Ciencia e Tecnologia

Nova tecnologia da Nasa faz Perseverance se localizar em Marte com 25 cm

O rover Perseverance passa a usar, desde fevereiro de 2026, um novo sistema de navegação autônoma em Marte que reduz a incerteza de posição para cerca de 25 centímetros. A tecnologia, chamada Mars Global Localization, compara fotos feitas no solo com mapas orbitais e promete mudar o padrão de exploração robótica no planeta vermelho.

Navegação marciana ganha salto de precisão

O avanço nasce de uma limitação concreta do dia a dia do robô da Nasa. Até agora, o Perseverance depende principalmente da chamada odometria visual, um método que calcula o deslocamento pela comparação de imagens sucessivas do terreno. O sistema funciona, mas carrega um problema difícil de contornar: pequenos erros se somam a cada metro percorrido e podem virar incertezas de dezenas de metros depois de um longo trajeto.

Essa margem de dúvida restringe a autonomia do rover. Trajetos mais arriscados, próximos a penhascos, dunas altas ou rochas irregulares, exigem rotas conservadoras e mais intervenções de engenheiros na Terra. Cada correção leva minutos para ir e voltar entre os dois planetas, o que limita a agilidade das operações. Em um ambiente onde cada sol — o dia marciano, com pouco mais de 24 horas e 39 minutos — conta para a coleta científica, esse tempo faz diferença.

O Mars Global Localization, desenvolvido pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), tenta resolver exatamente esse gargalo. Em vez de confiar apenas em quanto as rodas giram ou em como uma pedra se desloca de uma foto para outra, o sistema faz o caminho inverso: pergunta onde o rover está no mapa global de Marte e não apenas em relação ao ponto anterior. A resposta vem da junção entre imagens panorâmicas registradas pelo próprio Perseverance e mapas orbitais pré-carregados em sua memória.

Os engenheiros usam um processador de alto desempenho que já voa com o robô desde o início da missão, mas até aqui tinha outra função: garantir a comunicação com o helicóptero Ingenuity, que realizou mais de 70 voos de teste no planeta. Agora esse mesmo cérebro eletrônico assume um papel central na navegação. O cálculo de localização leva cerca de dois minutos e entrega uma posição refinada com erro de apenas um quarto de metro, segundo a Nasa.

Como o Perseverance passa a se guiar em Marte

Na prática, a rotina de navegação muda de forma discreta, porém decisiva. Durante um deslocamento, o Perseverance segue dirigindo de forma autônoma, como já fazia, analisando obstáculos à frente e ajustando o caminho. Em pontos determinados do trajeto, ele para, gira suas câmeras de navegação e registra um novo panorama da paisagem marciana ao redor. A imagem é enviada ao processador dedicado, que a confronta com mapas de alta resolução obtidos por sondas em órbita, como a Mars Reconnaissance Orbiter.

O algoritmo busca correspondências entre padrões de luz e sombra, formas de crateras, encostas e agrupamentos de rochas. Quando encontra coincidências suficientes, calcula a posição global do rover na superfície do planeta com grande confiança. Segundo o JPL, o Perseverance já usa o recurso em operações regulares desde 2 de fevereiro e volta a acioná-lo em 16 do mesmo mês, consolidando a tecnologia como parte do pacote de navegação de rotina.

Em termos simples, o robô passa a ter um “GPS marciano” que não depende de satélites de navegação, inexistentes em Marte, mas de mapas detalhados construídos ao longo de anos de observação orbital. Sempre que se reposiciona, corrige o acúmulo de erros da odometria visual e pode planejar o trecho seguinte com mais ousadia. Regiões consideradas complicadas, antes evitadas por segurança, entram no radar científico.

Essa liberdade interessa diretamente aos pesquisadores que apostam que a antiga Marte abrigou condições favoráveis à vida. O Perseverance trabalha em Jezero, cratera que já foi um lago e delta de rio. Cada metro ganho em eficiência de percurso amplia a chance de o rover alcançar afloramentos de rochas mais antigas, depósitos de argila e camadas sedimentares que guardam a história química do planeta. A inovação de navegação se converte, assim, em ganho científico.

Impacto na exploração robótica e no trabalho em Terra

A introdução do Mars Global Localization altera a divisão de tarefas entre Marte e a Terra. Quanto mais o Perseverance decide por conta própria, menos os controladores no JPL precisam micromanipular seu caminho. Isso reduz o volume de comandos enviados diariamente e libera engenheiros e cientistas para focar na estratégia de longo prazo: quais rochas estudar, que amostras coletar, quais riscos vale correr em busca de sinais de vida passada.

O ganho de precisão, de erros de dezenas de metros para a casa dos centímetros, também melhora o registro científico. Quando uma imagem mostra um afloramento promissor ou uma estrutura geológica incomum, a equipe passa a saber com mais exatidão onde ela está, o que facilita comparações com dados orbitais e planejamentos de futuras missões de retorno de amostras. A Nasa projeta enviar, na próxima década, sondas capazes de buscar tubos de rocha selados pelo próprio Perseverance.

Em paralelo, o novo sistema oferece um campo de testes valioso para tecnologias de robótica autônoma e inteligência artificial. Algoritmos capazes de se localizar com base em mapas e imagens podem migrar, com adaptações, para outros ambientes extremos: luas geladas, asteroides e até operações terrestres, como mineração em áreas remotas ou inspeção de infraestruturas em locais de difícil acesso. O custo de uma falha continua alto, mas a experiência acumulada em Marte reduz o improviso em futuras missões.

A mudança não elimina a necessidade de supervisão humana. Decisões estratégicas, como entrar ou não em um campo de dunas que pode prender o veículo, continuam sob responsabilidade das equipes em solo. A diferença é que, com um sistema de localização global confiável, o cálculo de custo-benefício fica mais preciso. Como resumem engenheiros do JPL em comunicados recentes, a meta é clara: “deixar o rover trabalhar mais e esperar menos por nós”.

O que vem depois de Marte se localizar sozinho

A adoção plena do Mars Global Localization no Perseverance abre caminho para que futuras missões cheguem a Marte já com navegação autônoma avançada de fábrica. Rovers mais leves, landers estáticos com braços robóticos extensos e até drones sucessores do Ingenuity podem herdar versões adaptadas do sistema. Em vez de depender de anos de calibração em solo marciano, os veículos podem começar a operar com margens de erro reduzidas desde os primeiros dias.

Missões para outros corpos celestes também entram nessa conta. A próxima geração de projetos para a Lua, onde o atraso de comunicação é menor, mas o ritmo de trabalho é intenso, tende a se beneficiar de tecnologias parecidas. Exploradores planejados para luas de Júpiter e Saturno, ambientes ainda mais distantes e hostis, provavelmente não terão o luxo de esperar instruções constantes da Terra. A experiência atual com o Perseverance funciona como um ensaio geral.

No curto prazo, a pergunta é até onde a nova autonomia permitirá que o rover avance em Jezero antes do fim de sua vida útil. Em um cenário de orçamento pressionado e disputas internas por missões, cada metro de terreno bem explorado conta como argumento a favor de novas apostas em robótica espacial. O planeta vermelho volta a servir de laboratório para testar, em escala real, o quanto a exploração do Sistema Solar pode depender, daqui para frente, de máquinas que sabem exatamente onde estão.

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