Ciencia e Tecnologia

Nasa alerta: 15 mil “assassinos de cidades” seguem invisíveis à Terra

A Nasa alerta que cerca de 15 mil asteroides de porte médio, capazes de destruir metrópoles inteiras, seguem fora do radar da humanidade. O aviso é feito em fevereiro de 2026, durante conferência da Associação Americana para o Avanço da Ciência, e expõe uma vulnerabilidade central da defesa planetária.

Um ponto cego à espreita da Terra

Os números apresentados pelos cientistas desmontam a sensação de segurança construída por décadas de monitoramento espacial. A agência americana estima a existência de cerca de 25 mil asteroides com diâmetro em torno de 140 metros nas vizinhanças da Terra. Desse total, apenas 40% entram hoje nos catálogos oficiais. O restante, algo como 15 mil rochas, segue invisível.

O tamanho desse vazio estatístico ganha peso quando se traduz o que 140 metros significam. Um único impacto nessa faixa pode arrasar uma metrópole, provocar dezenas ou centenas de milhares de mortes e desencadear um colapso econômico regional. Não por acaso, esses objetos recebem o apelido de “assassinos de cidades”.

Kelly Fast, oficial de Defesa Planetária da Nasa, tenta organizar o risco em escala compreensível. “Não nos preocupamos tanto com os grandes asteroides dos filmes, porque sabemos onde eles estão”, afirma. O perigo, segundo ela, mora justamente nos corpos médios, numerosos, discretos e difíceis de encontrar com as ferramentas atuais.

O problema começa na forma como a maior parte dos observatórios enxerga o céu. A detecção tradicional de objetos próximos à Terra depende da luz visível refletida, o mesmo tipo de luminosidade que chega ao olho humano. Muitos dos asteroides mais perigosos, porém, são ricos em carbono e tão escuros quanto carvão. Eles absorvem a maior parte da luz do Sol e devolvem quase nada para os telescópios ópticos em solo.

Do brilho ao calor: a virada tecnológica

A Nasa prepara uma mudança de paradigma para fechar essa lacuna. Em 2027, a agência planeja lançar o NEO Surveyor, telescópio espacial dedicado exclusivamente à caça de asteroides próximos da Terra. Em vez de procurar brilho, o equipamento passará a buscar calor. Os sensores operam no infravermelho médio, faixa em que a radiação emitida pelos próprios asteroides denuncia sua presença.

Mesmo um corpo escuro, quase invisível no espectro visual, brilha intensamente quando observado em comprimentos de onda térmicos. O NEO Surveyor usará dois canais sensíveis ao calor para medir essa emissão. A quantidade de radiação está diretamente ligada à área da superfície do objeto, o que permite estimar o diâmetro com precisão que telescópios terrestres raramente alcançam. Um asteroide pequeno e brilhante deixa de se confundir com um grande e escuro.

O posicionamento da missão também rompe uma limitação antiga. O NEO Surveyor não orbitará a Terra, mas o ponto L1, região de equilíbrio gravitacional entre o planeta e o Sol. Desse posto avançado, o telescópio observa “para fora” da órbita terrestre e vigia áreas do céu hoje escondidas pelo próprio brilho solar. Essa zona cega concentra objetos que se aproximam pelo lado diurno da Terra, quase invisíveis para quem observa da superfície.

Para distinguir o calor fraco de um asteroide distante, o próprio telescópio precisa esfriar quase até o zero absoluto. O projeto prevê grandes escudos solares e um sistema de resfriamento passivo que mantém os sensores próximos de -240 °C, ou 33 kelvins. Sem isso, o calor interno do equipamento cegaria as câmeras infravermelhas e apagaria os sinais que ele tenta registrar.

A aposta é ousada. A Nasa estabelece como meta catalogar mais de 90% dos objetos potencialmente perigosos na próxima década, um salto em relação aos 40% atuais. A diferença entre esses dois números representa, na prática, milhares de asteroides hoje desconhecidos ganhando nome, órbita e histórico de passagem.

Defesa planetária ainda no rascunho

A corrida por um mapa mais completo do céu não é um exercício teórico. A missão DART, concluída em 2022, mostra que a tecnologia para desviar um asteroide deixa o campo da ficção e entra no laboratório. A pequena nave atinge o asteroide Dimorphos e altera sua órbita com sucesso, prova de que a física funciona a favor da Terra.

O salto, porém, ainda não se converte em proteção pronta para uso. “A capacidade de desviar um asteroide é tecnicamente possível, mas ainda não está pronta para uso imediato. Localizar a ameaça com antecedência é crucial”, resume Nancy Chabot, coordenadora de defesa planetária da Nasa. O verbo no presente não esconde a urgência: a humanidade consegue testar a solução, mas não tem um sistema permanente, financiado e coordenado, para aplicá-la se a ameaça aparecer amanhã.

O impacto de um asteroide de 140 metros não produz um inverno global, como no cenário que extingue dinossauros, mas a devastação regional é considerada catastrófica. Um evento desse tipo sobre uma área densamente povoada varre bairros inteiros do mapa, desorganiza cadeias produtivas e aciona redes de ajuda internacional. Na falta de aviso prévio, governos locais recebem o impacto como um desastre natural instantâneo, sem tempo para evacuar ou proteger infraestruturas críticas.

A defesa planetária nasce, assim, como um campo híbrido. Reúne astrônomos, engenheiros, militares, agências espaciais e governos nacionais. Exige observatórios, supercomputadores, protocolos diplomáticos e acordos sobre quem decide o que fazer quando um risco real aparece nas simulações. A mudança de escala transforma a astronomia de ciência contemplativa em ferramenta de sobrevivência da espécie.

Cooperação internacional e orçamento estável surgem como variáveis tão importantes quanto qualquer sensor infravermelho. Sem recursos, um telescópio como o NEO Surveyor permanece conceito em apresentações de conferência. Sem coordenação entre países, um alerta precoce se perde em disputas políticas ou em burocracias incompatíveis com prazos apertados.

O que falta enxergar no céu e em terra

O lançamento do NEO Surveyor marca, para a Nasa, a transição entre uma fase de descoberta fragmentada e um programa estruturado de segurança planetária. Se cumprir a promessa de identificar mais de 90% dos asteroides perigosos em dez anos, o telescópio abre espaço para um segundo passo: transformar a experiência da DART em protocolo operacional, com missões de desvio desenhadas e prontas para decolagem em caso de alerta.

Os próximos anos mostram se governos tratam o risco de impacto como política de Estado ou como tema que só volta ao debate depois de cada conferência científica. Enquanto isso, os 15 mil “assassinos de cidades” ainda não detectados continuam circulando silenciosos no entorno da Terra. A diferença entre um dado acadêmico e uma tragédia real pode estar em quanto tempo a humanidade leva para finalmente enxergá-los.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *