Justiça italiana encerra audiência sobre extradição de Carla Zambelli
O Tribunal de Apelação de Roma encerra nesta quinta-feira (12) a audiência que decide o futuro da ex-deputada Carla Zambelli. Os juízes italianos concluem a análise do pedido de extradição apresentado pelo Brasil, mas ainda não divulgam o veredito. O governo brasileiro aguarda a decisão que pode definir se a aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro volta para cumprir pena no país.
Processo chega a fase decisiva em Roma
A sessão desta quinta-feira marca o ponto mais avançado do processo aberto após a prisão de Zambelli na Itália, em 29 de julho de 2025. A ex-deputada é detida em uma operação conjunta entre autoridades italianas e brasileiras, em cumprimento a uma ordem internacional expedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Desde então, ela permanece custodiada em território italiano enquanto a Justiça local avalia se atende ao pedido de extradição.
O caso ganha peso diplomático e político porque envolve uma ex-parlamentar brasileira condenada em duas ações penais pelo STF. Em uma delas, a Corte impõe a pena de 10 anos de prisão por invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e falsidade ideológica. Os ministros concluem que Zambelli atua em associação com o hacker Walter Delgatti Neto para alterar registros oficiais do Judiciário e criar documentos falsos que sugerem manipulação de decisões.
Na segunda condenação, o Supremo fixa pena de 5 anos e 3 meses de prisão, em regime semiaberto, por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal. O episódio envolve a perseguição armada a um homem em São Paulo, registrada em vídeo às vésperas do segundo turno das eleições de 2022. A soma das penas ultrapassa 15 anos de prisão, o que reforça a pressão sobre o governo brasileiro para que a ex-deputada cumpra as decisões em solo nacional.
Zambelli deixa o Brasil logo após a primeira condenação se tornar pública e passa a circular por outros países até ser localizada na Itália. A defesa sustenta que ela é vítima de perseguição política e afirma que sua permanência em Roma configura um exílio necessário diante do que chama de “parcialidade” do STF. O argumento tenta deslocar o caso do campo criminal para o terreno dos direitos humanos e da proteção a opositores.
Disputa jurídica cruza fronteiras
O processo de extradição avança em meio a sucessivos embates entre defesa e acusação em Roma. Em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, os juízes italianos adiam por mais de uma vez o julgamento de mérito. O tribunal alega necessidade de tempo adicional para examinar a extensa documentação enviada por Brasília, que inclui cópias integrais dos acórdãos, laudos periciais e registros das operações policiais.
Na terça-feira (10), a Corte de Apelação rejeita um recurso apresentado pelos advogados da ex-deputada que pedia a substituição dos magistrados responsáveis pelo caso. A defesa tenta afastá-los sob a alegação de “parcialidade” e de suposta predisposição para atender a demandas do governo brasileiro. O tribunal, porém, mantém o colegiado original e reafirma a regularidade do rito processual, sinalizando resistência a manobras protelatórias.
O pedido de extradição se apoia em acordos bilaterais e em tratados internacionais de cooperação penal firmados entre Brasil e Itália. Em situações desse tipo, os juízes italianos não reavaliam a culpa do condenado, mas verificam se as decisões estrangeiras respeitam garantias básicas de defesa e se os crimes têm equivalência no ordenamento local. No caso de Zambelli, o dossiê enviado pelo STF descreve delitos que também são previstos na legislação italiana, como fraude informática e porte ilegal de arma.
A posição da Justiça da Itália tem potencial para influenciar outros processos de cooperação penal entre os dois países. Uma eventual negativa à extradição, por exemplo, pode ser lida como crítica indireta à atuação do STF e alimentar discursos de perseguição judicial no Brasil. Uma decisão favorável ao pedido brasileiro, por outro lado, reforça a confiança na Corte e consolida a imagem de alinhamento entre as instituições dos dois países no combate a crimes digitais e políticos.
Expectativa por decisão e próximos passos
O desfecho da audiência abre três caminhos formais. Os juízes podem autorizar a extradição, negar o pedido ou exigir esclarecimentos adicionais às autoridades brasileiras antes de decidir. Em qualquer cenário, a defesa de Zambelli deve tentar alongar o processo com novos recursos e apelos a instâncias superiores italianas, o que pode estender a disputa por meses.
Uma decisão favorável ao Brasil coloca o Executivo diante de um capítulo sensível na relação com a base bolsonarista, ainda mobilizada em torno de figuras condenadas pelo STF. A volta de Zambelli em condição de presa alimenta o debate sobre limites da atuação política nas redes e responsabilidade criminal por ataques a instituições. Uma derrota na Corte italiana, por sua vez, pode fortalecer o discurso de perseguição adotado pela ex-deputada e por aliados, além de obrigar o governo a recalibrar sua estratégia de cooperação com Roma.
Enquanto a Corte não anuncia o veredito, o caso permanece no centro de uma disputa que ultrapassa fronteiras e coloca à prova a confiança mútua entre Brasil e Itália. A decisão dos magistrados romanos dirá se as condenações do STF se traduzem em prisão efetiva ou se a ex-deputada seguirá sustentando, a partir do exterior, a narrativa de que é vítima de um processo político. A resposta da Justiça italiana definirá não apenas o destino de Carla Zambelli, mas o alcance prático da cooperação internacional em casos que misturam tecnologia, criminalidade e polarização política.
