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Mortes no trânsito em MG disparam 133% no carnaval de 2025

As principais rodovias que cortam Minas Gerais registram explosão de mortes no carnaval de 2025. Nas BRs-040, 381 e 262, as vítimas fatais crescem 133% em relação aos recessos desde 2022, enquanto o número de feridos também avança e expõe a combinação de estradas precárias, imprudência e fiscalização insuficiente.

Rodovias lotadas, estrutura frágil e erro humano

O levantamento da Polícia Rodoviária Federal, obtido pela reportagem, mostra que o carnaval de 2025 rompe a curva de estabilidade das festas anteriores. As mortes sobem da média de 6, registrada entre 2022 e 2024, para 14 óbitos em poucos dias de recesso. O total de feridos acompanha o movimento e passa de uma média de 123 para 138 vítimas, alta de 10,4%.

O salto ocorre no momento em que o fluxo de veículos volta a níveis elevados nas saídas de Belo Horizonte, depois do relaxamento das restrições da pandemia. Em três anos, o carnaval se consolida como período de pico nas BR-040, BR-381 e BR-262, com famílias rumo ao interior e ao litoral, caminhões de carga em operação e tráfego urbano pesado nas bordas da capital.

Os dados revelam que o mapa da violência não se concentra em um único ponto, mas se espalha ao longo de um raio de 100 quilômetros a partir de Belo Horizonte. Nas montanhas da Zona da Mata, no entorno industrial da Grande BH e nas ligações para o interior, repete-se a mesma equação: estrutura limitada, excesso de confiança ao volante e veículos sem manutenção.

Na BR-040 em direção ao Rio, o problema começa no traçado. A rodovia cruza relevo montanhoso, com curvas fechadas, pista simples, trechos sem área de escape e acostamentos estreitos ou inexistentes. O fluxo de caminhões de mineração aumenta o risco. Falhas mecânicas, principalmente pneus carecas ou mal calibrados, se transformam em perda de controle e tombamentos.

Nova Lima, na Grande BH, ilustra esse quadro. Nos últimos carnavais, o município soma 12 ocorrências e 16 feridos no trecho analisado. Em vários casos, peritos ligam o início da cadeia de acidentes ao desgaste de pneus, especialmente em veículos de transporte de carga. Numa pista simples, qualquer manobra para corrigir um estouro ou derrapagem arrasta carros que seguem no mesmo sentido ou no sentido oposto.

O ponto mais letal da BR-040 nesse eixo é Congonhas, na Região Central. Em poucos anos, o município registra 8 sinistros, 4 mortes e 12 feridos. Todos em pista simples. Em três das quatro mortes, a ingestão de álcool aparece como fator decisivo. Em um dos casos mais graves, às 4h, um motorista perde o controle em curva, mata duas pessoas na hora e deixa a suspeita clara entre policiais: reflexos comprometidos pela bebida.

O desgaste físico entra nesse pacote de risco. Em outro acidente no mesmo trecho, o condutor simplesmente dorme. O carro cruza a via sem controle, atinge outros veículos, envolve sete pessoas, deixa um morto e seis feridos. Numa estrada de pista simples, um cochilo de segundos basta para invadir a contramão ou sair do asfalto.

Quando a pista melhora, o perigo muda de forma

O sentido contrário da BR-040, de Belo Horizonte a Paraopeba, oferece um retrato diferente do mesmo problema. A pista é duplicada, há canteiro central e melhor geometria. O risco não desaparece, só muda de rosto. Nas áreas urbanas densas de Contagem e Ribeirão das Neves, as colisões traseiras e os atropelamentos passam a dominar as estatísticas.

Em Contagem, ainda na Região Metropolitana, o carnaval acumula 12 sinistros e 17 feridos desde 2022. A via reta e duplicada sugere segurança, mas o fluxo intenso, com paradas bruscas e retomadas, cria uma armadilha para motoristas distraídos. Em metade dos casos, relatórios citam reação lenta ou ineficiente diante de um imprevisto, quase sempre terminando em batida traseira.

Pedestres entram nessa zona de conflito como os mais vulneráveis. Muitas vezes cruzam a rodovia longe de passarelas ou faixas sinalizadas, em especial à noite. Um atropelamento noturno no período analisado envolve dois veículos, deixa três feridos e expõe o efeito dominó típico desses episódios: um carro freia de repente, o seguinte não respeita a distância, o choque se espalha pela fila.

Ribeirão das Neves concentra o trecho mais crítico da BR-040 no sentido Paraopeba. São 15 sinistros, uma morte e 14 feridos nos carnavais desde 2022. O trânsito de passagem disputa espaço com o tráfego urbano, com destaque para a vulnerabilidade de motociclistas. O único óbito ocorre às 14h, em plena luz do dia, quando uma moto avança entre as faixas e se envolve em colisão fatal.

O acidente mais impressionante na lista, também em Neves, mostra o preço de ignorar a distância de segurança. Um engavetamento reúne sete veículos e 22 pessoas. Em horários de pico, a rodovia opera no limite da capacidade e qualquer freada mais forte vira teste para o reflexo do motorista de trás. Na estatística do período carnavalesco, 40% dos sinistros são batidas traseiras ou engavetamentos nesse trecho.

Relatórios técnicos e recomendações de entidades como a Confederação Nacional do Transporte reforçam um recado simples para o motorista comum: revisar o carro, planejar a rota, respeitar o limite de velocidade, evitar o volante após beber e não dirigir cansado. “A distância de segurança e a atenção contínua são tão importantes quanto freio e pneu em bom estado”, alerta, em nota, a CNT.

Pressão por respostas e disputa por responsabilidade

O avanço da violência nas estradas mineiras pressiona órgãos de trânsito, concessionárias e governos a agir em diferentes frentes. A infraestrutura das principais saídas de Belo Horizonte ainda convive com gargalos conhecidos, como trechos de pista simples na BR-040, ausência de áreas de escape, acostamentos estreitos e sinalização falha em pontos urbanos sensíveis.

Ao mesmo tempo, a fiscalização não dá conta de conter o comportamento de risco de parte dos motoristas. A ingestão de álcool, a escolha de dirigir após noites mal dormidas e a insistência em trafegar colado ao veículo da frente seguem aparecendo nos boletins da PRF. O resultado é uma estatística que, no carnaval de 2025, rompe qualquer margem de tolerância e expõe o custo humano da negligência.

A pressão por respostas tende a crescer à medida que o calendário avança para outros feriados prolongados, como Semana Santa e festas de fim de ano. Sem obras estruturais mais rápidas, campanhas educativas consistentes e fiscalização mais visível, o cenário descrito no carnaval tem tudo para se repetir. O motorista que pega a estrada hoje enfrenta um sistema que falha em várias camadas e, muitas vezes, conta apenas com a própria prudência para voltar para casa.

A curva de mortes e feridos nas BR-040, 381 e 262 indica que o carnaval deixou de ser só uma festa nas ruas para se tornar também um teste extremo para o trânsito. A dúvida que permanece, entre cruzamentos perigosos, pneus gastos e decisões arriscadas ao volante, é se o próximo feriado prolongado vai registrar a mesma escalada de violência ou marcar o ponto de virada na segurança das estradas mineiras.

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