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Adolescente é solto em caso de triplo homicídio na Grande BH

O adolescente de 17 anos apreendido pelo triplo homicídio em uma padaria de Ribeirão das Neves é liberado na noite desta quinta-feira (12/2), após avanço nas investigações. A Polícia Civil passa a tratar um homem de 30 anos, preso em flagrante por posse ilegal de arma, como principal suspeito da chacina que matou Nathielly Faria, 16, Emanuelly Geovanna, 14, e Ione Ferreira Costa, 56.

Liberação sem proteção e investigação sob questionamento

A saída do adolescente do Centro de Internação Provisória Dom Bosco, no Bairro Horto, em Belo Horizonte, ocorre por volta das 20h40. Ele deixa a unidade em um carro particular, acompanhado apenas da mãe, sem escolta policial ou inclusão em programa de proteção. A defesa fala em abandono estatal e denuncia falhas graves na condução do caso.

De acordo com o advogado do jovem, Gilmar Francisco, o Estado falha duas vezes: primeiro ao internar o ex-namorado de uma das vítimas sem provas consistentes, depois ao liberá-lo sem qualquer medida de segurança. “Não houve prestação jurisdicional nem estatal. A mãe saiu pela porta da frente com o menor em carro particular cedido pela própria família”, afirma. “Eles estão em casa de amigo, porque ele não pode ficar em casa de parentes, que não o aceitaram com medo de represálias e ameaças constantes.”

A defesa sustenta desde o início que o adolescente vira alvo principal por ter sido namorado de Nathielly. O vínculo afetivo e a pressão social na cidade de cerca de 340 mil habitantes empurram o caso para uma solução rápida. A única sobrevivente que estava na padaria, porém, não o reconhece como autor dos disparos. Segundo o advogado, o depoimento dela é interpretado de forma equivocada, e a família do jovem sempre nega qualquer participação dele no crime ocorrido no dia 4 de fevereiro.

O próprio entorno do adolescente se mobiliza para desmontar a suspeita. Familiares reúnem imagens, áudios e comprovantes para demonstrar que ele estaria em casa no momento dos tiros. Esse conjunto de evidências, levado informalmente às autoridades, força novas diligências e abre caminho para a prisão do novo suspeito, uma semana após o ataque na padaria.

Confissão, novo suspeito e mudança de rumo

A virada na investigação acontece na quarta-feira (11/2), quando policiais vão a um endereço no Bairro Céu Azul, na Região de Venda Nova, em Belo Horizonte, após receberem informações sobre o possível autor do crime. No local, encontram uma motocicleta com características semelhantes à usada no ataque em Ribeirão das Neves. O homem de 30 anos é preso em flagrante por posse ilegal de arma e acaba confessando o triplo homicídio.

Dentro do imóvel, os policiais apreendem uma arma de fogo artesanal, um carregador e 11 cartuchos calibre .380 intactos. Também recolhem uma capa de colete balístico, placas de proteção, touca ninja, capacete branco, uma bolsa de entrega, um celular e uma carta manuscrita. A moto é levada para um pátio credenciado. Testemunhas reconhecem o suspeito por características físicas e por objetos associados a ele, segundo a Polícia Militar.

O mesmo homem passa a ser investigado por uma tentativa de homicídio no dia seguinte ao massacre na padaria. Ele teria ido a uma oficina na Grande Belo Horizonte, feito diversos disparos na direção de um adolescente e fugido em seguida. Nenhum tiro atinge a vítima. A hipótese trabalhada pelos investigadores é de que, depois de matar as três mulheres, ele tenta cometer um novo homicídio em menos de 24 horas.

Em coletiva de imprensa na quinta-feira (12/2), o delegado Marcus Rios, titular da Delegacia Especializada em Investigação de Homicídios de Ribeirão das Neves, confirma que o homem de 30 anos se torna o principal suspeito do crime. “Ontem, um homem de 30 anos foi preso em flagrante por posse ilegal de arma, que passou a ser o principal suspeito do crime. Diante disso, a PC comunicou o Ministério Público”, afirma. Segundo Rios, não há qualquer relação entre o detido e o adolescente que estava internado.

O delegado informa ainda ter comunicado a Vara da Infância sobre a prisão do novo suspeito para que o Judiciário decida sobre o futuro do jovem de 17 anos. Um promotor já havia pedido a soltura do adolescente antes mesmo da confissão do homem de 30 anos. Apesar disso, a Polícia Civil afirma que o menor ainda figura como suspeito enquanto o inquérito não é concluído. Até o momento, o órgão não apresenta provas que sustentem essa posição.

A morte de Nathielly, Emanuelly e Ione, duas funcionárias e uma cliente, dentro de uma padaria de bairro, choca Ribeirão das Neves desde o dia 4. Emanuelly chega a ser levada em estado grave ao Hospital Risoleta Neves, em Belo Horizonte, mas não resiste. O crime, ocorrido em um cenário cotidiano, intensifica o medo na região e alimenta cobranças por respostas rápidas do sistema de segurança pública.

Pressão social, falhas e insegurança para todos os lados

O avanço das investigações muda o foco, mas não encerra o trauma. A família do adolescente relata ameaças constantes, carros rondando a casa e recusa de parentes em recebê-lo. “O dia inteiro ficam carros parando na porta da casa da família. Eles estão temerosos com a situação”, relata o advogado. O jovem deixa a internação sem escolta, sem proteção especial e sem um plano de segurança traçado pelo Estado.

A defesa acusa as autoridades de terem cedido à pressão social ao internar o adolescente. “Em vez de pedir a inserção do menor em programa de proteção, pediram a internação dele. Primeiro prenderam e depois investigaram. Foi um processo cheio de vícios”, critica Gilmar Francisco. Para ele, o caso expõe a fragilidade dos procedimentos em crimes de forte repercussão, especialmente quando envolvem menores de idade e relações afetivas.

Moradores da região acompanham o caso com desconfiança crescente em relação às instituições. A mudança de suspeito em poucos dias, a confissão tardia e a falta de explicações claras sobre a motivação do crime alimentam dúvidas sobre a eficiência da investigação. Ao mesmo tempo, familiares das vítimas cobram punição rápida para o novo suspeito e temem que falhas processuais possam favorecer a defesa dele no futuro.

A Polícia Civil de Minas Gerais e o Ministério Público de Minas Gerais são questionados pela imprensa sobre eventuais erros na condução inicial do caso, mas ainda não se manifestam publicamente. As declarações oficiais até agora se limitam a informar que as diligências continuam, sem detalhar por que o adolescente foi apontado como autor logo após o crime, nem quais elementos sustentam a manutenção dele como suspeito.

O que pode acontecer a partir de agora

Os próximos dias devem ser decisivos para o rumo do processo. A confirmação pericial de armas, munições, motocicleta e materiais apreendidos na casa do homem de 30 anos pode consolidar a tese de autoria dele no triplo homicídio e na tentativa de homicídio na oficina. A polícia ainda busca esclarecer se o suspeito age sozinho, se tem ligação com outros crimes na Grande BH e qual seria a motivação para atirar em três mulheres em uma padaria de bairro.

O Judiciário precisa definir a situação do adolescente, hoje em liberdade, mas ainda sob o rótulo de suspeito e exposto a ameaças. A defesa já indica que deve cobrar formalmente a inclusão do jovem e da família em programas de proteção, além de responsabilização do Estado por supostos erros na apuração inicial. A investigação também será um teste para a capacidade das instituições de corrigir rotas, garantir justiça para as vítimas e preservar a integridade de quem é lançado ao centro de casos de forte comoção social antes que todos os fatos estejam esclarecidos.

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