MP junto ao TCU quer identificar autoridades em festas de Daniel Vorcaro
O Ministério Público junto ao TCU recomenda, em 29 de janeiro de 2026, a abertura de processo para identificar autoridades federais que participam das festas de luxo organizadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro entre 2021 e 2022. Os eventos, apelidados de “Cine Trancoso”, reúnem políticos, executivos do mercado financeiro e membros do Judiciário em ambientes fechados, com bebidas caríssimas e modelos estrangeiras.
Festas viram alvo em meio ao caso Master
A iniciativa do MP chega quando o caso Master, que envolve o banco comandado por Vorcaro, já pressiona Brasília e o mercado financeiro. Procuradores e técnicos do Tribunal de Contas da União enxergam nas festas um possível canal informal de aproximação entre empresários de grande porte e autoridades dos Três Poderes. O foco não é a vida privada dos convidados, mas a suspeita de que encontros de alto padrão possam servir para troca de favores e influência política velada.
O documento de 29 de janeiro registra que os eventos “teriam contado com a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico”. A representação menciona uma reportagem da revista digital Liberta e relatos publicados em setembro de 2025 pela Folha de S.Paulo sobre a rotina de festas em Trancoso, na Bahia, e em outros endereços no Brasil e no exterior.
Da casa de praia na Bahia aos afters em Lisboa e Nova York
As primeiras descrições do que se tornaria o “Cine Trancoso” aparecem em um processo judicial sobre a venda da casa de veraneio usada por Vorcaro no litoral sul da Bahia. Entre 2021 e 2022, ele aluga o imóvel ao menos três vezes, antes de empresas ligadas ao banqueiro fecharem a compra. Em mensagens de WhatsApp incluídas na ação, a então proprietária, a empresária Sandra Habib, reage com indignação ao que encontra ao fim de uma das locações.
“O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas!”, escreve Sandra ao corretor, em 5 de outubro de 2022, véspera do aniversário do banqueiro. Ela relata mais de 30 pessoas na casa, quando o contrato limitava a 20, som acima do permitido, conjunto de pagode, presença da polícia local e ambiental. Funcionários, segundo ela, ficam “chocados” com o movimento. O episódio ajuda a dar nome e contorno público a festas que, até então, circulavam apenas em conversas reservadas entre políticos e executivos.
Relatos colhidos por ao menos 13 fontes do setor financeiro e de órgãos públicos indicam que os encontros não se restringem à Bahia. Em São Paulo, uma área de um hotel na região nobre passa a ser associada a reuniões recorrentes promovidas pelo banqueiro. No exterior, as festas aparecem como “afters” de grandes eventos oficiais. Um dos episódios mais comentados ocorre durante a Semana do Brasil em Nova York, tradicional agenda que reúne banqueiros, empresários e autoridades: após as conferências, um grupo seleto segue para um apartamento reservado, com muita bebida cara e presença de modelos estrangeiras.
Outro ponto de tensão surge em Lisboa, em paralelo ao Fórum Jurídico que, ano após ano, atrai ministros de tribunais superiores, parlamentares e integrantes da cúpula do Executivo. No dia seguinte a um after organizado por Vorcaro, participantes caminham pela avenida da Liberdade, área das grifes de luxo da capital portuguesa, comentando a festa do chamado “Master”. A circulação de mulheres convidadas pelo banqueiro em espaços públicos da cidade atrai olhares desconfiados e alimenta o burburinho entre esposas e namoradas de autoridades.
A narrativa recorrente é de que muitas dessas mulheres chegam de jatinho, vindas da Europa, e pouco ou nada falam português. São citadas como croatas, ucranianas e russas. A escolha, segundo frequentadores, combina aparência e discrição: além de belas, não entenderiam as conversas sobre política, negócios e decisões sensíveis travadas em mesas de caviar e vinhos de safra rara.
Luxo, sigilo e o temor do conteúdo de um celular
A sofisticação dos encontros ajuda a consolidar a imagem de Vorcaro como anfitrião disposto a impressionar. No escritório da Titan, holding do grupo, no Edifício Birmann 32, em São Paulo, ele manda erguer um bar em estilo inglês, com estrutura completa, em pleno espaço corporativo. A Faria Lima, endereço do prédio apelidado de “baleia” por causa da escultura do mamífero, torna-se palco de reuniões em que o uísque Macallan, um dos mais caros do mundo, corre solto. Garrafas da marca podem chegar a quase R$ 90 mil, enquanto vinhos como Petrus, La Tâche e Armand Rousseau, servidos nas festas, custam de R$ 5.000 a R$ 50 mil por unidade, a depender da safra.
Convidados descrevem também um controle rígido sobre o que entra nas celebrações mais fechadas. Celulares costumam ficar retidos na porta. O apelido “Cine Trancoso”, porém, nasce da percepção de que, apesar disso, alguém sempre grava. Há a crença, compartilhada em gabinetes de Brasília, de que o próprio anfitrião mantém um acervo de imagens das autoridades em situação íntima, mas não criminosa.
