Ciencia e Tecnologia

Cometa 41P surpreende astrônomos ao inverter sentido de rotação

O cometa 41P/Tuttle-Giacobini-Kresák desacelera, praticamente para e inverte o próprio sentido de rotação em 2026, sob o olhar do Telescópio Espacial Hubble. A mudança brusca intriga astrônomos e abre uma rara janela para entender as forças que moldam a vida de corpos gelados no Sistema Solar.

Um giro improvável no meio do Sistema Solar

O 41P não é um cometa qualquer. Descoberto em 1858, ele cruza a órbita da Terra a cada cerca de 5,4 anos e costuma passar relativamente discreto pelos telescópios. Em 2026, porém, o Hubble registra algo que foge ao roteiro conhecido: a rotação do núcleo diminui de forma contínua, entra em regime quase estático e, em seguida, começa a girar no sentido oposto.

Em escalas humanas, equivale a ver um pião de brinquedo, já desgastado, frear no meio da sala e recomeçar a girar ao contrário sem que ninguém encoste nele. No espaço, esse tipo de reviravolta é raríssimo. A rotação de um cometa costuma mudar devagar, ao longo de décadas, e quase nunca chega a inverter o sentido. O que o Hubble observa agora, em poucos meses, desafia os modelos que tentam descrever o comportamento desses blocos de gelo e poeira formados há mais de 4,5 bilhões de anos.

O que pode estar freando e virando o cometa

Ainda não há resposta fechada para o que acontece com o 41P, mas o esboço da explicação aponta para uma combinação de fatores invisíveis a olho nu. À medida que o cometa se aproxima do Sol, o aquecimento faz o gelo de água e outros compostos passarem direto do estado sólido para o gasoso. Esses jatos de gás escapam como pequenos foguetes naturais, empurrando o núcleo e alterando seu giro.

Esse mecanismo já é conhecido, mas a intensidade da mudança intriga a equipe que acompanha o 41P. Em anos anteriores, estimativas indicam períodos de rotação de dezenas de horas. Em 2026, medições sucessivas com o Hubble mostram uma desaceleração tão forte que o núcleo se comporta, por um intervalo crítico, como se quase não girasse mais. Em seguida, o padrão de brilho e das estruturas de poeira sugere que o sentido da rotação se inverte.

Pesquisadores apontam que a radiação e o vento solar, um fluxo constante de partículas emitidas pelo Sol a centenas de quilômetros por segundo, podem atuar em conjunto com os jatos de gás. Regiões ativas distribuídas de forma desigual na superfície funcionariam como motores assimétricos, capazes de frear o cometa e, em casos extremos, virar o eixo de rotação. “Quando vários jatos puxam na direção certa, o efeito deixa de ser sutil. A física é a mesma, mas o resultado parece espetacular”, resume, em linguagem técnica, um pesquisador ligado ao estudo.

Por que a inversão do 41P importa para a ciência

Cometas são cápsulas do tempo do Sistema Solar. A maior parte deles preserva a composição original da nuvem de gás e poeira que deu origem aos planetas. Entender como giram, se fragmentam e perdem material ajuda a reconstituir a própria história da vizinhança cósmica da Terra. A inversão do 41P transforma um objeto relativamente modesto em laboratório natural para testar teorias que, até agora, se apoiam mais em simulações de computador do que em dados reais.

A observação contínua do Hubble em 2026 permite acompanhar, quase em tempo real, o efeito acumulado de forças minúsculas atuando sobre um corpo com alguns quilômetros de diâmetro. É a chance de medir com mais precisão quanto gás o cometa libera por segundo, como esse fluxo varia ao longo da órbita e de que maneira pequenos desníveis na superfície, com desfiladeiros e crateras, amplificam o torque que muda o giro.

Os resultados podem obrigar astrônomos a revisar hipóteses sobre a estabilidade de rotação de cometas de curto período, aqueles que retornam ao entorno da Terra em intervalos de poucos anos. Se a rotação pode ser virada de ponta-cabeça em uma única passagem, a expectativa de vida desses núcleos talvez seja menor do que se calcula hoje. “Cada dado novo que obtemos do 41P nos força a recalibrar o que achávamos que sabíamos sobre a dinâmica de pequenos corpos”, comenta outro cientista envolvido no acompanhamento do cometa.

Impacto nas futuras missões e na vigilância do espaço

A reviravolta do 41P não ameaça a Terra, mas muda a forma como se avaliam riscos associados a cometas e asteroides em geral. Para missões espaciais, a estabilidade de rotação é questão prática. Sondas como as europeias Rosetta e Hera e a americana OSIRIS-REx dependem de previsões de giro para planejar aproximações e pousos. Um núcleo que freia e inverte o sentido de rotação em poucos meses complica qualquer roteiro de navegação.

No caso do 41P, a experiência acumulada em 2026 pode influenciar o desenho de missões ainda no papel. Se a comunidade científica confirmar que jatos assimétricos são capazes de produzir mudanças tão radicais, futuras sondas podem levar instrumentos específicos para mapear essas regiões ativas com mais detalhe. Uma nave dedicada a um cometa como o 41P, por exemplo, poderia medir diretamente as forças envolvidas, em vez de apenas inferi-las a partir da luz captada por telescópios.

Os dados também interessam a quem acompanha, noite após noite, a chamada defesa planetária. Modelos que simulam o desvio de um corpo em rota de colisão com a Terra precisam incorporar o efeito de jatos de gás, da radiação e do vento solar. Em um cenário hipotético, uma pequena diferença no sentido de rotação pode alterar o resultado de uma missão de desvio que custe bilhões de dólares e leva mais de 10 anos para sair do papel.

O que ainda falta descobrir sobre o cometa 41P

A inversão de rotação observada em 2026 é só o começo da história. Astrônomos planejam seguir o 41P em suas próximas passagens para saber se o fenômeno se repete, se estabiliza ou se o núcleo entra em colapso. Um giro muito lento torna o cometa estruturalmente mais vulnerável. Se a distribuição de massa for irregular, fissuras podem se abrir e o núcleo pode se fragmentar em blocos menores ao longo das próximas órbitas.

O telescópio Hubble, em operação desde 1990, segue como peça central nesse acompanhamento, enquanto novos observatórios espaciais e em solo, como o telescópio Vera C. Rubin, no Chile, prometem ampliar o volume de dados. A expectativa é que, ao longo da próxima década, o 41P deixe de ser uma curiosidade isolada e passe a ocupar lugar central nos modelos que descrevem a evolução de pequenos corpos no Sistema Solar.

Por enquanto, a pergunta principal permanece em aberto: até que ponto forças aparentemente fracas, somadas ao longo de milhões de quilômetros, podem redesenhar o destino de um cometa? A resposta, escondida no giro imprevisível do 41P, começa a ser escrita agora, em uma sequência de imagens silenciosas colhidas no escuro do espaço.

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