Coreia do Norte exibe lançador capaz de disparar ogivas nucleares
Kim Jong-un apresenta em 18 de fevereiro de 2026 um novo lançador múltiplo de foguetes com capacidade para ogivas nucleares, durante cerimônia oficial na Coreia do Norte. O regime descreve o equipamento como “único no mundo” para ataques especiais e missões estratégicas contra Coreia do Sul e Estados Unidos.
Arma exibida como peça central da dissuasão nuclear
O novo sistema, um lançador de foguetes de 600 milímetros, surge como a mais recente vitrine da campanha armamentista norte-coreana. A apresentação ocorre em meio a uma escalada de testes de mísseis e incidentes militares na península, que reacendem o risco de erro de cálculo entre Pyongyang, Seul e Washington.
Na cerimônia transmitida pela imprensa estatal, Kim aparece diante dos lançadores alinhados e faz um discurso em tom messiânico. Ele diz que o equipamento é ideal para “ataques especiais” e “missões estratégicas”, expressões que, na linguagem do regime, costumam apontar para o uso de armas nucleares táticas. O líder reforça o caráter quase religioso da ameaça. “Quando esta arma for realmente utilizada, nenhuma força poderá esperar a proteção de Deus. É realmente uma arma maravilhosa”, afirma, segundo a agência oficial KCNA.
Escalada militar e recado a Seul e Washington
A exibição do lançador ocorre poucas semanas depois de Kim visitar a fábrica responsável pela produção desses foguetes, numa tentativa de mostrar domínio tecnológico e capacidade de produção em escala. Autoridades da Coreia do Sul já haviam alertado que mísseis dessa classe conseguem atingir alvos no país vizinho com alta precisão, inclusive instalações militares sensíveis e centros urbanos próximos à fronteira.
O governo norte-coreano apresenta o novo sistema como instrumento de dissuasão, conceito central na estratégia nuclear moderna: tornar o custo de qualquer ataque inimigo tão alto que ele pareça inviável. Na prática, o recado é direto para Seul, sede de cerca de 10 milhões de pessoas, e para bases americanas na região. Um lançador múltiplo, capaz de disparar diversos foguetes em rápida sucessão, aumenta o poder de saturação contra sistemas de defesa antimísseis, o que eleva a preocupação de planejadores militares sul-coreanos e americanos.
Península em alerta após derrubada de drone e novos testes
O anúncio do novo equipamento chega em um momento de tensão particular. Pyongyang afirma recentemente ter derrubado um drone de vigilância sul-coreano, episódio que reacende temores de confrontos não planejados na linha de fronteira mais militarizada do mundo. Ao mesmo tempo, Kim Yo-jong, irmã influente de Kim Jong-un, elogia uma promessa de Seul de evitar novos incidentes, num raro gesto de moderação verbal.
Nos últimos anos, a Coreia do Norte conduz uma sequência de testes de mísseis balísticos e de cruzeiro, muitos deles com trajetórias projetadas para contornar ou sobrecarregar as defesas dos rivais. Analistas veem uma estratégia de longo prazo para aprimorar a capacidade de ataque de precisão, negociar em posição de força com os Estados Unidos e, em paralelo, desenvolver sistemas com potencial de exportação. A Rússia, envolvida em guerra na Ucrânia desde 2022, aparece com frequência como possível destinatária de armamentos e tecnologia norte-coreanos.
Capacidade nuclear e risco de proliferação
A possibilidade de acoplar ogivas nucleares a foguetes lançados por um sistema múltiplo amplia o leque de cenários de crise na região. Armas táticas, de menor alcance e potência do que bombas estratégicas, são desenhadas para uso em campo de batalha ou contra alvos militares específicos, mas o dano humanitário em áreas densamente povoadas seria devastador. Cada novo vetor nuclear complica iniciativas diplomáticas de controle de armas e dificulta qualquer negociação futura de desarmamento.
Para a Coreia do Norte, o benefício político interno é imediato. O regime reforça a imagem de Kim como líder capaz de enfrentar potências nucleares tradicionais e garante coesão em torno da narrativa de cerco externo. Para a Coreia do Sul, os Estados Unidos e o Japão, o anúncio força ajustes em planos de defesa, amplia a pressão por investimentos em sistemas antimísseis e alimenta debates internos sobre até que ponto alianças e garantias de segurança são suficientes diante de um vizinho imprevisível.
Próximos passos e incertezas diplomáticas
Governos da região monitoram possíveis testes adicionais com o novo lançador ao longo de 2026, em especial disparos em grande salva, que demonstrariam capacidade de ataque coordenado. Cada exercício serve também como ensaio político, medindo a resposta de Seul, Washington, Tóquio e do Conselho de Segurança da ONU, que já aplica sucessivas rodadas de sanções ao regime norte-coreano desde 2006.
A apresentação pública do lançador múltiplo de foguetes com potencial nuclear consolida a aposta de Kim Jong-un em uma barganha arriscada: quanto mais forte a vitrine militar, maior o poder de negociação. A dúvida é até que ponto os rivais aceitarão essa lógica sem responder com novas sanções, reforço militar e alianças ainda mais estreitas. A península coreana entra em mais um ciclo de exibição de força, sem sinal claro de qual lado dará o primeiro passo para frear a escalada.