Esse imaginário ganha novo peso quando surgem rumores de que a Polícia Federal acessa arquivos do celular de Vorcaro, apreendido no contexto do caso Master. Investigadores discutem como lidar com cenas de diversão consensual entre adultos, que não configuram crime, mas expõem a fronteira borrada entre lazer privado e interesse público. A PF é procurada, mas não se manifesta.
Nesse ambiente, a capacidade de influência do banqueiro cresce. Interlocutores do mercado descrevem o medo de exposição como um capital político em si. A avaliação é que, em um país marcado por escândalos de corrupção e por relações promíscuas entre empresas e Estado, apenas a possibilidade de divulgação de vídeos com ministros, parlamentares e dirigentes de estatais em festas regadas a luxo já basta para reforçar o poder de quem controla o acervo.
Pressão política, protestos de rua e disputa de narrativas
Fora das salas discretas e dos salões em Trancoso, o caso Vorcaro também se torna pauta de rua. O Movimento Brasil Livre convoca dois protestos diante da sede do Banco Master, na Faria Lima, em 22 de janeiro e 5 de fevereiro. No primeiro ato, centenas de manifestantes acompanham uma encenação: duas atrizes, em sutiã e minissaia, entram em uma piscina de bolinhas e representam garotas de programa ao lado de um homem de charuto, com máscara de Daniel Vorcaro. Dias depois, circula no WhatsApp um vídeo produzido com inteligência artificial que traz uma marchinha de Carnaval com a frase “Master, o banco do lobby, fraudou pra pagar mina do job. CDB era investimento. Virou silicone e apartamento”.
Renato Battista, coordenador nacional do MBL, aposta que o conteúdo do celular apreendido é central. “Nós sempre falamos que o conteúdo do celular de Vorcaro seria explosivo”, diz. “Hoje ficou comprovado a relação financeira entre ele e o ministro Dias Toffoli, mas não para por aí. Todo mundo sabe que Vorcaro realizava diversas festas com prostitutas e que envolvia autoridades de todos os poderes no meio disso. Isso pode vir à tona a qualquer momento”.
O histórico recente reforça a percepção de que a rede de relacionamentos do banqueiro ultrapassa a fronteira do entretenimento. O noticiário do escândalo do Master mostra, por exemplo, a doação de um apartamento de quase R$ 4,4 milhões à modelo Karolina Trainotti, que se apresenta como “sugar baby”. O imóvel, entregue em 2024, sai dos registros da Super Empreendimentos, empresa ligada a Vorcaro. Pessoas próximas ao banqueiro relatam que algumas frequentadoras das festas recebem mesada, hospedagem em hotéis de luxo em São Paulo e a missão de trazer novas amigas para o circuito fechado.
Defesa reage e futuro da investigação testa limites da esfera privada
A defesa de Daniel Vorcaro reage com dureza ao avanço das investigações e às reportagens que descrevem o “Cine Trancoso”. Em nota, a assessoria afirma que o banqueiro “repudia as informações e alegações apresentadas, que se baseiam em fonte não fidedigna e em relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresáro”. Os advogados sustentam que “as afirmações divulgadas não correspondem à realidade dos fatos e reproduzem versões descontextualizadas, já anteriormente apontadas à imprensa como parte de tentativa de extorsão e de constrangimento público”.
Para a equipe jurídica, a cobertura dos eventos invade indevidamente a esfera íntima. “A divulgação de conteúdos carregados de juízo moral, dissociados de qualquer relevância jurídica, contribui apenas para a criação de ilações e para a indevida invasão da esfera privada, reforçando um ambiente de pré-julgamento incompatível com o devido processo legal”, diz a nota. A defesa afirma ainda não ter acesso a documentos oficiais da apuração e descreve um “movimento mais amplo de difamação, voltado à tentativa de influenciar a percepção pública antes da conclusão das apurações”.
O pedido do MP junto ao TCU, se acolhido, pode abrir frentes administrativas e, em desdobramento, criminais contra autoridades que participam das festas. Técnicos do tribunal avaliam se houve violação de regras de conduta, conflito de interesses ou favorecimento em contratos públicos ligados ao banco e às empresas do grupo. O debate atinge também o financiamento de campanhas e a transparência de encontros entre agentes públicos e grandes empresários, hoje pouco regulados quando acontecem em ambientes privados.
O avanço da investigação testa um limite sensível: até onde o Estado pode ir ao escrutinar a vida social de figuras públicas quando há suspeita de influência política indevida. A resposta, que ainda depende de decisões do TCU, de eventuais ações do Ministério Público Federal e da forma como a PF tratará o material em mãos, tende a definir não apenas o destino de Vorcaro, mas também o padrão de relacionamento entre poder e dinheiro no Brasil nos próximos anos.
