Secretário de Itumbiara atira nos dois filhos e se mata em Goiás
O secretário de governo de Itumbiara (GO), Thales Naves Alves Machado, atira contra os dois filhos e se mata na madrugada desta quinta-feira (12). A Polícia Civil investiga o caso como homicídio seguido de suicídio.
Carta de despedida expõe crise familiar e “limite improvável”
Horas antes do disparo, Machado publica uma carta de despedida em seu perfil no Instagram. No texto, ele afirma que vive um “limite improvável” após o afastamento da esposa, Sarah Araújo, com quem é casado há 15 anos. O perfil, que até então exibe fotos em família e registros de atividades na prefeitura, está agora fechado.
O secretário escreve que, ao longo do casamento, não imagina chegar a este ponto. Relata que a mulher teria saído de Itumbiara para encontrar outra pessoa e diz ter desconfiado da mudança de comportamento dela nos últimos dias. “Ela estava diferente há alguns dias, de onde veio a desconfiança, mas nunca imaginei que faria isso”, afirma, antes de lembrar uma conversa recente: “Semana passada ainda falei: se não estivermos bem vamos manter o respeito e falar antes, mas ela não ouviu e preferiu isso”.
No texto, Machado deixa claro que envolve os filhos em seu plano trágico. “Partimos eu e meus meninos que agora são anjos que infelizmente vieram comigo”, escreve. Em outro trecho, pede perdão e se define como uma pessoa intensa, incapaz de seguir vivendo com as lembranças do conflito familiar. “Todos sabem como eu sou intenso e verdadeiro”, diz, para em seguida admitir: está ciente de que não haverá perdão pelo que faz.
O secretário se dirige também ao prefeito de Itumbiara, Dione Araújo, que é seu sogro. Ele se desculpa diretamente, mas reconhece a gravidade irreparável do ato. A carta termina com um apelo à esposa. Machado afirma que não queria que a situação chegasse a esse desfecho e acusa Sarah de faltar com sinceridade. “Só queria a verdade e o respeito que você infelizmente não teve e ainda com uma pessoa desqualificada e um malandro que existe em nossa cidade”, escreve.
Disparos na madrugada, filho morto e comoção em Itumbiara
O crime acontece na madrugada de 12 de fevereiro de 2026, em Itumbiara, cidade goiana a cerca de 205 quilômetros de Goiânia. Thales Naves Alves Machado, figura influente na política local, atira contra os dois filhos, de 12 e 8 anos, antes de tirar a própria vida. O episódio rompe a rotina de uma gestão municipal em ano pré-eleitoral e expõe, de forma brutal, o choque entre a vida pública e o colapso íntimo.
De acordo com a TV Anhanguera, afiliada da TV Globo em Goiás e Tocantins, o filho mais velho ainda é socorrido e levado ao Hospital Municipal Modesto de Carvalho, mas não resiste aos ferimentos. O menino de 8 anos é encaminhado ao Hospital Estadual de Itumbiara, passa por cirurgia de emergência e permanece internado em estado grave. A unidade de saúde não divulga boletim detalhado, e a família evita falar com a imprensa.
A Polícia Civil de Goiás abre inquérito para apurar o caso como homicídio seguido de suicídio. Investigadores recolhem armas, documentos e aparelhos eletrônicos e ouvem familiares e vizinhos que escutam os disparos na madrugada. A carta publicada no Instagram passa a integrar o material analisado, assim como eventuais mensagens enviadas por Machado horas antes do crime.
O município se vê diante de uma tragédia que ultrapassa fronteiras partidárias. Colegas de prefeitura, servidores e moradores acompanham o caso com perplexidade. Em grupos de mensagens e redes sociais, multiplicam-se relatos de encontros recentes com o secretário, que até então aparenta normalidade. A combinação entre cargo público, crise conjugal e violência extrema reacende o debate sobre como sinais de sofrimento psíquico são ignorados até o ponto de ruptura.
Alerta sobre saúde mental, violência doméstica e prevenção
A morte de um secretário em meio a uma disputa conjugal coloca a saúde mental no centro do debate em Itumbiara e fora dela. O episódio expõe como conflitos familiares, quando não enfrentados com apoio profissional e redes de proteção, podem escalar para situações extremas. Especialistas ouvidos por veículos locais ressaltam que sentimentos de abandono, rejeição e perda de controle, se combinados a acesso fácil a armas de fogo, aumentam o risco de episódios letais dentro de casa.
Casos de homicídio seguido de suicídio dentro do núcleo familiar, como o que atinge a família de Machado, são um desafio recorrente para políticas públicas de prevenção à violência doméstica. A perda de uma criança de 12 anos, o estado gravíssimo de um menino de 8 e a morte do pai, que ocupa posição de poder na administração, expõem a fragilidade das estruturas de apoio em situações de crise emocional. A carta deixa pistas de um homem que se sente traído e sem perspectiva, mas também revela a decisão planejada de arrastar os filhos para o próprio desespero.
Levantamentos de órgãos de saúde mostram crescimento constante dos registros de transtornos relacionados a ansiedade, depressão e comportamento suicida no Brasil, especialmente após 2020. A interiorização da crise de saúde mental chega a cidades como Itumbiara, onde a rede de atendimento ainda é limitada e depende dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e da articulação com o Sistema Único de Saúde. Em muitos casos, homens em cargo de liderança evitam buscar ajuda por medo de exposição ou de parecerem frágeis.
Organizações que atuam em prevenção ao suicídio reforçam que pensamentos autodestrutivos exigem atendimento imediato. Serviços como o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, funcionam 24 horas por dia, todos os dias, com atendimento sigiloso por telefone, chat, e-mail e postos presenciais. A orientação é clara: qualquer menção a tirar a própria vida, fazer mal a terceiros ou à família precisa ser levada a sério e encaminhada com urgência a profissionais de saúde.
Investigação continua e cidade tenta entender a ruptura
A Polícia Civil mantém as investigações para reconstruir com precisão as horas que antecedem os disparos, o acesso de Machado à arma usada e eventuais alertas ignorados por pessoas próximas. O conteúdo completo da carta, as circunstâncias da crise conjugal e o histórico de saúde mental do secretário são agora peças de um quebra-cabeça que tenta explicar por que um conflito afetivo termina em morte e como dois meninos se tornam alvo da própria figura paterna.
A prefeitura de Itumbiara ainda avalia como lidar institucionalmente com a morte de um integrante do primeiro escalão acusado de assassinar o próprio filho. A comunidade busca formas de amparar a criança que sobrevive e os familiares que ficam. A tragédia, porém, deixa uma questão incômoda para a cidade e para o país: quantos outros conflitos silenciosos, marcados por isolamento, ciúme e ausência de apoio profissional, caminham hoje para um desfecho semelhante sem que ninguém perceba a tempo?
