Rebaixamento de escola após homenagem a Lula provoca reação de Janja
A Acadêmicos de Niterói é rebaixada no Carnaval de 2026 após levar para a Sapucaí um enredo em homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dias depois, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, reage publicamente e acusa pressão política sobre o resultado.
Pressão política e disputa na avenida
O desfile da escola, realizado no Sambódromo do Rio de Janeiro, transforma a Marquês de Sapucaí em palco de um embate que ultrapassa a festa. A homenagem a Lula, construída em 70 minutos de desfile e dezenas de alas, ganha imediatamente leitura política. A oposição reage ainda durante a transmissão de TV, acusa a exaltação de um personagem “marcado por escândalos” e passa a cobrar publicamente a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa).
Horas após a apresentação, perfis de parlamentares de oposição dedicam a madrugada a questionar a legitimidade do enredo. Nas postagens, alegam supostos ilícitos cometidos por Lula em campanhas anteriores, inclusive para favorecer sua reeleição, e associam o desfile a uma “tentativa de reescrever a história”. A pressão, que começa nas redes sociais, chega às rádios, à TV e a programas de comentário político. Num intervalo de 48 horas, o tema domina as buscas em portais e vira combustível para a polarização.
O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, anunciado logo após a apuração das notas, é recebido internamente como surpresa. Integrantes da escola relatam que, até a semana anterior, a diretoria trabalhava com a perspectiva de se manter no Grupo Especial após um ano de investimentos pesados em carros, figurinos e direitos de imagem. A ficha cai quando o locutor confirma o resultado na praça de apuração: a escola volta para a Série Ouro, degrau abaixo na hierarquia carnavalesca.
A direção evita, num primeiro momento, associar o desempenho à disputa política. Publicamente, dirigentes falam em “respeitar o sistema de notas” e prometem rever erros técnicos, como falhas de evolução e acabamento de alegorias. Nos bastidores, no entanto, integrantes relatam desconforto com o peso dado pelos jurados a critérios subjetivos, como enredo e harmonia, justamente onde a homenagem a Lula se torna mais evidente.
Janja reage e liberdade artística entra em cena
Quando a poeira do desfile parece baixar, Janja decide se manifestar. Em uma sequência de posts em redes sociais, ela critica o rebaixamento e faz defesa direta da escola. “A arte existe para enfrentar o medo e a intimidação. O Carnaval sempre foi espaço de coragem”, escreve em uma das mensagens, que alcança centenas de milhares de visualizações em poucas horas.
Em outra postagem, a primeira-dama aponta o que chama de tentativa de enquadrar manifestações culturais a partir de disputas partidárias. “Não é aceitável que uma escola de samba seja punida por escolher contar a história de um personagem político”, afirma. Aliados do governo compartilham as declarações e acusam a oposição de pressionar a organização do Carnaval. Parlamentares contrários ao governo, por sua vez, replicam que não se trata de censura, mas de “reação legítima” a uma homenagem que consideram inadequada.
A discussão amplia um debate antigo sobre a fronteira entre política e cultura na avenida. Desde os anos 1980, desfiles abordam temas ligados ao poder, de tiradentes a presidentes, passando por denúncias sociais e críticas indiretas a regimes militares. A diferença, avaliam pesquisadores do Carnaval, está no ambiente de polarização atual, no qual cada escolha estética pode ser interpretada como gesto político explícito. O enredo sobre Lula, em 2026, entra nesse terreno minado.
Organizadores do setor cultural acompanham o caso com atenção. Produtores ouvidos reservadamente dizem temer um efeito inibidor sobre futuros projetos. A leitura é pragmática: se uma escola perde espaço, visibilidade e patrocínios após um enredo politizado, outras agremiações podem pensar duas vezes antes de tocar em figuras ou temas considerados “sensíveis”. Em um circuito que movimenta centenas de milhões de reais por ano e impacta diretamente milhares de trabalhadores, o cálculo econômico pesa tanto quanto a convicção artística.
Carnaval em disputa e próximos capítulos
O episódio coloca a Acadêmicos de Niterói em uma encruzilhada. De um lado, a marca da ousadia política rende apoio de parte do público e de segmentos da esquerda, que veem na escola um símbolo de resistência cultural. De outro, o rebaixamento significa orçamento menor, menos exposição televisiva e um caminho mais árduo para voltar ao topo. A reconstrução exige planejamento já para 2027, com definição de enredo, busca de patrocínios e rearticulação com a comunidade.
No campo político, a reação de Janja amplia o alcance da controvérsia. A primeira-dama, que desde 2023 assume papel ativo na agenda cultural do governo, reforça a defesa da liberdade de expressão como política de Estado. Assessores avaliam que, ao se colocar ao lado da escola, ela envia recado para artistas e produtores que temem punição por abordagens críticas ou partidárias. A oposição, por sua vez, aposta que a ligação direta entre Palácio do Planalto e desfile de Carnaval alimenta sua narrativa de aparelhamento cultural.
A repercussão nas redes sociais, somada à cobertura intensa de TVs e portais, transforma o caso em referência para discussões futuras sobre limites entre arte e política. Escolas que ainda definem seus enredos para os próximos carnavais acompanham a temperatura do debate. Dirigentes admitem, em conversas privadas, que o episódio entra na conta ao escolher temas e personagens.
Resta saber se a avenida seguirá como território de risco calculado ou se a pressão política empurrará as escolas para temas neutros e de menor fricção. O destino da Acadêmicos de Niterói, e a forma como o meio cultural reage à marca deixada por 2026, indicará se o rebaixamento será lembrado como derrota circunstancial ou como ponto de inflexão na relação entre Carnaval, poder e liberdade artística.
