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Delcy Rodríguez diz ter convite dos EUA e reafirma Maduro presidente

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirma ter recebido um convite oficial para visitar os Estados Unidos e defende Nicolás Maduro como presidente legítimo. A declaração é dada em 12 de fevereiro de 2026, em meio a uma tentativa de reaproximação entre Caracas e Washington.

Reaproximação inédita após três décadas

Rodríguez anuncia o convite em entrevista à NBC News, a primeira que concede a um veículo internacional desde que assume o comando interino do Executivo, em 3 de janeiro. Ela sucede Nicolás Maduro após a captura do presidente, que enfrenta um julgamento em Nova York. O movimento abre uma cena inédita: se a viagem sair do papel, será a primeira visita de um governante venezuelano aos Estados Unidos em mais de 30 anos, fora do circuito de organismos multilaterais como a ONU.

“Fui convidada para os Estados Unidos”, afirma Rodríguez, ao descrever as conversas com autoridades americanas. “Estamos considerando ir assim que estabelecermos a cooperação e pudermos avançar com tudo”, acrescenta. A fala coincide com a passagem, em 11 de fevereiro, do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, por Caracas. O encontro, realizado na capital venezuelana, concentra-se na agenda energética e em possíveis projetos conjuntos em petróleo, gás e investimentos em infraestrutura.

Wright, que fala com jornalistas após a reunião, promete um redesenho profundo da relação com Caracas. Segundo ele, haverá “uma mudança absolutamente dramática” no estado das relações bilaterais. O tom contrasta com décadas de sanções, isolamento diplomático e disputas abertas entre Washington e o chavismo, agravadas desde a morte de Hugo Chávez, em 2013, e o endurecimento das sanções a partir de 2017.

Maduro inocente e “presidente legítimo”

No centro da mensagem de Rodríguez está a defesa direta de Nicolás Maduro. Ela insiste que o ex-presidente continua sendo a autoridade legítima do país, mesmo após a captura e o processo em curso nos Estados Unidos. “Posso te dizer isso como advogada, que eu sou. O presidente Maduro e Cilia Flores, a primeira-dama, são inocentes”, afirma à NBC, ao comentar as acusações que tramitam em Nova York.

O respaldo público reforça a estratégia do chavismo de apresentar a transição interna como circunstancial e não como ruptura. Ao reiterar que Maduro é o mandatário legítimo, Rodríguez tenta proteger a base de poder construída ao longo de mais de uma década e sinaliza que qualquer mudança passa, necessariamente, pela aceitação desse papel por parte de Washington. A postura coincide com o discurso do governo desde o início do ano, quando porta-vozes repetem que não reconhecem alternativas paralelas de poder.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, também se pronuncia após o encontro entre Rodríguez e Wright. Sem entrar em detalhes sobre o convite, ele destaca a aproximação com o governo interino em Caracas. “Temos um novo grupo de pessoas com o qual nos tornamos muito próximos”, afirma, em referência à equipe de Rodríguez. A fala indica que a Casa Branca, ao menos publicamente, prioriza o contato direto com o chavismo, em vez de apostar apenas na oposição tradicional.

Energia, sanções e a disputa pelo protagonismo

A possível viagem de Rodríguez aos Estados Unidos se desenha sobre um tabuleiro sensível: o da energia. Com reservas de petróleo estimadas em mais de 300 bilhões de barris, a Venezuela permanece como um dos principais ativos estratégicos da região. As sanções impostas a partir de 2017 atingem em cheio a estatal PDVSA, cortam receitas e empurram o país para uma crise profunda. A reabertura de canais com Washington pode destravar acordos, flexibilizar restrições e recolocar empresas americanas no mapa venezuelano.

Autoridades dos dois lados discutem opções de cooperação que vão desde licenças específicas para exportação de petróleo até projetos conjuntos de modernização de refinarias. Na prática, qualquer avanço impacta não só a economia venezuelana, mas também o mercado global de energia, em um momento de volatilidade de preços e de disputas por oferta estável. A sinalização de Wright de uma “mudança dramática” é lida, em Caracas, como porta aberta para alívio gradual das sanções e acesso a novos fluxos de caixa em dólar.

Enquanto o governo interino ganha espaço, a oposição enfrenta um cenário mais estreito. María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2025, tenta se firmar como rosto de uma transição democrática. Ela se encontra com Trump em janeiro, em busca de um apoio mais contundente à sua plataforma. Ainda assim, até agora a Casa Branca evita romper com o diálogo com o chavismo, o que limita a margem de manobra da líder opositora.

Oposição sob pressão e incertezas à frente

Rodríguez não poupa críticas à rival. Questionada sobre Machado, responde em tom de desdém. “Com relação à sua vida, não entendo por que há tanto alvoroço”, diz. Em seguida, endurece o discurso sobre um possível retorno da opositora à Venezuela. “Quanto ao seu retorno ao país, ela terá que responder perante a Venezuela. Por que pediu uma intervenção militar? Por que pediu sanções contra a Venezuela e por que comemorou as ações que ocorreram no início de janeiro?”, afirma.

Machado deixa o país de forma clandestina para viajar à Noruega, em dezembro, e anuncia que pretende voltar, sem indicar quando. Enquanto isso, a correlação de forças se desloca. O chavismo, antes isolado, retoma o diálogo com Washington e tenta converter a agenda energética em blindagem política interna. A oposição, que durante anos aposta na pressão internacional e nas sanções como instrumentos de mudança, vê esse capital se diluir à medida que o governo americano busca resultados concretos na área de energia e estabilidade regional.

A confirmação da viagem de Rodríguez ainda depende de ajustes diplomáticos e da disposição da Casa Branca em transformar o convite em gesto político claro. O Departamento de Estado é questionado pela CNN sobre os termos da proposta, mas não responde até o momento. A ausência de detalhes alimenta dúvidas sobre o alcance real dessa reaproximação e sobre o que Washington está disposto a conceder em troca de garantias políticas e energéticas.

Os próximos meses definirão se o convite a Rodríguez inaugura um novo capítulo nas relações entre Venezuela e Estados Unidos ou se ficará restrito a um gesto de conveniência. A equação envolve petróleo, sanções, legitimidade presidencial e o futuro de uma oposição que tenta sobreviver em terreno cada vez mais estreito. O desfecho indicará não apenas o rumo de Caracas, mas também o tipo de influência que Washington pretende exercer na América do Sul nesta década.

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