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Carlos Bolsonaro acena ao PSD e pressiona PL por vaga ao Senado em SC

Carlos Bolsonaro intensifica, em fevereiro de 2026, as negociações em Santa Catarina para assegurar uma candidatura ao Senado e usa o PSD como sinal de pressão sobre o PL. A movimentação envolve telefonema ao prefeito João Rodrigues, recados públicos nas redes sociais e cresce como fator de tensão na montagem da chapa do governador Jorginho Mello.

Telefonema, recado de Jair Bolsonaro e ruído na base de Jorginho

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro transfere o título de eleitor para Santa Catarina no fim de 2025 e se apresenta como pré-candidato ao Senado pelo PL. Disputa duas vagas na coligação governista com a deputada Caroline de Toni, também do PL, e com o senador Esperidião Amin, do PP, que busca a reeleição em 2026. A conta é simples e incômoda: há três nomes fortes para apenas duas cadeiras na chapa ao Senado.

O equilíbrio começa a ceder em 7 de fevereiro deste ano, quando, segundo lideranças do PSD, Carlos Bolsonaro telefona para João Rodrigues, prefeito de Chapecó e provável candidato ao governo catarinense pelo PSD em outubro de 2026. A informação vem à tona dias depois, em 11 de fevereiro, em coluna publicada pelo portal Metrópoles, e passa a circular nos bastidores de Florianópolis e Brasília. Fontes do PL evitam confirmar, mas não negam o desconforto com o teor da conversa.

Relatos de bastidor indicam que a ligação ocorre após um conselho do próprio Jair Bolsonaro. Incomodado com a demora na definição da chapa de Jorginho Mello, Carlos leva ao pai as queixas sobre o risco de ficar sem vaga. Jair Bolsonaro orienta o filho a testar alternativas. O movimento vira notícia na semana seguinte, em coluna da NSC assinada por Ânderson Silva, e alimenta a percepção de que a família Bolsonaro está disposta a usar a pressão pública para reorganizar o tabuleiro catarinense.

No telefonema, Carlos pergunta a João Rodrigues se teria espaço em seu projeto ao governo de Santa Catarina caso não consiga ser candidato ao Senado na chapa do PL. Ouve sinal verde. O gesto, ainda que embrionário, mexe com duas frentes ao mesmo tempo: abre uma janela para o PSD e aumenta o custo político de Jorginho Mello se não reservar uma vaga ao Senado para o filho do ex-presidente. A conversa, segundo aliados, é relatada depois por Carlos à deputada Caroline de Toni.

Na semana passada, o senador Jorge Seif, aliado de Jorginho e também filiado ao PL, confirma em entrevista à rádio Jovem Pan News Litoral que a aproximação existiu. Seif conta que Carlos Bolsonaro procurou João Rodrigues para “alinhar uma possível oportunidade” de concorrer ao Senado pelo campo do PSD “se não se ajeitar no PL”. A frase, dita ao vivo, transforma rumor em fato político e força as cúpulas de PL e PSD a calibrar o discurso.

Aceno ao PSD, recado cifrado nas redes e disputa por duas vagas

O assunto ganha nova camada no fim de semana, quando Carlos Bolsonaro reage a uma provocação no X, antigo Twitter. Sob uma postagem em que ele declara apoio à madrasta Michelle Bolsonaro na disputa pelo Senado no Distrito Federal, um usuário pergunta se ele já teria “negociado com Kassab” a ida para o PSD. Kassab é o presidente nacional da sigla. Carlos responde de forma enigmática: diz enxergar “maldade” na colocação, mas avisa que “em breve, a resolução dessa situação será devidamente explicitada”. Afirma ainda atuar há 25 anos pela direita e promete “garantias necessárias àquilo que sempre construímos”.

O texto, em dois parágrafos, não confirma nem nega a negociação, mas alimenta a leitura de que o ex-vereador do Rio mantém portas entreabertas no PSD catarinense. Internamente, aliados avaliam que a resposta coloca o PL sob holofotes: qualquer gesto que enfraqueça a pré-candidatura de Carlos agora pode ser explorado como traição ao bolsonarismo raiz em um estado onde o ex-presidente chegou a superar 70% dos votos válidos em cidades do Oeste em 2022.

