora.
Pressão sobre Congresso e caminhos até abril
O novo presidente interino tem pouco tempo para mostrar resultado. Em cerca de oito semanas, o país deve ir às urnas para escolher um novo chefe de Estado e renovar o Congresso. A missão de Balcázar é dupla: impedir que a crise contamine ainda mais o ambiente eleitoral e garantir que o Estado continue funcionando enquanto as investigações contra Jerí avançam.
No plano interno, setores da oposição já cobram que o Congresso aprove em poucos dias um pacote mínimo de medidas de confiança, com regras claras para a campanha, fortalecimento dos órgãos eleitorais e proteção de recursos para programas sociais. A leitura é que qualquer sinal de paralisia pode ampliar a percepção de que a classe política age apenas em defesa própria.
A nomeação de Balcázar também expõe o próprio Congresso. O Parlamento, que afasta o presidente, passa a ser responsável direto pelo sucesso ou fracasso da transição. Caso o governo interino não consiga segurar a economia e o calendário eleitoral, a cobrança da sociedade tende a recair sobre os mesmos atores que hoje se apresentam como solução para a crise.
As próximas semanas devem ser marcadas por disputas silenciosas nos bastidores, em busca de influência sobre o futuro governo eleito em abril. Bancadas já redesenham alianças e testam nomes para a próxima Mesa Diretora, em um jogo que mistura sobrevivência política, cálculo eleitoral e a tentativa de se descolar do escândalo que derruba Jerí.
O Peru entra em mais uma transição sob forte escrutínio interno e externo. A pergunta que se impõe é se a escolha de um presidente interino basta para conter a erosão da confiança nas instituições ou se o país está apenas ganhando tempo até a próxima crise.
