Nova corrida à Lua mistura ciência, negócios e poder militar
Estados Unidos e China travam, até 2030, uma disputa silenciosa e acelerada para voltar à Lua. A corrida envolve tecnologia de ponta, bilhões em investimentos privados e um tabuleiro militar que redefine o poder no espaço. No meio desse jogo, o Brasil tenta recuperar terreno e transformar cooperações estratégicas em autonomia espacial.
Lua volta ao centro da disputa global
Mais de meio século após o último pouso tripulado, em 1972, a Lua volta a ser vitrine de liderança tecnológica e símbolo de poder. De um lado, o programa Artemis, liderado pelos Estados Unidos, mira uma nova missão tripulada até o fim da década, com o Artemis II na linha de frente. De outro, a China, por meio da Administração Espacial Nacional (CNSA), trabalha para colocar taikonautas na superfície lunar até 2030, em um calendário que espelha o rival.
A disputa não se limita a bandeiras fincadas no solo lunar. Ela envolve a capacidade de operar no espaço profundo, montar bases de pesquisa, explorar recursos e proteger satélites que sustentam a economia mundial. Sistemas de navegação, comunicações, transações financeiras e até o monitoramento de plantações dependem de constelações em órbita. Cegar o inimigo, hoje, passa por derrubar essas redes.
Armas antissatélites entram nesse cenário como peça central. “Um aspecto central da capacidade militar no espaço hoje é o desenvolvimento de armas antissatélites”, afirma Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra. “Tratam-se de mísseis balísticos capazes de atingir e destruir satélites para ‘cegar’ o inimigo durante um conflito.” Segundo ele, Estados Unidos, China, Rússia e Índia já testam com sucesso esse tipo de armamento, consolidando um patamar inédito de poder militar no espaço.
A nova corrida repete a lógica da Guerra Fria, mas com outros atores e ferramentas. O que antes opunha Washington e Moscou, hoje contrapõe Washington e Pequim, com Moscou e Nova Délhi atuando como forças relevantes em órbita. A diferença é que a fronteira entre programa civil e uso militar fica cada vez mais tênue, enquanto a presença da iniciativa privada transforma a forma de chegar ao espaço.
Foguetes gigantes, empresas bilionárias e o lugar do Brasil
Nos Estados Unidos, a estratégia para voltar à Lua se apoia em um gigante ainda em fase de testes: o Starship, da SpaceX. O sistema pretende ser o maior foguete da história e operar com reutilização quase completa, reduzindo custos de lançamento. O plano, no entanto, enfrenta dúvidas internas. “Esse é um plano que nenhum administrador da Nasa, que eu tenha conhecimento, teria selecionado se tivesse tido a escolha”, disse James Bridenstine, ex-chefe da agência, ainda no governo Donald Trump.
A SpaceX, avaliada em dezenas de bilhões de dólares, virou sinônimo da nova era espacial. Seus pousos controlados de estágios de foguetes, antes vistos como ficção científica, tornaram rotineiros lançamentos à Estação Espacial Internacional e a órbita baixa. O modelo empresarial abre espaço para contratos bilionários com o governo americano e pressiona outros países a buscar caminhos semelhantes.
Na China, o governo mantém firme o controle do programa, mas também estimula empresas estatais e privadas ligadas ao setor. O país registra o primeiro pouso de uma sonda no lado oculto da Lua e acelera missões robóticas para coletar amostras. A meta de construir uma estação científica lunar nas próximas décadas avança em paralelo ao fortalecimento de suas capacidades militares em órbita.
No Brasil, o espaço nunca deixou de ser estratégico, mas perdeu ritmo com cortes orçamentários e mudanças de governo. Nos anos 1980, a China envia cientistas ao país para aprender com engenheiros brasileiros, muitos deles com passagem pela Nasa. Dali nasce o programa de satélites CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite), que ainda hoje ajuda a monitorar o desmatamento na Amazônia e outras áreas ambientais sensíveis.
“Naquele momento os chineses eram muito interessados em cooperar com o Brasil na área espacial e eles fizeram a proposta de se criar um programa conjunto para construir e lançar um satélite artificial”, lembra Maurício Santoro, professor da UERJ e especialista em relações Brasil-China. “A razão é que a China estava sujeita a sanções e bloqueios dos Estados Unidos e da Europa, e o Brasil não estava.” A parceria garante ao país acesso a dados vitais sobre florestas, agricultura e recursos hídricos.
O coronel Carlos Moura, ex-presidente da Agência Espacial Brasileira, reforça a dimensão prática dessa agenda. “O Brasil, dada a sua condição geográfica, população e economia, necessita de aplicações espaciais em áreas como meio ambiente, agricultura e logística”, afirma. Ele lembra que o país domina partes da tecnologia e sabe transformar informações de satélites em benefícios concretos, mas ainda não constrói uma economia espacial robusta como faz na aviação ou no agronegócio.
O eixo sino-brasileiro ganha um novo capítulo em 2025, com o anúncio da construção de um laboratório conjunto para tecnologias espaciais, em parceria com a estatal chinesa CETC. O projeto se conecta a um grande telescópio na América do Sul e aprofunda a cooperação científica entre os dois países. Para especialistas, é uma janela rara para que o Brasil recupere capacidade industrial e reduza a dependência de serviços externos.
Militarização do espaço e a aposta brasileira na Lua
O avanço da militarização em órbita pressiona países médios a definir estratégias claras. Investir em espaço significa hoje proteger comunicações militares, redes de energia, bancos de dados e sistemas de GPS usados por aviões, navios e caminhões. “Investir no setor é fundamental não apenas para a defesa militar, mas para a segurança da economia e dos serviços essenciais ao cidadão”, resume Moura. O objetivo é buscar maior autonomia nacional em um ambiente cada vez mais disputado.
A presença de empresas privadas amplia a competição. “Diferente da Guerra Fria, onde os programas eram estritamente governamentais, a corrida atual está aberta e o apoio da indústria privada é essencial para que os americanos tentem garantir a liderança novamente”, avalia Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. A visão contrasta com críticas históricas, como as de Neil Armstrong, que entre 2010 e 2011 se opôs, no Congresso americano, à entrada de companhias comerciais em áreas centrais do programa tripulado.
Enquanto Estados Unidos e China medem forças por meio de mísseis antissatélites, megaprojetações lunares e constelações de comunicação, o Brasil tenta se posicionar como ator relevante em nichos específicos. Satélites ambientais, sensoriamento remoto de florestas, previsões climáticas e controle de fronteiras formam o núcleo da chamada soberania espacial verde. A localização próxima à linha do Equador, com o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, segue vista como trunfo comercial e militar.
A expectativa de lançamento do Artemis II, previsto para a segunda metade desta década, funciona como marco simbólico para essa reconfiguração. Em março, uma série de reportagens sobre o “Brasil na Lua” detalha, no país, as iniciativas em curso, das parcerias com a China à retomada de projetos nacionais de lançadores. A janela de tempo até 2030 é curta para quem parte atrás, mas suficiente para definir quem terá assento à mesa quando novas regras de uso da Lua e de recursos minerais forem negociadas.
O próximo ciclo da corrida espacial tende a combinar bases científicas lunares, acordos multilaterais mais duros sobre detritos e armas em órbita e disputas comerciais em torno de banda larga global. O Brasil ainda decide se será apenas usuário de serviços ou fornecedor de tecnologia. A resposta, nos próximos anos, dirá se o país aceita assistir à nova era espacial da arquibancada ou reivindica um lugar na linha de frente.
