Cometa interestelar 3I/ATLAS revela química da vida além do Sistema Solar
Um cometa que passa pelo Sistema Solar entre julho de 2025 e fevereiro de 2026 desafia o manual da astronomia. O 3I/ATLAS, vindo de outra estrela, exibe composição dominada por dióxido de carbono, jatos ativos e moléculas orgânicas ligadas à química pré-biológica, reacendendo debates sobre a origem da vida.
Um visitante de fora e a corrida para observá-lo
O 3I/ATLAS entra em cena em julho de 2025, quando astrônomos identificam sua órbita hiperbólica e concluem que ele não pertence ao Sistema Solar. O alerta dispara uma mobilização rara: telescópios espaciais como Hubble e James Webb, além de instalações do Observatório Europeu do Sul, reorganizam suas agendas para acompanhar o objeto noite após noite.
O interesse cresce rápido. Logo nas primeiras medições, a coma, a nuvem difusa que envolve o núcleo, se mostra dominada por dióxido de carbono em vez de vapor d’água, típico dos cometas locais. A diferença não é de detalhe, mas de proporção: o CO₂ aparece em quantidades muito superiores às registradas em visitantes tradicionais como Halley ou Hale-Bopp.
Para os pesquisadores, esse traço químico aponta para uma origem em regiões extremamente frias de outro sistema estelar, onde o gelo de dióxido de carbono sobrevive com mais facilidade que o gelo de água. Em termos simples, o 3I/ATLAS carrega a assinatura de um berçário planetário que pode ser bem diferente daquele que formou a Terra há 4,5 bilhões de anos.
Ao longo do segundo semestre de 2025, as imagens revelam um cometa em constante metamorfose. Astrônomos registram jatos de material que mudam lentamente de direção, sinal de uma superfície ativa e organizada. Surge também uma anticauda, um fluxo de poeira que, pela geometria da luz solar, parece apontar para o Sol, invertendo a intuição de quem está acostumado a ver caudas sempre se afastando da estrela.
Aquecimento extremo, química universal e blocos da vida
A virada acontece perto do fim de 2025, quando o cometa atinge sua máxima aproximação do Sol. Dados da missão SPHEREx, dedicada a mapear o céu em infravermelho, mostram um salto súbito na atividade. A emissão de vapor d’água cresce cerca de vinte vezes em relação a medições feitas poucos meses antes, um indicativo de que o calor solar rompe camadas profundas do núcleo e expõe reservatórios antes selados.
O monóxido de carbono segue o mesmo caminho, com aumento expressivo nas leituras. Na prática, o cometa muda de regime: deixa de ser dominado por gelos extremamente voláteis para revelar uma mistura interna mais complexa. O dado que mais intriga os pesquisadores surge nessa fase. Após o aquecimento intenso, as proporções entre água, CO e CO₂ se aproximam das observadas em cometas típicos do Sistema Solar.
Esse alinhamento químico alimenta uma hipótese ambiciosa. A formação de cometas, e possivelmente de sistemas planetários, pode obedecer a regras semelhantes em diferentes regiões da galáxia. “Quando um objeto vindo de outra estrela se comporta quimicamente como os nossos cometas, é um sinal de que a receita básica pode ser universal”, avalia um pesquisador ligado às observações.
As medições do SPHEREx adicionam outra peça decisiva ao quebra-cabeça. À medida que o 3I/ATLAS se aquece, sua coma libera metanol, metano, formaldeído e compostos de cianeto, moléculas associadas à chamada química pré-biológica. Não se trata de vida, reforçam os cientistas, mas de tijolos essenciais para reações que, em ambientes adequados, podem levar a aminoácidos, açúcares e estruturas mais complexas.
A presença desses compostos em um corpo formado em outro sistema estelar fortalece uma ideia em ascensão na astrobiologia. Ingredientes para a vida podem ser comuns na galáxia e viajar colados a cometas interestelares, cruzando o vazio entre estrelas por milhões de anos. Em termos teóricos, isso dá fôlego a cenários nos quais impactos repetidos de objetos como o 3I/ATLAS ajudam a semear moléculas orgânicas em planetas jovens, inclusive a Terra primitiva.
O aquecimento solar também altera o visual do visitante. Imagens mostram a nuvem de poeira assumindo um formato de pera, com a ponta voltada para o Sol, enquanto os gases se distribuem de forma mais simétrica. O espectro refletido pela superfície muda de tom: o brilho de gelo fresco dá lugar a poeira escura, rica em minerais como olivina e carbono amorfo. Para a comunidade científica, é um raro flagrante da casca gelada sendo removida e do material primordial do interior ficando exposto pela primeira vez desde sua formação, bilhões de anos atrás.
Suspeitas de artefato, silêncio no rádio e o que vem depois
O comportamento incomum do 3I/ATLAS alimenta, em paralelo, a imaginação popular. Nas redes sociais, surgem comparações com o cometa interestelar Oumuamua, detectado em 2017, que já havia gerado teorias sobre uma possível origem artificial. Para responder às suspeitas, o projeto Breakthrough Listen, voltado à busca de sinais de civilizações avançadas, direciona radiotelescópios como o Allen Telescope Array e o MeerKAT para o objeto.
As campanhas de escuta se estendem por diferentes frequências de rádio e acompanham o cometa em várias fases da passagem. Os resultados são diretos: nenhuma emissão artificial é detectada. O comportamento físico e químico do 3I/ATLAS se encaixa em processos naturais conhecidos, conclusão reforçada por medições independentes com o Green Bank Telescope, nos Estados Unidos. “Por enquanto, tudo aponta para uma explicação puramente natural”, dizem astrônomos envolvidos na análise dos dados.
Nem todos consideram o caso encerrado. Nomes como Avi Loeb defendem cautela e lembram que o tempo de observação é limitado diante da complexidade do fenômeno. Para esses pesquisadores, objetos raros exigem vigilância prolongada, não só por causa da remota hipótese de tecnologia alienígena, mas porque podem revelar física e química ainda pouco exploradas.
As descobertas acumuladas entre julho de 2025 e fevereiro de 2026 já produzem efeitos concretos. Modelos de formação de cometas e sistemas planetários passam por revisão para incorporar a possibilidade de ambientes ultrafrios ricos em CO₂ em outros discos protoplanetários. Grupos de pesquisa em astrobiologia usam os novos dados para refinar simulações sobre o transporte de moléculas orgânicas entre estrelas.
Agências espaciais discutem abertamente a ideia de missões dedicadas a futuros visitantes interestelares, com sondas capazes de interceptar esses corpos e coletar amostras in loco. O histórico do 3I/ATLAS funciona como argumento científico e político para acelerar esse tipo de projeto, que demanda anos de planejamento e bilhões de dólares em investimento.
Enquanto o cometa se afasta e se perde no fundo da galáxia, a principal pergunta permanece em aberto. Se um objeto formado em torno de outra estrela traz a mesma química básica de nossos cometas, quão raro, de fato, é o cenário que levou ao surgimento da vida na Terra?
