Ciencia e Tecnologia

Nasa expõe 15 mil asteroides ocultos que podem destruir cidades

A Nasa revela em 2026 que cerca de 15 mil asteroides de 140 metros seguem invisíveis aos telescópios terrestres. O alerta, feito em conferência científica nos EUA, expõe uma lacuna crítica na defesa do planeta.

Um céu mais perigoso do que parece

O aviso vem durante a reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, um dos principais encontros da comunidade científica mundial. Em vez de celebrar conquistas recentes, especialistas em defesa planetária usam o palco para admitir o que ainda não sabem: há milhares de rochas de potencial destrutivo orbitando perto da Terra sem qualquer registro oficial.

Esses objetos têm em média 140 metros de diâmetro, o suficiente para devastar uma metrópole inteira. Por isso ganham o apelido de “assassinos de cidades”. São grandes demais para serem ignorados e pequenos demais para entrar no radar dos sistemas pensados, no passado, para caçar gigantes espaciais. “Não nos preocupamos tanto com os grandes asteroides dos filmes, porque sabemos onde eles estão”, afirma Kelly Fast, oficial de Defesa Planetária da Nasa.

As estimativas atuais falam em cerca de 25 mil asteroides de porte médio cruzando a vizinhança da Terra. Apenas 40% deles foram detectados. A maioria do restante se esconde em regiões do céu que os telescópios no solo não conseguem observar de forma constante, ou simplesmente não reflete luz suficiente para ser percebida. É uma espécie de população fantasma em órbita.

A lacuna não é teórica. Em 2013, um asteroide de cerca de 20 metros explodiu sobre Cheliabinsk, na Rússia, feriu mais de 1,5 mil pessoas e quebrou janelas em seis cidades. Ele também não estava no mapa. O episódio se torna uma referência silenciosa na fala de cientistas que, agora, lidam com rochas sete vezes maiores e potencialmente muito mais destrutivas.

Como asteroides somem aos olhos da Terra

O problema central está na forma como a humanidade aprendeu a enxergar o espaço. Os principais programas de busca de asteroides dependem de telescópios ópticos, que registram a luz visível refletida pela superfície desses corpos. Muitos dos alvos mais perigosos, porém, são escuros como carvão, ricos em carbono e com baixíssimo poder de reflexão.

Na prática, esses asteroides absorvem a maior parte da luz solar e devolvem muito pouco brilho ao espaço. Para quem observa da Terra, eles quase desaparecem no fundo negro do céu. Ainda assim, toda essa energia absorvida se transforma em calor, reemitido em forma de radiação infravermelha. É esse rastro térmico, e não o brilho, que a Nasa decide seguir na próxima etapa.

A agência prepara o lançamento do telescópio espacial NEO Surveyor para 2027. O observatório opera em dois canais de infravermelho médio, sensíveis justamente ao calor fraco que esses corpos emitem. Longe da atmosfera e do ciclo de dia e noite, ele monitora continuamente regiões que hoje funcionam como verdadeiros pontos cegos da vigilância planetária.

O NEO Surveyor não orbita a Terra, mas o ponto L1, uma posição de equilíbrio gravitacional entre o planeta e o Sol. Dali, o telescópio mira “para fora”, em direção ao espaço profundo, e consegue enxergar asteroides que passam perto da linha do Sol, onde o brilho solar ofusca qualquer tentativa de observação a partir do solo. Sem essa perspectiva, grande parte das órbitas perigosas permanece invisível.

O próprio instrumento precisa quase desaparecer termicamente para funcionar. Escudos solares mantêm os sensores a cerca de -240 °C, algo próximo de 33 kelvins. Se estivesse mais quente, o calor do telescópio dominaria o campo de visão e apagaria o rastro dos asteroides. Ao congelar a si mesmo, o NEO Surveyor amplia a sensibilidade ao ponto de detectar corpos pequenos, escuros e distantes.

Ao medir o calor em duas faixas diferentes, a Nasa não apenas localiza um objeto, mas calcula seu tamanho real com mais precisão. No espectro visível, um asteroide pequeno e brilhante pode parecer semelhante a outro maior e escuro. No infravermelho, a quantidade de calor emitida se relaciona diretamente com a área da superfície, o que reduz incertezas e ajuda a separar ameaças reais de falsos alarmes.

Defesa planetária ainda em construção

O esforço de detecção ganha urgência porque a capacidade de resposta segue limitada. Em 2022, a missão DART mostrou, pela primeira vez, que é possível alterar a órbita de um asteroide ao colidir deliberadamente uma nave contra ele. A experiência entra para a história, mas ainda está longe de se traduzir em um escudo operacional permanente.

“A capacidade de desviar um asteroide é tecnicamente possível, mas ainda não está pronta para uso imediato. Localizar a ameaça com antecedência é crucial”, resume Nancy Chabot, coordenadora de defesa planetária da Nasa. Sem anos de aviso, não há como construir, lançar e posicionar uma missão de desvio com segurança.

A meta do NEO Surveyor é ambiciosa: catalogar mais de 90% dos objetos potencialmente perigosos na próxima década. Quanto antes cada órbita for conhecida, maior a margem de manobra para estudar opções de desvio ou evacuação. O resultado interessa a governos, agências de proteção civil, seguradoras e até ao mercado de tecnologia espacial, que enxerga aí um novo campo de investimento estratégico.

O avanço também exige cooperação internacional. Asteroides não respeitam fronteiras, e decisões sobre intervenções em órbitas podem afetar diferentes países. A tendência é que a pauta de defesa planetária ganhe espaço em fóruns multilaterais, ao lado de temas como clima e armas nucleares. Uma falha de coordenação pode transformar um impacto evitável em catástrofe global.

Para a população, o tema ainda parece distante, mas a mudança é concreta. Quanto mais o céu deixa de ser um espaço apenas contemplativo e se torna um campo de monitoramento ativo, mais a gestão de risco entra no dia a dia de autoridades e planejadores urbanos. Simulações de impacto, planos de emergência e protocolos de comunicação entram no vocabulário de defesa civil, assim como hoje se fala em enchentes e ondas de calor.

O que vem depois do alerta

O lançamento do NEO Surveyor, previsto para 2027, marca a transição de uma fase exploratória para uma vigilância sistemática do espaço próximo. Se cumprir a promessa, o telescópio pode transformar 15 mil incógnitas em dados concretos, com trajetórias, tamanhos e riscos calculados. O primeiro impacto é invisível, mas profundo: a redução da incerteza.

O desafio seguinte é político e financeiro. Transformar um teste isolado, como o da missão DART, em um serviço permanente de defesa planetária depende de orçamento estável, acordos internacionais e vontade de agir antes da crise. Nesse cenário, a pergunta deixa de ser se um grande asteroide vai atingir a Terra e passa a ser quando a humanidade estará de fato pronta para reagir.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *