Gen Z perde espaço político às vésperas da eleição em Bangladesh
Os líderes estudantis que derrubam o governo de Bangladesh em 2024 chegam enfraquecidos à eleição nacional de 12 de fevereiro de 2026. Divisões internas, alianças controversas e a volta de partidos tradicionais tiram dos jovens o protagonismo político às vésperas da votação mais decisiva do país em décadas.
Filhos da revolução encostados na lateral
Bangladesh leva 127 milhões de eleitores às urnas nesta quinta-feira em sua primeira eleição nacional desde o levante estudantil que derruba Sheikh Hasina, em julho de 2024. O país tenta sair de dois anos de turbulência, repressão, prisões em massa e um vácuo de poder que parecia abrir espaço para uma geração política inteiramente nova.
Os jovens que lideram a revolta, porém, assistem de fora à disputa central. O Partido Nacional dos Cidadãos (PNC), criado como projeto político da geração Z, entra rachado na campanha, com lideranças em confronto público e base desmobilizada. A aliança firmada em dezembro com o Jamaat-e-Islami, principal força islamista do país, cristaliza a perda de aura reformista do grupo e provoca desconfiança entre eleitores urbanos e progressistas.
A guinada começa meses antes, em setembro, quando candidatos ligados ao braço estudantil do Jamaat vencem com folga eleições em diretórios das principais universidades, incluindo a prestigiada Universidade de Daca. É a primeira vez, desde a independência em 1971, que um partido islamista assume o controle do diretório estudantil da instituição, tradicional reduto de movimentos seculares e de esquerda.
O resultado funciona como termômetro antecipado do humor nacional. O PNC, que nasce sob o símbolo da revolução digital e do protesto em rede, não consegue manter a hegemonia nos campi. Em vez de consolidar identidade própria, aceita condições duras impostas pelo Jamaat para participar da chapa multipartidária e se torna coadjuvante na disputa pelo Parlamento.
Pelo acordo, o PNC lança apenas 30 candidatos aos 300 assentos em jogo, e só duas são mulheres. O Jamaat apresenta mais de 200 nomes, todos homens. A configuração desmonta a imagem de partido jovem, plural e renovador que os líderes estudantis constroem nas ruas em 2024 e expõe a distância entre o discurso da revolução e a prática da coalizão eleitoral.
Do levante nas ruas ao recuo nas urnas
A eleição deste ano acontece sob a sombra da repressão que marca o fim do governo Hasina. Em agosto de 2024, a polícia mata pelo menos 52 pessoas em um único dia em Daca, durante confrontos que antecedem a fuga da primeira-ministra para a Índia. No total, cerca de 1.400 pessoas morrem nos protestos, segundo a ONU, a maioria por ação das forças de segurança.
O estopim do levante está no restabelecimento de um sistema de cotas no serviço público que reserva um terço das vagas a familiares de veteranos da guerra de independência de 1971. A medida é vista por estudantes como símbolo de um Estado capturado por uma geração de heróis oficiais e seus descendentes. A reação do governo, com internet cortada, prisões sob a Lei de Segurança Digital e disparos com munição real, transforma a pauta específica em movimento nacional pelo fim do regime.
Com a queda de Hasina, em 5 de agosto de 2024, e a formação de um governo interino liderado por Muhammad Yunus, Nobel da Paz, parecia inevitável que os jovens assumissem parte relevante do poder. Alguns dos principais articuladores dos protestos passam a ocupar cargos no gabinete e em conselhos de transição. O PNC nasce desse ambiente, com a ambição declarada de levar às urnas a energia das ruas.
O arranjo político pós-Hasina, porém, se mostra menos aberto do que os estudantes imaginam. A Liga Awami, partido da ex-primeira-ministra, é banida da política por decisão do governo interino, e seu registro é cassado pela Comissão Eleitoral. Quem ocupa o espaço vago é o Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB), velho adversário de Hasina e agora reposicionado como força liberal democrática, sob comando de Tarique Rahman, 60 anos, recém-chegado de 17 anos de exílio em Londres.
O PNB, que boicota as eleições de 2014 e 2024, entra nesta disputa como favorito. Recupera quadros, reorganiza diretórios, explora o ressentimento contra a repressão da era Hasina e oferece ao eleitorado uma promessa direta: estabilidade, reformas políticas gradativas e combate à corrupção em instituições dominadas por famílias políticas. O espaço para um terceiro polo jovem e radicalmente renovador diminui a cada semana de campanha.
Dentro do PNC, divergências sobre a aliança com o Jamaat aprofundam fissuras ideológicas. Parte da militância acusa a direção de trair o espírito secular e inclusivo dos protestos; outra argumenta que, sem a estrutura e a capilaridade do partido islamista, o grupo não passa da condição de força de pressão. As deserções silenciosas e o recuo em candidaturas femininas e de minorias corroem a imagem pública do partido.
Uma eleição decisiva para democracia e região
Os 127 milhões de bangladeshianos aptos a votar escolhem, em um só dia, 300 parlamentares e o rumo institucional do país. O pleito ocorre no sistema distrital simples, em que o mais votado em cada distrito garante a cadeira, mesmo sem maioria absoluta. Ao mesmo tempo, o eleitor decide em um referendo se aprova ou não a chamada Declaração Nacional de Julho, um pacote de 84 mudanças constitucionais que reduz poderes do Executivo e cria um Parlamento bicameral.
Uma vitória do “sim” obriga o próximo governo a dividir o poder entre uma Câmara Baixa e uma Câmara Alta, reforçar freios e contrapesos e limitar a concentração política que domina o país nas últimas décadas. Para milhões de eleitores, sobretudo os mais jovens, a decisão vale tanto quanto a escolha do partido vencedor. A dúvida é se a geração que coloca seu corpo nas ruas em 2024 terá voz real na arquitetura desse novo sistema.
A campanha acontece sob forte tensão. Relatos de confrontos, intimidação de eleitores e mortes de ativistas se espalham por diversas regiões. Centenas de armas saqueadas durante o levante de 2024 seguem desaparecidas, o que alimenta temores de violência armada em dia de votação. A Comissão Eleitoral responde com medidas tecnológicas inéditas: reconhecimento facial em áreas sensíveis, rastreamento por aplicativo das urnas e, pela primeira vez, voto por correio para mais de 800 mil bangladeshianos no exterior.
As redes sociais se tornam o principal palco da disputa pela juventude. TikTok, Facebook e YouTube concentram campanhas segmentadas e uma enxurrada de conteúdos falsos gerados por ferramentas de inteligência artificial. Vídeos manipulados tentam reescrever episódios do levante, associar rivais a potências estrangeiras e inflar boatos sobre fraude. Em um país em que mais de 40% dos eleitores têm entre 18 e 37 anos, o controle da narrativa digital pode valer mais que comícios em praça pública.
A perda de protagonismo do PNC abre espaço para que outras forças se apresentem como representantes da juventude. Lideranças do PNB reforçam discurso anticorrupção e prometem proteção a ativistas perseguidos sob governos anteriores. O Jamaat exibe linguagem renovada, fala em “independência do Judiciário” e tenta suavizar a imagem de partido conservador em questões sociais. Os estudantes que derrubam Hasina percebem que, sem organização partidária robusta, sua revolução corre o risco de ser apropriada por quem sempre esteve nas estruturas de poder.
O dia seguinte da geração que mudou o país
O resultado desta quinta-feira definirá mais que a composição de um Parlamento. A forma como o novo governo lida com responsabilização por abusos, combate à corrupção e reforma institucional vai indicar se o levante de 2024 inaugura uma nova etapa ou será lembrado apenas como parêntese violento em uma história de alternância entre dinastias políticas.
Bangladesh entra na votação sob olhar atento da região. A relação com a Índia está estremecida desde que Hasina recebe asilo em território indiano. O diálogo com o Paquistão, marcado por meio século de desconfiança depois da guerra de 1971, começa a descongelar. Estados Unidos e China disputam influência em Daca, onde veem um ponto estratégico em rotas comerciais e de segurança no Sul da Ásia.
O futuro do PNC e dos líderes da geração Z depende de como eles respondem à frustração desta eleição. Se conseguirem reorganizar a base, enfrentar suas contradições e reconstruir uma agenda própria, ainda podem influenciar a implementação das reformas constitucionais e pressionar por maior transparência. Se se dissolverem em alianças de ocasião, correm o risco de ver sua revolução incorporada por partidos que conhecem bem a política tradicional e sabem sobreviver a cada ciclo eleitoral.
Nas próximas semanas, o país descobre se a energia de 2024 continua viva o bastante para atravessar as urnas de 2026 ou se a geração que derruba um governo terá de esperar mais uma rodada para, de fato, governar.