No PSD de Santa Catarina, a avaliação é mais cautelosa. O presidente estadual da sigla, Eron Giordani, confirma que a conversa entre Carlos e João Rodrigues ocorre, mas classifica a migração como improvável. Ele lembra que, para integrar a aliança de João, Carlos teria de apoiar o candidato a presidente do PSD, possivelmente o governador paranaense Ratinho Júnior, em 2026. O irmão, senador Flávio Bolsonaro, é cotado para disputar o Planalto pelo PL. “É um movimento improvável, mas na política nada é impossível”, resume Giordani.

No PL, emissários de Jorginho Mello afirmam que Carlos já tem sinal verde para concorrer ao Senado pela sigla. O ex-vereador intensifica a presença na Casa d’Agronômica, residência oficial do governador em Florianópolis, e passa a cumprir agendas frequentes na sede estadual do partido. Interlocutores relatam encontros em janeiro e fevereiro e falam em “construção avançada” de uma chapa pura ao Senado, formada por Carlos e Caroline de Toni.

Caroline, que chegou a avaliar a saída do PL por falta de espaço para disputar o Senado, volta a ganhar protagonismo nas últimas semanas. Um ato público de apoio à deputada está previsto para os próximos dias, com a presença de Jorginho Mello e lideranças estaduais, para selar a permanência dela na legenda. O próprio Jair Bolsonaro já teria dado aval explícito à chapa dupla do PL, desenho que, na prática, empurra Esperidião Amin e o PP para fora da aliança majoritária ao Senado em Santa Catarina.

Pressão sobre chapa, impacto em 2026 e risco de racha na direita

A hipótese de uma chapa pura do PL ao Senado representa um choque direto com o acordo articulado recentemente pelo presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, que defendia acomodar o PP de Amin na coligação. Se prevalecer a fórmula com Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni nas urnas, o governador Jorginho Mello reforça a identidade bolsonarista do palanque, mas corre o risco de perder o apoio de uma sigla tradicional, com tempo de TV e capilaridade municipal em Santa Catarina.

A alternativa, manter Amin na chapa e rifar um dos nomes do PL, também cobra preço elevado. Carlos Bolsonaro já sinaliza que não aceita disputar outro cargo. Caroline de Toni constrói há meses o discurso de que tem direito à vaga majoritária após expressiva votação para a Câmara dos Deputados em 2022. Qualquer recuo de um dos dois tende a ser lido como derrota interna e pode irradiar ressentimentos para a campanha de Jorginho.

O aceno ao PSD de João Rodrigues, mesmo tratado como improvável por dirigentes, cumpre um papel imediato: coloca um relógio sobre a mesa do PL. Com menos de oito meses até o primeiro turno de 2026, o partido precisa bater o martelo sobre a chapa ao Senado para evitar que a indefinição contamine as negociações com aliados em pelo menos cinco regiões do estado. Prefeitos e líderes locais cobram, em privado, uma resposta clara até o meio do ano para saber qual palanque irão fortalecer.

Uma eventual ida de Carlos Bolsonaro ao PSD redesenharia o mapa eleitoral catarinense. João Rodrigues ganharia um nome nacional, com forte apelo junto ao eleitorado bolsonarista, para rivalizar com o projeto de reeleição de Jorginho Mello. O PL perderia não só um candidato, mas um símbolo da ligação direta com Jair Bolsonaro em um dos estados onde o ex-presidente construiu uma das bases mais leais do país.

Por enquanto, o movimento parece mais instrumento de pressão do que decisão consumada. A frase de Eron Giordani — “em política nada é impossível” — funciona como lembrete de que a porta não está totalmente fechada. A mensagem cifrada de Carlos no X mantém o suspense, enquanto PL e PSD calibram o peso de cada gesto. Até a formalização das chapas, o tabuleiro em Santa Catarina permanece em aberto, e a pergunta nos bastidores é se o telefonema de fevereiro ficará na história como blefe calculado ou como primeiro passo de uma guinada inesperada.

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