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Zema usa vídeo com IA para ironizar desfile em homenagem a Lula

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), publica em 12 de fevereiro de 2026 um vídeo com inteligência artificial que ironiza o desfile da Acadêmicos de Niterói, escola do Grupo Especial do Rio que homenageia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Carnaval deste ano. A peça, divulgada a três dias do desfile na Marquês de Sapucaí, transforma críticas políticas em samba-enredo e reacende o debate sobre propaganda eleitoral antecipada e uso de tecnologia nas disputas de poder.

IA entra na avenida e acirra disputa política

No vídeo, Zema pergunta ao público: “E se o Lula recebesse uma homenagem sincera nesse carnaval? Seria mais ou menos assim…”. A partir daí, imagens geradas por inteligência artificial simulam um desfile na Sapucaí, com carros alegóricos, alas coreografadas e um enredo que revisita alguns dos principais escândalos que marcam a trajetória política do petista. O presidente aparece caracterizado como churrasqueiro, vestindo avental e segurando espetos, enquanto o samba menciona mensalão, Lava Jato e desvios em aposentadorias do INSS.

Um dos trechos mais compartilhados traz o verso: “Propina correndo solta, petrolão estourou. Petrobras sangrando forte, o Brasil que pagou”. Em outro momento, a letra ironiza uma das promessas de campanha de Lula em 2022: “Cadê minha picanha, que disseram que ia ter?”. O tom é de sátira aberta, num formato de marchinha e samba-enredo, com estética de transmissão de TV ao vivo, mas inteiramente recriado por algoritmos.

O alvo é o enredo da Acadêmicos de Niterói, que decide prestar homenagem a Lula no desfile de 15 de fevereiro de 2026, na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. A escola, estreante no Grupo Especial, aposta na figura do presidente como símbolo de superação e ascensão social, o que irrita setores da oposição. Para aliados de Zema, o desfile ultrapassa o limite da celebração cultural e se aproxima de um palanque fora de época.

O incômodo chega à Justiça eleitoral. Adversários do governo federal protocolam ações para tentar barrar o desfile, sob o argumento de que a homenagem configuraria propaganda eleitoral antecipada em favor de Lula, mesmo sem campanha oficialmente aberta. As ações não prosperam. A Justiça mantém o desfile, reforça a autonomia das escolas de samba e afasta, por ora, o risco de censura prévia ao enredo.

Pré-campanha no limite e tecnologia como arma

A reação de Zema, pré-candidato declarado à Presidência em 2026, reposiciona o debate. Ao recorrer à inteligência artificial para simular o desfile e construir um enredo alternativo, ele ocupa o mesmo território simbólico da Sapucaí, mas com outra narrativa. Em vez de celebrar o presidente, o vídeo pinta um Lula associado a escândalos de corrupção, promessas não cumpridas e frustração econômica.

O uso da tecnologia não é detalhe técnico. Ao contrário de um vídeo tradicional, o material com IA permite criar, em poucos minutos, cenários grandiosos, personagens verossímeis e uma fantasia visual que dialoga diretamente com o imaginário do Carnaval carioca. Na prática, Zema leva para a tela de celular um desfile inteiro, sem carros montados, sem ensaios e sem restrições de orçamento.

O movimento expõe uma nova fronteira nas disputas políticas brasileiras. A mesma avenida que consagra enredos históricos sobre escravidão, religiões de matriz africana e figuras da cultura popular vira palco de uma guerra simbólica turbinada por algoritmos. O desfile real tenta construir a imagem de Lula como personagem de enredo vitorioso; o desfile virtual busca colar nele a memória de denúncias que marcaram o mensalão, descoberto em 2005, e a Lava Jato, operação que ganha força a partir de 2014 e se desdobra em anos de processos, condenações e reviravoltas judiciais.

A oposição ligada a Zema passa a tratar o vídeo como resposta política à decisão judicial que manteve o desfile da Acadêmicos de Niterói. Parlamentares aliados divulgam o conteúdo em massa, associam as cenas às discussões sobre gasto público e cobram regras mais rígidas para manifestações culturais em anos pré-eleitorais. Do outro lado, petistas classificam a iniciativa como desinformação, lembram que condenações de Lula são anuladas pelo Supremo Tribunal Federal e acusam Zema de usar recursos tecnológicos para reforçar uma narrativa já rejeitada em decisões judiciais.

O alcance do material ainda não é oficializado por plataformas, mas a repercussão é imediata. Em poucas horas, o vídeo circula em diferentes redes, entra em grupos de WhatsApp e rende disputas de versões em X, Instagram e Telegram. Em um cenário em que 8 em cada 10 brasileiros se informam principalmente pelas redes sociais, segundo pesquisas recentes de institutos de opinião, o uso de IA para produzir conteúdo político tende a ganhar peso real nas disputas eleitorais.

Limites da crítica, impacto eleitoral e o que vem pela frente

Especialistas em direito eleitoral ouvidos ao longo do dia apontam uma zona cinzenta. De um lado, o vídeo de Zema pode ser lido como crítica política, protegida pela liberdade de expressão. De outro, o fato de ele ser pré-candidato declarado, citar o presidente de forma direta, usar linguagem de campanha e publicar a peça em fevereiro de 2026 reforça a percepção de pré-campanha antecipada. A avaliação final, alertam juristas, dependerá de eventuais representações formais no Tribunal Superior Eleitoral e dos critérios que a Corte adotar para conteúdos produzidos com IA.

O episódio também reforça a pergunta sobre quem controla a fronteira entre sátira e desinformação. Em um Carnaval que tradicionalmente abriga marchinhas críticas a governantes de todas as cores, a diferença agora está na escala e na sofisticação tecnológica. Um conteúdo que parte de um gabinete estadual pode, em minutos, atingir milhões de eleitores em todo o país, sem aviso, sem rótulo claro de ficção e com aparência de realidade televisiva.

Para o mundo do samba, o embate tem efeito imediato. A Acadêmicos de Niterói chega à avenida sob holofotes extras, pressionada por um debate que extrapola a disputa entre escolas. A agremiação passa a ser vista, por parte do público, não apenas como candidata ao título, mas como protagonista de uma batalha narrativa entre governo federal e oposição liberal. A decisão da Justiça que libera o desfile não encerra o conflito; apenas o desloca das petições para as redes sociais.

A pré-campanha presidencial ganha um capítulo simbólico na Sapucaí. Zema testa a força de um discurso que mistura crítica fiscal, moralidade pública e ironia digital. Lula e o PT avaliam se respondem diretamente ao vídeo ou se esvaziam o tema apostando no impacto positivo da homenagem na avenida. O comportamento do público na noite de 15 de fevereiro, as notas dos jurados e a reação posterior nas redes devem indicar se a estratégia de usar inteligência artificial como tamborim eleitoral rende votos, desgaste ou apenas mais um enredo na disputa por atenção.

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