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Torcida do Velo invade treino, cobra elenco e confronta diretoria

A organizada Geral do Velo Clube interrompe o treino da equipe no Benitão e cobra “sangue” dos jogadores antes do duelo decisivo contra o Santos, neste domingo, pelo Paulistão. A diretoria reage, fala em invasão e condena a pressão sobre elenco e comissão técnica.

Pressão máxima às vésperas da “decisão” contra o Santos

O fim de tarde em Rio Claro expõe o clima de limite no Velo Clube. A quatro dias do jogo que define a permanência na elite paulista, membros da torcida organizada entram no gramado do Benitão, cercam jogadores e comissão e cobram entrega total em campo. O time ocupa a 15ª posição, com apenas 5 pontos em oito rodadas, e precisa vencer o Santos para escapar do rebaixamento no Paulistão de 2026.

O treino desta quarta-feira, no estádio Benito Agnelo Castellano, vira palco de um raro encontro direto entre arquibancada e vestiário. Em vídeo publicado nas redes sociais da Torcida Organizada Geral do Velo, um torcedor discursa diante do elenco e leva a cobrança ao extremo ao citar Neymar, que pode estrear na temporada justamente no duelo de domingo, em Rio Claro. “Preciso contar com cada um de vocês suando sangue lá. Se for para tirar o Neymar da Copa, tira aquele filho da p… da Copa. F…-se, mano. Tem que fazer o que for preciso para poder ganhar esse jogo”, afirma, em fala que rapidamente circula fora do universo velista.

O Santos chega à última rodada com 9 pontos, sonhando com vaga no G-8. Precisa vencer e torcer por tropeços de rivais para avançar à fase final. Para o Velo, o cenário é mais simples e mais dramático: um triunfo em casa basta para se manter na Série A1, já que Primavera e Noroeste, com 7 pontos cada, se enfrentam em Indaiatuba e inevitavelmente tiram pontos um do outro.

O histórico recente alimenta a esperança dos torcedores. Em 2025, o Velo já derruba o Santos no mesmo Benitão, por 2 a 1, em uma das vitórias mais celebradas da campanha. Um ano depois, a lembrança desse jogo serve de combustível, mas também aumenta a cobrança sobre um elenco que marca só 2 gols e sofre 7 no Estadual, números idênticos aos da Ponte Preta, já rebaixada.

Torcida fala em apoio, diretoria vê constrangimento e risco

O encontro no treino vira disputa de narrativa em poucas horas. Nas redes, a Geral do Velo define o ato como uma conversa “objetiva, sincera e respeitosa” com jogadores e comissão técnica. “O presidente Boquinha (que sempre viveu de politicagem) pode tentar nos calar o quanto quiser; jamais conseguirá, pois o Benitão foi construído pela torcida velista e pertence a ela!”, escreve o grupo, em texto que mistura apoio, cobrança e ataque direto à cúpula do clube.

A organizada insiste que não há invasão, mas sim um acordo para a entrada no estádio, e cobra comprometimento de todos. “Ressaltamos nosso apoio, mas lembramos do compromisso e comprometimento que eles devem ter ao vestir o manto rubro-verde”, afirma a nota. O texto responsabiliza a diretoria “pelo momento ruim” e estende a crítica a elenco e comissão, pedindo reação “como homens”. “Não assistiremos passivamente e de braços cruzados ver um projeto promissor desmoronar por causa da vaidade, ostracismo e falta de profissionalismo de quem quer que seja.”

Na outra ponta, o clube adota tom duro. Em comunicado oficial, o Velo afirma que “não compactua com a invasão ocorrida na tarde desta quarta-feira, quando um grupo da torcida organizada interrompeu o treinamento do elenco profissional”. A direção fala em ação com “clara intenção de constranger jogadores e membros da comissão” e vincula o episódio à sequência de incidentes que pode gerar punições esportivas.

O texto lembra o arremesso de artefatos explosivos no empate por 1 a 1 com o Bragantino, na rodada anterior, no mesmo Benitão. Segundo o clube, tanto a interrupção do treino quanto o uso de bombas estão sob apuração das autoridades e colocam em risco a integridade de torcedores, funcionários e atletas. A diretoria alerta que o comportamento pode levar à perda de mando de campo em pleno ano em que o Velo volta a disputar duas competições nacionais.

O comunicado oficial tenta reposicionar o foco. A direção ressalta que o Velo “alcança, nos últimos anos, patamares jamais atingidos” em sua história centenária, e cita a vaga na Série D do Brasileiro e na Copa do Brasil de 2026, na qual o time estreia já em 19 de fevereiro, contra o Vasco-AC. A aposta é em um discurso de continuidade: “Essas conquistas são fruto de planejamento, trabalho sério e união de todos que fazem parte da instituição.”

Clube sob tensão entre permanência, calendário cheio e Neymar

O jogo de domingo, no Benitão, carrega um peso que vai além da tabela do Paulistão. A queda para a Série A2 significaria uma ruptura brusca em um ciclo recente de crescimento esportivo e financeiro. A manutenção na elite garante exposição maior, cotas de TV mais robustas e um ambiente mais favorável para encarar a Série D e a Copa do Brasil ainda neste primeiro semestre de 2026.

A possibilidade de enfrentar um Santos com Neymar em campo amplia a vitrine, mas também a ansiedade. O planejamento da comissão técnica santista prevê a estreia do atacante já recuperado de lesão justamente nessa rodada. A presença do camisa 10 transforma o jogo em evento nacional, aumenta a audiência, atrai imprensa de fora e projeta o Velo a um público que, em geral, acompanha o clube apenas pelos resultados.

O duelo de interesses é evidente. O Santos precisa vencer para ainda sonhar com o G-8 e avançar no Estadual, etapa importante em um ano que também reserva a disputa do Campeonato Brasileiro. O Velo precisa do mesmo resultado para se manter vivo em seu projeto de consolidação entre os grandes de São Paulo. Entre os dois, a arbitragem e as autoridades de segurança terão de lidar com o clima inflamado que já se anuncia desde o treino de quarta-feira.

Jogadores e comissão técnica, blindados publicamente pela diretoria, tentam se afastar do conflito político e responder em campo. A cúpula afirma confiar “totalmente” no elenco e ressalta que todos seguem “concentrados e comprometidos” com a permanência. A organizada, por sua vez, reforça que seu compromisso “é com a instituição” e promete não recuar na cobrança.

Próximos dias definem rumo esportivo e político do Velo

Os desdobramentos da invasão ao treino ainda dependem das apurações em curso, tanto internas quanto policiais. O histórico recente de punições a clubes por atos de torcidas organizadas no país deixa o Velo em alerta, especialmente pela possibilidade de perder o próprio Benitão em jogos decisivos da temporada, seja no Paulistão, na Série D ou na Copa do Brasil.

O domingo coloca em 90 minutos a síntese dessa tensão. Uma vitória sobre o Santos, repetindo o placar de 2 a 1 de 2025, preserva o planejamento, mantém o Velo na Série A1 e alivia a relação entre arquibancada e diretoria, ao menos por ora. Um tropeço reacende o fantasma da queda, fragiliza a gestão e dá novo combustível a um grupo de torcedores que se vê dono simbólico do estádio e da história do clube. A resposta virá em campo, mas a disputa por quem, de fato, conduz o futuro do Velo tende a continuar muito além do apito final.

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