Vídeo em celular achado em esgoto esclarece morte de corretora em GO
A Polícia Civil de Goiás esclarece, em 2026, a dinâmica da morte da corretora Daiane Alves Souza a partir de um vídeo gravado no próprio celular da vítima. O aparelho fica 41 dias escondido em uma caixa de esgoto de um condomínio em Caldas Novas e se torna peça central para apontar o síndico Cleber Rosa de Oliveira como autor do homicídio.
Vídeo registra últimos passos e derruba versão de acidente
Daiane desaparece em 17 de dezembro de 2025, após descer sozinha ao subsolo do prédio onde mora, em Caldas Novas, para verificar uma queda de energia em seu apartamento. Câmeras de segurança registram a corretora dentro do elevador, em direção ao pavimento inferior, mas não mostram o que acontece depois. O ponto onde ela é atacada é um ponto cego, sem vigilância eletrônica.
O corpo só aparece 42 dias depois, em 28 de janeiro, às margens de uma estrada na cidade. No mesmo dia, policiais prendem o síndico Cleber Rosa de Oliveira e o filho dele, Maicon, e ouvem a primeira versão do caso: um tiro acidental durante uma suposta luta corporal com a vítima. O laudo cadavérico, porém, já traz elementos que contradizem o relato, ao apontar dois disparos na cabeça e marcas no crânio incompatíveis com um único tiro disparado por engano.
O ponto de virada da investigação vem com a recuperação do Samsung Galaxy A23 de Daiane. Dois dias após ser preso, Cleber indica aos policiais onde esconde o aparelho: uma caixa de esgoto do condomínio, em área úmida e coberta por dejetos. “O aparelho estava soterrado e intacto, apesar de ser um ambiente úmido e onde havia dejetos”, afirma o delegado João Paulo Mendes, da delegacia de investigação de homicídios.
Peritos retiram o celular do local e levam o aparelho para análise. A família fornece senhas possíveis, mas nenhuma delas funciona. A polícia aciona então um equipamento forense usado em investigações de crimes digitais, capaz de quebrar senhas e acessar dados internos mesmo em celulares bloqueados.
Com a ajuda dessa tecnologia, os investigadores não só desbloqueiam o Galaxy A23 como extraem vídeos, fotos e arquivos apagados. Entre eles, aparece uma gravação curta feita pela própria Daiane, que registra a saída do elevador, o deslocamento pelo subsolo e o primeiro contato com o homem apontado como agressor.
Na caminhada até o quadro de disjuntores do apartamento, é possível ver um homem de costas, usando luva. Daiane reconhece e comenta em voz alta: “olha quem eu encontro; o síndico está aqui embaixo”. A imagem avança alguns segundos, mostra uma figura com o rosto coberto e, em seguida, se ouvem os gritos da corretora. A gravação é interrompida quando ela é golpeada, segundo a polícia.
“A gente acredita que ela estava gravando naquele modo em que o dedo fica pressionado na tela, pois o arquivo estava intacto”, diz o delegado João Paulo Mendes. O vídeo reforça a tese de que a energia é cortada de forma deliberada, como isca para levar a vítima até o subsolo, e derruba a versão de disparo acidental sustentada pelo síndico.
Perícia digital reforça acusação contra síndico e afasta suspeita sobre filho
O trabalho de extração de dados também tem outro efeito imediato: afasta, pela primeira vez, a suspeita de participação do filho do síndico. As imagens mostram apenas um homem atuando diretamente na emboscada, e a investigação conclui que Maicon não está na cena do crime. “A filmagem também ajudou a ver que Maicon, filho do síndico, não esteve envolvido no crime”, afirma Mendes.
A perícia digital se soma aos laudos balísticos e ao exame cadavérico. O corpo de Daiane apresenta dois tiros na cabeça, um deles com a bala ainda alojada. Nenhum morador relata ter ouvido disparos no dia 17 de dezembro, o que indica que o ataque ocorre em área isolada, longe de testemunhas. Segundo a polícia, depois de desmaiar a corretora no subsolo, o síndico retira o corpo do prédio e a mata em outro ponto de Caldas Novas, antes de abandonar o cadáver na beira da estrada.
Investigadores reconstroem o histórico de conflitos entre vítima e síndico, citados pelo próprio Cleber em depoimento, e veem no vídeo uma confirmação prática de que a corretora é atraída ao subsolo em um momento de vulnerabilidade. A combinação de imagens, laudos e confissão inicial embasa o indiciamento por homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe e cruel, além de ocultação de cadáver. A pena pode superar 30 anos de prisão.
O caso expõe, mais uma vez, a dependência de perícia tecnológica em investigações de homicídio em condomínios verticais, marcados por espaços compartilhados, câmeras setorizadas e múltiplos pontos cegos. Sem o vídeo gravado por Daiane, o ataque permaneceria fora do alcance das câmeras e restrito ao embate entre versões de defesa e acusação.
Ferramentas de desbloqueio e varredura de dados, antes restritas a grandes operações, entram cada vez mais em inquéritos de rotina. Delegados relatam que esses equipamentos permitem recuperar conversas, ligações, geolocalização e até arquivos apagados, dentro de janelas de tempo específicas. A tecnologia, porém, levanta debates sobre privacidade, custo e treinamento, em especial em estados com orçamentos limitados.
Repercussão, lições e próximos passos da investigação
O esclarecimento da morte de Daiane mobiliza moradores de Caldas Novas e reacende o debate sobre segurança em condomínios turísticos, que concentram uma população flutuante e intensa rotatividade de moradores. Síndicos, administradoras e investidores acompanham o caso com atenção, preocupados com o impacto sobre a sensação de segurança e o valor de imóveis na região.
A Polícia Civil usa o episódio como vitrine da área de inteligência digital e já defende a ampliação de equipamentos e equipes dedicadas à análise de celulares apreendidos. Internamente, o caso serve como estudo de como provas geradas pela própria vítima, em tempo real, podem definir o rumo de um inquérito complexo.
Cleber Rosa de Oliveira permanece preso e responde por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver. O inquérito segue para o Ministério Público, que prepara a denúncia formal e deve detalhar, na peça, a importância dos dados extraídos do Galaxy A23 para a reconstrução dos fatos. A defesa ainda tenta sustentar a tese de disparo acidental, agora confrontada por imagens, laudos e depoimentos.
O processo deve chegar ao Tribunal do Júri, em Goiás, onde a gravação feita por Daiane tende a ocupar lugar central diante dos jurados. A cena final registrada pela corretora, entre um elevador, um corredor de subsolo e um quadro de disjuntores, coloca em disputa não apenas a responsabilidade penal do síndico, mas a capacidade do sistema de justiça em lidar com crimes cada vez mais documentados, em tempo real, pelas mãos das próprias vítimas.
