Ucraniano é desclassificado em Milão-2026 por capacete em homenagem a mortos na guerra
O ucraniano Vladislav Heraskevych é desclassificado nesta quinta-feira (12) das provas de skeleton dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. O Comitê Olímpico Internacional (COI) barra o atleta por causa de um capacete com homenagens a esportistas mortos na guerra com a Rússia, acendendo novo embate entre esporte e política.
Capacete memorial vira símbolo de confronto
Heraskevych chega ao circuito olímpico de skeleton usando um capacete cinza com imagens serigrafadas de compatriotas mortos no conflito que destrói a Ucrânia desde 2022. Entre eles estão o patinador artístico Dmytro Sharpar, morto em combate perto de Bakhmut, e o jovem biatleta Yevhen Malyshev, de 19 anos, morto na região de Kharkiv, citados nominalmente pelo presidente Volodimir Zelensky no início da semana.
O equipamento, que sua equipe chama de “capacete memorial”, aparece nos treinos oficiais de segunda-feira (9) e quarta-feira (11), sob intensa atenção da imprensa internacional. O objeto rapidamente extrapola a pista de gelo e vira símbolo da tentativa de levar ao centro dos Jogos nomes de atletas ucranianos mortos na frente de batalha.
O COI reage ainda na terça-feira (10) e propõe uma alternativa. Em vez das imagens no capacete, sugere que o atleta use uma braçadeira preta, apresentada como “medida excepcional” para registrar o luto sem, segundo a entidade, transformar o uniforme em plataforma de mensagem política.
O esqueletonista rejeita a solução. “Este é o preço da nossa dignidade”, escreve mais tarde na rede social X, ao comentar a desclassificação. Ele insiste em manter o capacete com rostos e nomes, que considera um tributo direto, e não um slogan.
Decisão do COI expõe limites da neutralidade
Na manhã desta quinta-feira, ao chegar às instalações da competição, Heraskevych se reúne com a presidente da Comissão de Atletas do COI, Kirsty Coventry. Segundo comunicado oficial, ela apresenta “pela última vez” a posição do Comitê sobre as regras de expressão dos competidores, que restringem manifestações políticas visíveis durante provas e cerimônias.
O encontro não muda o impasse. O ucraniano se recusa a abrir mão do capacete, e o caso passa aos juízes da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF). Com base no regulamento técnico, eles concluem que o equipamento não está em conformidade e o desclassificam das provas de skeleton em Milão-Cortina.
Em seguida, o COI comunica decisão ainda mais dura: retira a credencial do atleta para os Jogos de 2026. “O atleta não poderá participar após se recusar a cumprir as diretrizes do COI sobre a expressão dos atletas”, afirma a nota. A entidade diz agir “com pesar” e destaca que manteve “muitas conversas e discussões presenciais” com Heraskevych antes de chegar ao corte definitivo.
A resposta em Kiev é imediata. O ministro das Relações Exteriores, Andrii Sibiga, acusa o COI de atingir a própria imagem. “O COI vetou não apenas o atleta ucraniano, e sim a sua própria reputação. As gerações futuras vão citar isto como um momento de vergonha”, escreve nas redes sociais.
Zelensky também se alinha ao atleta e transforma o capacete em gesto oficial de resistência. Em mensagem no Telegram, ele descreve um a um os retratados no equipamento e diz que as vidas “foram arrebatadas pela guerra travada pela Rússia”. Ao elogiar o esqueletonista, reforça o uso dos Jogos como vitrine para a memória dos mortos no front.
Repercussão internacional e impacto sobre atletas
A punição a Heraskevych se espalha com rapidez por delegações, federações e redes sociais. Em menos de 24 horas, o episódio ocupa espaço em debates sobre liberdade de expressão nas arenas esportivas e sobre a tentativa de blindar os Jogos do choque direto entre Rússia e Ucrânia.
A desclassificação também funciona como recado a outros atletas que cogitam usar símbolos de protesto. Ao impor um limite visível, o COI sinaliza que bandeiras, imagens de vítimas e referências explícitas a conflitos armados continuarão restritas, mesmo quando envolvem mortos da própria comunidade esportiva.
Na prática, o caso testa o alcance da regra que, em edições recentes, flexibiliza manifestações em momentos considerados neutros, como redes sociais e zonas mistas. Milão-Cortina 2026 mostra que, no uniforme e no equipamento de competição, a margem segue estreita. O atleta que ultrapassa essa linha pode perder não apenas uma prova, mas toda a participação olímpica.
Na Ucrânia, o esqueletonista ganha status de símbolo. Ao recusar a braçadeira e insistir no capacete com rostos e nomes, ele encarna uma forma de luto que desafia a liturgia olímpica da neutralidade. Para parte da opinião pública, sua ausência na pista pesa mais que um eventual resultado esportivo.
O que fica em jogo após Milão-Cortina
O COI sabe que a decisão abre um precedente delicado para o restante dos Jogos e para futuras edições. A federação internacional de skeleton também passa a ser cobrada sobre até que ponto regulamentos técnicos devem abarcar símbolos de memória e protesto, em especial quando se trata de conflitos em curso.
Com a guerra na Ucrânia prestes a completar quatro anos em 24 de fevereiro de 2026, o incidente reforça a presença do conflito em cada grande evento global. A pressão sobre o Comitê Olímpico se intensifica, tanto de governos quanto de torcedores, para que a entidade esclareça como pretende equilibrar neutralidade política, segurança jurídica dos regulamentos e direito de atletas à expressão.
Heraskevych deixa Milão-Cortina sem competir, mas a imagem do capacete memorial já circula em escala planetária. A próxima revisão das diretrizes do COI sobre manifestações deve considerar esse episódio como divisor de águas. Resta saber se, nas próximas Olimpíadas, o silêncio imposto às pistas ainda será visto como proteção ao esporte ou como mais um capítulo de uma guerra travada também nos símbolos.
