Jovem é morta por estrangulamento e suspeito é preso em trem em MG
A jovem Vanessa Lara de Oliveira, 23, é encontrada morta em Juatuba, na Grande BH, após desaparecer a caminho do trabalho. Em depoimento à polícia, o principal suspeito, Ítalo Jefferson, 43, admite tê-la estrangulado com um cabo de telefone. A prisão ocorre dias depois, durante operação da PM em um trem de carga.
Abordagem em área vulnerável e confissão imediata
Vanessa some na segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, depois de sair do Sistema Nacional de Emprego (Sine) de Juatuba, onde presta serviço para uma empresa terceirizada. Ela mora em Pará de Minas, a cerca de 50 quilômetros dali, e faz diariamente o trajeto até a cidade para custear a faculdade de psicologia.
O corpo é encontrado em uma área às margens da BR-262, em Juatuba, em um trecho de mato e pneus usados, por onde moradores costumam passar para acessar a rodovia e pegar ônibus. Segundo a Polícia Militar de Minas Gerais, a região é conhecida pela vulnerabilidade, com pouca iluminação e circulação reduzida de pessoas fora do horário comercial.
De acordo com o relato da corporação, Ítalo Jefferson admite que aborda Vanessa nesse ponto isolado. Diz que não a conhece, mas se aproveita da fragilidade do local para atacá-la e estrangulá-la com um cabo de telefone. A versão é apresentada primeiro a familiares, por telefone, e depois confirmada à polícia.
Moradores reforçam a imagem de um suspeito que circula há anos pela região. “Ele é conhecido em Juatuba por assediar mulheres”, relata Rolim Lopes, que vive há 39 anos na rua Santa Cruz, às margens da BR-262, onde o corpo é localizado com sinais de violência. Para ele, o ataque começa em um matagal e termina em uma valeta de escoamento de água, logo abaixo da via.
Perseguição, prisão em trem de carga e histórico de violência
O rastro deixado pelo crime leva os policiais primeiro à casa da família de Ítalo. Na terça-feira, 10 de fevereiro, militares batem à porta do imóvel indicado por moradores como endereço do suspeito. Lá encontram o primo, o cunhado e a mãe do homem de 43 anos.
Os parentes relatam que ele havia chegado na segunda-feira, dia do desaparecimento de Vanessa, com o corpo cheio de arranhões, sujo de barro e com manchas de sangue na roupa. A família entrega à polícia um short usado naquela data, que agora segue para perícia. O próprio suspeito, segundo o boletim de ocorrência, telefona para casa durante a presença dos policiais, admite o crime e desliga em seguida, sem voltar a atender.
A versão apresentada aos parentes tenta minimizar a gravidade. Ítalo diz que usou drogas com uma mulher e brigou com ela, justificando o sangue e os ferimentos. Depois, toma banho, pede R$ 200 à mãe e afirma que pretende ir para o Centro de Belo Horizonte, onde, segundo o relato, passaria a viver em situação de rua.
A fuga não dura muitos dias. Na quinta-feira, 12 de fevereiro, durante uma operação pré-carnaval, a Polícia Militar recebe denúncia anônima informando que o suspeito se esconde entre vagões de carga de grãos e minérios em um trem que deixa Juatuba e cruza o município de Carmo do Cajuru, a cerca de 66 quilômetros do local do crime. Uma viatura intercepta a composição e pede ao maquinista que pare a locomotiva.
No momento da abordagem, segundo a PM, o homem salta do trem e tenta correr, mas é contido poucos metros adiante. Com ele, policiais apreendem uma faca, roupas e alimentos. O suspeito apresenta ferimentos, atribuídos à fuga. Ele afirma que anda sem destino e diz à polícia que já esperava ser preso.
Ítalo também sabe que existe um mandado de prisão em aberto contra ele. Na cidade, acumula relatos de assédio contra mulheres e é citado por moradores como presença constante em pontos de vulnerabilidade, como o trecho de matagal da rua Santa Cruz. A investigação agora apura se há outras vítimas e qual o alcance da atuação dele na região.
Medo, cobrança por segurança e investigação em curso
A morte de uma jovem de 23 anos, que trabalha para pagar a faculdade, acende mais um alerta sobre a segurança de mulheres em trajetos cotidianos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O caminho de Vanessa combina deslocamento intermunicipal, ponto de ônibus em rodovia federal e passagem obrigatória por área de mato, cenário comum em periferias e cidades de médio porte do país.
O caso mobiliza moradores de Juatuba, que passam a cobrar reforço no patrulhamento em áreas isoladas, melhor iluminação e revisão de rotas de transporte. A presença de um suspeito com histórico de assédio, circulando sem monitoramento mesmo com mandado de prisão em aberto, reacende críticas à lentidão do sistema de justiça criminal e à ausência de políticas preventivas eficazes.
A Polícia Civil mantém as investigações para detalhar o passo a passo do crime, confrontar a confissão de Ítalo com laudos periciais e ouvir testemunhas. A peça de roupa com manchas de sangue, recolhida na casa da família, será analisada para confirmar o vínculo com a vítima. A apuração também busca identificar eventuais falhas na resposta do Estado a denúncias anteriores de assédio atribuídas ao suspeito.
Organizações locais de defesa dos direitos das mulheres usam o caso como exemplo de como a vulnerabilidade urbana e a violência de gênero se cruzam em pontos de ônibus, passagens de terra e trechos de rodovias. O debate se espalha pelas redes sociais e pela imprensa regional, com pedidos de ações concretas, e não apenas operações pontuais em datas festivas.
Enquanto a família de Vanessa aguarda respostas formais sobre o que aconteceu naquele fim de tarde de segunda-feira, 9 de fevereiro, a cidade tenta adaptar a rotina ao medo renovado. A prisão de Ítalo Jefferson encerra a busca pelo suspeito, mas abre outra discussão: até que ponto a combinação de omissão, falhas de fiscalização e espaços urbanos degradados contribui para que mortes como a dela sigam se repetindo.
