Ciencia e Tecnologia

Nova corrida à Lua opõe EUA e China e reposiciona Brasil no tabuleiro espacial

Estados Unidos e China aceleram, até 2030, uma nova corrida para pousos tripulados na Lua, com foguetes gigantes, armas antissatélites e acordos internacionais que envolvem o Brasil. A disputa redefine poder militar, tecnológico e econômico no espaço e reacende uma rivalidade que lembra a Guerra Fria.

Espaço volta a ser fronteira de poder

O calendário está traçado. A Nasa mira o fim da década para levar novamente astronautas à superfície lunar com o programa Artemis II e futuros desdobramentos. A China anuncia o mesmo horizonte, até 2030, para colocar seus taikonautas na Lua sob comando da Administração Espacial Nacional da China (CNSA). A meta é ocupar áreas estratégicas, inclusive o lado oculto, onde o país asiático já realiza pousos robóticos inéditos.

A disputa não se resume a bandeiras fincadas no solo lunar. Envolve foguetes reutilizáveis de grande porte, como o Starship, da SpaceX, mísseis capazes de derrubar satélites em órbita e cadeias inteiras de negócios, de telecomunicações à defesa. “Um aspecto central da capacidade militar no espaço hoje é o desenvolvimento de armas antissatélites”, afirma Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra. “Tratam-se de mísseis balísticos capazes de atingir e destruir satélites para ‘cegar’ o inimigo durante um conflito.”

Desde 1957, com o Sputnik, o espaço é visto como terreno militar. A lógica não muda em 2026. Estados Unidos, China, Rússia e Índia já testam armas antissatélites com sucesso, criando nuvens de destroços orbitais e um novo patamar de risco estratégico. Carmona classifica essa tecnologia como “o marco principal do poder militar espacial contemporâneo”.

Enquanto a China se consolida como principal rival de Washington, o desenho institucional americano muda em relação à primeira corrida espacial. O protagonismo não é apenas da Nasa. Empresas privadas, em especial a SpaceX de Elon Musk, ocupam o centro do palco. Foguetes que retornam em pé, contratos bilionários e testes sucessivos do Starship compõem um modelo em que recursos públicos e capital de risco se misturam.

O plano, porém, não é consensual entre ex-dirigentes da agência. “Esse é um plano que nenhum administrador da Nasa, que eu tenha conhecimento, teria selecionado se tivesse tido a escolha”, criticou James Bridenstine, administrador da Nasa no governo Donald Trump. Ele aponta dúvidas sobre prazos e sobre a dependência de um único sistema, o que pode atrasar a volta de astronautas à superfície lunar se houver falhas técnicas.

Negócios privados, armas em órbita e papel do Brasil

A nova corrida espacial não repete a lógica fechada da Guerra Fria. O orçamento e o ritmo de lançamentos dependem hoje de empresas, investidores e contratos comerciais globais. “Diferente da Guerra Fria, onde os programas eram estritamente governamentais, a corrida atual está aberta e o apoio da indústria privada é essencial para que os americanos tentem garantir a liderança novamente”, avalia Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM.

O movimento divide até ícones do passado. Entre 2010 e 2011, o astronauta Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na Lua em 1969, criticou em depoimento ao Congresso americano a abertura do setor à iniciativa privada. Armstrong morreu aos 82 anos pouco depois, deixando registrada a preocupação com uma Nasa mais dependente de contratos e menos de projetos próprios.

As mudanças não se limitam aos Estados Unidos. A China combina programas militares e civis sob forte controle estatal, mas utiliza parcerias internacionais para driblar barreiras tecnológicas e políticas. Nos anos 1980, o país enviou cientistas ao Brasil para aprender com engenheiros que haviam passado pela Nasa. Da cooperação nasceu o programa CBERS, sigla em inglês para Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres, que hoje monitora o desmatamento da Amazônia e outras áreas sensíveis.

“Naquele momento os chineses eram muito interessados em cooperar com o Brasil na área espacial e eles fizeram a proposta ao governo brasileiro de se criar um programa conjunto”, lembra Maurício Santoro, professor da UERJ e especialista em relações China-Brasil. As sanções impostas por Estados Unidos e Europa à China facilitaram a aproximação com Brasília, que não sofria as mesmas restrições. Quarenta anos depois, os satélites CBERS continuam em operação e se tornaram referência no uso de dados orbitais contra crimes ambientais.

O coronel Carlos Moura, ex-presidente da Agência Espacial Brasileira, diz que o espaço já não é disputado apenas por governos ou por símbolos ideológicos. “Hoje não são apenas governos que disputam o espaço; há uma forte competição por negócios envolvendo grandes investidores privados”, afirma. Ele ressalta que geolocalização, comunicação bancária, previsão de safras agrícolas e monitoramento climático dependem de constelações de satélites, invisíveis para a maior parte da população, mas cruciais para a vida cotidiana.

Moura vê o Brasil em posição desconfortável entre necessidade e vulnerabilidade. “O país domina partes da tecnologia e sabe transformar informações espaciais em benefícios para a sociedade, mas ainda não possui uma economia espacial consolidada”, afirma. A comparação com a indústria aeronáutica e o agronegócio, ambos competitivos no cenário internacional, revela um atraso que especialistas classificam como estratégico.

Brasil tenta voltar ao jogo lunar

O esforço para reduzir essa distância ganha novo capítulo com as parcerias firmadas na década de 2020. Em 2025, China e Brasil anunciam a construção de um laboratório conjunto para tecnologias espaciais, em acordo com a estatal chinesa CETC. O projeto se conecta a um grande telescópio na América do Sul e aprofunda laços científicos entre os dois países, num momento em que Pequim disputa palmo a palmo a Lua com Washington.

Especialistas brasileiros defendem que a retomada de investimentos em lançadores, satélites e centros de pesquisa não é tema abstrato de “futuro distante”. Impacta a segurança da economia, da infraestrutura crítica e dos serviços básicos que chegam ao cidadão. Sem sistemas próprios, o país segue dependente de dados e plataformas estrangeiras em áreas sensíveis como defesa, controle de fronteiras e redes elétricas.

O debate ganha fôlego com a aproximação do lançamento da missão Artemis II, segundo voo tripulado do programa lunar americano. A CNN Brasil prepara, para março, uma série especial sobre “Brasil na Lua”, mapeando o que o país faz hoje em órbita e quais caminhos podem levá-lo a participar, de forma mais ativa, da nova era de exploração espacial. Os episódios devem abordar desde o histórico da base de Alcântara, criada em 1983, até os acordos recentes com potências estrangeiras.

Carmona, Moura e Santoro convergem num ponto: investir em espaço deixou de ser luxo tecnológico. É condição para preservar soberania num mundo em que conflitos, cadeias produtivas e dados estratégicos se projetam para além da atmosfera terrestre. A questão, para o Brasil, é decidir se quer apenas observar a corrida à Lua das arquibancadas ou se pretende voltar à pista antes que a linha de chegada de 2030 seja cruzada.

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